ago 18, 2016 - Opinião    Sem comentários

Continência na Rio-2016: uma ironia corre nas redes

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A força da internet é, muitas das vezes, mola propulsora de devaneios. Prova disso é essa imagem que circula nas redes sociais. Logo agora, tempo em que há jovens pedindo intervenção militar no Brasil. Eles ignoram os exemplos que habitam a História, a nossa e a dos outros. Por isso, mensagens como esta precisam ser combatidas com informação, sem qualquer paixão ou motivação política.

A montagem usa imagens de atletas prestando continência em pódios. Três fotos são na Rio-2016. Cinco, no Pan-Americano de Toronto, em 2015. Repare na diferença entre os agasalhos e no cordão das medalhas.

Quem pede a intervenção militar e compartilha mensagens como esta costuma bradar por aí que o Brasil vive sob ameaça comunista, que os comunistas isso, os comunistas aquilo, costuma dizer que os petralhas e corruPTos são a escória do universo.

Pois bem. Veja só a ironia que essas continências guardam. Os nossos atletas militares, medalhistas em Toronto-2015 e Rio-2016, fazem parte do Programa Atletas de Alto Rendimento, que investe, por ano, uns R$ 18 milhões na capacitação de esportistas.

E esse programa foi criado em 2008, no governo Lula. Trata-se de uma parceria dos ministérios da Defesa – à época comandado por Nelson Jobim, ex-presidente do Supremo – e do Esporte – à época sob chefia de Orlando Silva, o político baiano, hoje deputado federal por São Paulo. Detalhe: Orlando, o ex-ministro com nome de cantor, é filiado ao Partido… Comunista do Brasil.

Ou seja: quem usa nossos atletas militares em posts como este está, sem querer, reconhecendo o sucesso de um programa feito por gente que eles detestam.

Nada contra militares, nem contra comunistas. Eu não gosto mesmo é da ignorância.

ago 6, 2016 - Música, Recado    Sem comentários

Quando a morte toca o samba

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A ideia de escrever o “Segunda-feira, a história do Samba do Trabalhador” também surgiu de uma inquietação: registrar a vida e obra de quem faz o samba acontecer como forma de valorizar cada um deles. Por isso, o livro tem 100 verbetes de cantores, compositores e músicos que acrescentaram e acrescentam alma à roda que acontece às segundas no Renascença. Lembro que a dona da primeira editora a qual ofereci o “Segunda-feira” me disse que essa parte não era comercial. Encarei como elogio às avessas, já que eu não sou um comerciante. Contador de histórias, vivo orgulhoso por ter deitado em papéis a memória desses bambas.

Quando comecei a escrever o livro, Denny Lima e Ratinho já tinham morrido. E durante a produção dos textos, despedi-me de Bandeira Brasil e Éfson. Deu uma angústia danada, sabe? Queria que eles tivessem lido o que foi escrito sobre eles.

E a minha maior satisfação é ver a emoção desses biografados, ver a alegria que o reconhecimento joga nos olhos deles. E Adalto Magalha, o cantor e compositor que nos deixou hoje, deu-me esse prazer. Adalto foi ao lançamento no Rena e, entre outras coisas, disse-me “muito obrigado”. Não precisava. Eu retribui, agradecendo pela oportunidade de contar um pouquinho da trajetória do coautor de “Rendição” (com Almir Guineto e Capri), do cara que lançou, em 2012, “O canto do poeta”.

A morte sempre traz reflexão. E em quase todos os casos deixa um gosto de “poderia ter feito isso ou aquilo”, “uma última palavra, um último abraço”. Acontece com os sambistas também, mas eles encaram a morte de forma diferente. Talvez por viverem entre o pandeiro e a cuíca.

O pandeiro tem muitos sons e ritmo contagiante. Produz efeito que contrasta com o rumor da cuíca, que, muitas e muitas vezes, é comparado ao pranto, ao choro. Mas, juntos, eles dão brilho à roda. Porque na vida é assim: alegria e tristeza sobre a mesma corda bamba.

Na cerimônia de despedida do corpo de Magalha, vai ter disso. Certamente vão cantar as músicas dele, lembrar das boas histórias. Vão sorrir e vão brindar. No samba é assim. Mas também vão lamentar não terem feito “aquela parceria”, “terminado aquela música”, “não terem ido naquela última roda”.

Porque quando a morte toca o samba, a cuíca, ainda que por uns instantes, toma o lugar do pandeiro.

Adalto Magalhães Gavião, o Adalto Magalha, morreu aos 65 anos da forma que é digna aos poetas. De madrugada, pouco antes das 2h, ele sentiu falta de ar, muita falta de ar. Pediu ajuda à mulher, sua companheira. Queria que ela pegasse aquele aparelho que tem uma máscara e ajuda a respirar melhor.

Só que Adalto sentiu que aquela crise era forte demais, mais intensa do que as que teve até ali. A mulher foi ágil, mas quando voltou só deu tempo de ouvir Adalto dizer: “Não vai dar tempo, me dá um abraço…”

E assim o poeta morreu, porque, como diz um trecho de “Rendição”, “O amor não é dinheiro para se querer guardar”.

Valeu, Adalto!

 

 

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Foto: Reprodução/Silvio Zekatraca

jul 23, 2016 - Opinião    Sem comentários

Chacina da Candelária, 23 anos

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Hoje, completam-se 23 anos do dia 23 de julho de 1993. Era uma sexta-feira, e o presidente Itamar Franco informou que republicaria, pela quarta vez, a lei do Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira (IPMF); Os EUA anunciaram que a Aids, agora, avançava mais sobre as mulheres do que sobre os homens; e o técnico Carlos Alberto Parreira desistiu de colocar Valdo como titular no meio-campo da seleção para o jogo contra a Bolívia, no domingo. Deu a vaga a Luis Henrique. É que Palhinha e Valdo não estavam conseguindo abastecer o ataque, até então formando por Bebeto e Müller.

Mas ninguém se lembra disso. É que 23 de julho de 1993 é o dia da Chacina da Candelária. É impressionante como o brutal derramamento de sangue tem poder de marcar o calendário, o tempo, a memória. Eu tinha quase 11 anos, a idade da vítima mais nova.

Até hoje, em frente à Igreja da Candelária, há desenhos de oito corpos, em vermelho. É para despertar a curiosidade dos desinformados que passam por lá. Porque quem sabe não esquece. Não dá.

Dois jovens que sobreviveram à chacina viraram notícia. Sandro do Nascimento sequestrou um ônibus da linha 174, em 2000. Tinha 22 anos. Matou uma professora e foi morto por PMs no mesmo dia. Muita gente dizia que se ele tivesse morrido na Candelária, não teria matado ninguém.

O outro é Wagner dos Santos, que tinha 21 anos em 1993. Levou sete tiros. Em 1994, sofreu outro atentado e foi morar na Suíça. Os tiros lhe impuseram parciais perdas de audição, visão e movimentos do rosto. Desde 2009, recebe do governo do Rio pensão vitalícia de dois salários-mínimos por mês. Sobre Wagner, ‘muita gente’ não me falou nada.

Sandro seguiu o crime. Matou e morreu. Wagner fugiu. Está vivo e até hoje na Europa.

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É bem comum hoje em dia ver pessoas torcendo por novas Chacinas da Candelária. É bem comum ver gente encher o peito e dizer: “Tá com pena? Leva pra casa”.

Mas isso só é útil para quem tem tempo a perder em discussões estéreis. Os intelectualmente limitados precisam reduzir a questão a “direitos humanos x humanos direitos”, “esquerda x direita”, “vítima do sistema x semente do mal”, “sim x não”. Caso contrário, não conseguem conversar.

Não conseguem enxergar que pouco depois da Chacina da Candelária, novos meninos voltaram a dormir sob marquises, a desafiar a polícia e a roubar transeuntes, na mão, com caco de vidro, com faca e arma de fogo.

Hoje, novos meninos – ou menores infratores ou bandidinhos, se você preferir – roubam à luz do dia da Candelária à Prefeitura, da Praça Mauá à Lapa. Diariamente ou quase que diariamente. A chacina não resolveu o problema na época. Opa… evite passar atestado de tacanho dizendo: “Mas tinha que ter matado todo mundo”.

As mortes de oito deixaram em familiares e amigos marcas não curadas até hoje, 23 anos depois. Assim como a morte da professora Geisa Firmo, no episódio do 174, assim como a morte diária dos nossos policiais. Aliás, a Chacina da Candelária gerou estragos irreparáveis nas famílias dos próprios assassinos. É que os frutos da violência são revolta, medo, choro, morte, trauma, mania de perseguição.

E se todos tivessem tido antes o socorro dado a Wagner? E se todos vivessem num lugar com ensino, emprego, sem desigualdade?

O que você faria com o seu estranho prazer de ver a morte dos outros, com o seu desejo de chafurdar em sangue criminoso?

E se te descobrissem e quisessem te matar? E se quisessem matar todos vocês? O que você faria?

Pois eu diria a mesma coisa que agora digo: chacina não resolve problema. Cria outros.

jul 12, 2016 - Opinião, Recado    Sem comentários

Não era só mais um Silva: do projeto social ao pódio no Country

tenis
NÃO ERA SÓ MAIS UM SILVA
Dá um prazer danado contar histórias assim. O menino da foto é Cauã Silva, de 10 anos, morador de uma comunidade na Zona Norte carioca. Filho de empregada doméstica e aluno do Projeto Social Tênis Solidário, em Pilares, ele foi vice-campeão do Liga Tênis 10, domingo, no Country Club do Rio, em Ipanema.
 
O miúdo, segundo o professor Artur Ricardo, jogou a competição com roupas brancas para… homenagear as babás. É que, como saiu na coluna Ancelmo Gois, lá no Country elas não podiam usar os banheiros femininos. Só o das crianças.
 
Cauã ainda é pequeno, mas o feito dele é grande. O garoto treina desde os seis anos no Tênis Solidário. As aulas são numa quadra de futebol cheia de rachaduras e os equipamentos que ele usa – raquete, bolas, rede – são doados.
 
Apesar das inúmeras dificuldades, o menino Cauã foi até o Country e jogou de igual para igual com meninos acostumados às quadras de saibro, que tinham as melhores raquetes.
Poderia ser só mais um Silva. Mas este Silva, o pequeno Cauã saiu de lá com uma medalha no peito.
 
Fico imaginando a alegria da família desse garoto.
 
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Aliás, como a coluna também conta hoje, ontem, em audiência, no MP do Trabalho, o clube se comprometeu a liberar todos os banheiros, sem exceção, às babás.
jul 7, 2016 - Recado    Sem comentários

FliSamba: Domingo tem Feira Literária do Samba no Renascença

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O Renascença Clube, mais uma vez, avança na trincheira cultural, lançando a Feira Literária do Samba e da Resistência Cultural, a FliSamba. Vai ser nesse domingo, dia 10, das 13h às 22h, e a estrela dessa primeira edição é Nei Lopes (foto), 74 anos, o autor de grandes sambas e preciosos livros, como
“Partido-alto, samba de bamba”, “Sambeabá: O samba que não se aprende na escola” e, entre outros, “Zé Keti, o samba sem senhor”. É mais que merecido.

Como a feira é também da Resistência Cultural, haverá homenagem a Conceição Tavares, 69 anos, mestre e doutora em literatura, além de importante quadro do movimento negro. Escritora e poetisa, Conceição é a autora dos romances “Ponciá Vicêncio” e “Becos da memória”.

No “Segunda-feira, a história do Samba do Trabalhador”, eu conto um pouco sobre a maravilhosa história do clube, que é a casa da roda criada por Moacyr luz e um time de bambas. Não é exagero quando escrevo que o Rena avança na trincheira cultural. Ele batalha no front há tempos. Um exemplo: Vinicius de Moraes escreveu, em 1954, a peça “Orfeu da Conceição”, baseada na história de Orfeu e Eurídice, um drama da mitologia grega, e fonte de inspiração para dois filmes “Orfeu negro”, de Marcel Camus, e “Orfeu”, de Cacá Diegues. Pois bem. A primeira encenação da peça fora de um teatro aconteceu no… Renascença, fundado em 1951.
 
Bem, agora é a vez de promover e receber a primeira feira de livros de samba. É algo que já nasce importante e histórico. Torço para que a FliSamba fomente o surgimento de novos escritores e leitores. A partir das 13h de domingo, estarei lá batendo papo sobre o “Segunda-feira”.

Até!

 

 

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A foto é de Hudson Pontes.

jun 24, 2016 - Recado    Sem comentários

Jornalista Emanuel Alencar lança livro sobre a Baía de Guanabara

MANUE
Emanuel Alencar, jornalista sempre atento ao meio ambiente, lançou, ontem, no Rio, o livro “Baía de Guanabara – descaso e resistência”. A boa escrita do Emanuel já garante o sucesso da obra. Mas ela ainda fala dos problemas de um dos nossos maiores cartões-postais. Ao aproximar essa triste realidade do leitor, Emanuel contribui bastante com o debate sobre o meio ambiente. Quando algum candidato começar a falar da Baía de Guanabara, quem leu o livro vai saber se é cascata ou verdade.
 
Aliás, segue um dado do livro: Para despoluir a Baía de Guanabara são necessários US$ 5,7 bilhões, coisa de uns R$ 20 bilhões, segundo estimativas do ambientalista Axel Grael. E olha que o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara (PDBG), encerrado há dez anos e sem cumprir sua meta, gastou US$ 1,2 bilhão.
 
Parabéns, Manu!
jun 23, 2016 - Música    Sem comentários

Prêmio da Música elege Samba do Trabalhador melhor grupo do país

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Quando Gonzaguinha entrou no palco do Teatro Municipal do Rio, ontem, no 27º Prêmio da Música Brasileira, um “eterno aprendiz” teve a certeza de que aquela noite seria especial. Só mesmo um coração “que não abre a porta e não sabe que vale mais é viver” enxergaria ali o ator Júlio Andrade, que viveu o filho de Gonzagão no cinema. Era Gonzaguinha mesmo, o homenageado do ano.

O passeio pela vida do autor de “Com a perna no mundo” era, aos poucos, musicalmente interrompido por lindas apresentações e vibrantes entregas de prêmios. Por ali passaram os grandes. Ney Matogrosso, Alcione, Luiz Melodia, Angela Ro Ro…

Bem, o tal “eterno aprendiz”, que diz “Meu coração é um pandeiro”, queria mesmo era ver a categoria  samba. Era nela que o Samba do Trabalhador fazia sua batucada em busca dos troféus de “Melhor disco” e “Melhor grupo”.

O “aprendiz” não dissimula: Ele “acredita na rapaziada.” E quando chegou a hora, “Diga lá, coração”, redobrou as forças para se manter firme.

Na primeira chance – a disputa de melhor disco -, a torcida não deu certo. A expectativa deu lugar a uma aflição daquelas, “Coração na boca/Peito aberto”.

Ele acreditava muito que a vitória viria dali. Na outra categoria – melhor grupo – havia um concorrente de peso: o Fundo de Quintal, ponto cardeal de gerações. Mas… “Nunca pare de sonhar”. E ele não para.

Segundo depois, a doce voz de Dira Paes, a atriz que apresentava o prêmio, anunciou o nome do melhor grupo de samba do país. Ele já sabia, mas queria ouvir Dira dizer. E ela disse:

– Moacyr Luz e Samba do Trabalhador!

O “aprendiz” viu a emoção de Gabriel Cavalcante, Alexandre Nunes, Daniel Neves,  Júnior de Oliveira, Luiz Augusto, Nego Alvaro, Mingo Silva e Moacyr Luz. Foi lindo, porque “Um homem também chora”.

Não é demagogia e dizer isso hoje é ainda mais significativo: um dos maiores prêmios que o Samba do  Trabalhador tem é o sorriso bobo que surge no rosto do frequentador fiel ao perceber que a segunda-feira chegou. Mas quando Dira falou: “Moacyr Luz e Samba do Trabalhador!”… Ora, “O que é, o que é?”, ele já não dava mais conta de pensar nisso.

Os segundos em que os nove músicos gastaram para chegar ao palco foram suficientes para um filme passar pela cabeça do “eterno aprendiz”. Assim como muitos outros, ele sabe as dificuldades que todos passaram até ali. E, enfim, chegara a hora da “Colheita”. Mais uma.

O “aprendiz” gritou. Mas não um “Grito de alerta”. Foi de alegria, de alívio, de “finalmente”. Ali, ele era nada mais, nada menos do que um fã da roda, um torcedor apaixonado. Ele era eu, era você.

O “aprendiz” não sabia se podia gritar daquele jeito. É que a vetustez do Teatro Municipal lhe impunha excessivo recato. Mas ele gritou. E gritou porque Gonzaguinha sussurrou só para ele:

– Não dá mais para segurar. Explode, coração!

jun 20, 2016 - Música    Sem comentários

Tem Arlindo Cruz no ‘Segunda-feira, a história do Samba do Trabalhador’

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“Segunda-feira, a história do Samba do Trabalhador” conta muito mais do que a trajetória da roda criada, por Moacyr Luz e um time de bambas, em maio de 2005, no Renascença Clube, no Rio. O livro passeia por quatro grandes rodas de samba do Rio de Janeiro.

Uma delas é o Pagode do Arlindo, fundado em 1981, em Cascadura. Nesses “100 anos” de samba, “Segunda-feira” é o primeiro livro a registrar como foi, do início ao fim, esse movimento criado por Arlindo Cruz, um dos mais talentosos artistas da nossa música.

Além disso, é de Arlindo um dos 100 verbetes do livro. Entre tantas coisas que gostei de saber sobre ele, a mais curiosa é que Arlindo é CDF, daqueles caras que colecionam notas 10 nas provas do colégio, sabe? Tanto que, aos 15 anos, passou para a Escola Preparatória de Cadetes do Ar (Epcar).

Nesse tempo, Arlindo tocava, veja só, com Antônio Candeia Filho, o Candeia. E quando o grande compositor da Portela soube da aprovação, brincou com o menino.

– Perdi um cavaquinista, mas vou ganhar um amigo brigadeiro da Aeronáutica.

Só que Candeia estava errado. O samba tinha outros planos para Arlindo. Ainda bem.

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jun 17, 2016 - Música    Sem comentários

A Roda: o encontro de Monarco com o Samba da Ouvidor

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O primeiro dia de “A Roda”, ontem, no Circo Voador, no Rio, foi muito mais do que uma estreia. Foi dia de ver um velho baluarte do samba, que faz sucesso do passado ao presente, lado a lado com um jovem grupo, que, no presente, não se esquece do passado. Foi um brinde ao encontro, uma exaltação à música que o Rio de Janeiro talhou, um louvor à amizade.

Monarco, o grande portelense, de 82 anos, cantou seus clássicos com o Samba da Ouvidor, roda que há quase 9 anos faz sua história no Centro do Rio. E num Circo Voador com arrumação diferente da convencional. O palco ficou vazio, e uma tela branca, no fundo dele, apenas recebia projeções de  imagens. Ontem, o coração bateu na pista. Sob a lona histórica, um tablado abrigou músicos e instrumentos. O público ficou em volta, como é típico de uma roda (e também nas arquibancadas, como é próprio do Circo).

Um amigo, o Marcão, chamou-me a atenção: “Isso aqui (a plateia) está parecendo recreio de escola”. Metáfora para comentar o tanto de pessoas amigas e conhecidas que se cumprimentavam ao som de “A Roda”.

Parte do público fiel da famosa esquina da Rua do Ouvidor estava lá, inebriada com o voo de Gabriel Cavalcante e cia. Todo mundo conhecia alguém que ali estava.

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E o samba tratou de aprontar das suas. Elevando o brilho da estreia, Ivan Milanez, o bamba da Velha Guarda do Império Serrano, e Teresa Cristina, a grande cantora que encanta multidões e desconhece fronteiras, juntaram-se à roda em canjas dignas dos mais sinceros aplausos.

O show, claro, reuniu os repertórios de Monarco e Samba da Ouvidor. Só pérola. E forma cerca de 50 delas. Outra joia da noite, quando as cortinas já ameaçam fechar, foi o público cantando com Gabriel Cavalcante, Monarco e Teresa Cristina a emocionante “Preciso me encontrar”, a poesia de Candeia em forma de música, gravada por Cartola e, depois, por um sem número de artistas.

O vídeo mostra como o público fez bonito no coro: “Quero assistir ao sol nascer/ Ver as águas dos rios correr/ Ouvir os pássaros cantar/ Eu quero nascer, quero viver/ Deixe-me ir, preciso andar…”

Quando o Circo Voador completar 40 anos, a noite de ontem vai estar na retrospectiva. E muitos vão se lembrar que estava “cheio bom”. Tinha bastante gente, mas dava para circular com tranquilidade.

O valor de “A Roda” é bem maior do que seu preço. Por isso, os relatos das testemunhas de ontem farão o  Circo ficar apinhado na próxima edição, que ainda não tem data para acontecer. Lá na frente, muitos vão se lembrar desse sucesso.

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A Roda encerrou a noite com uma homenagem. Monarco, Teresa e Ivan já tinha saído do tablado. O microfone passou ao comando de Gabriel Cavalcante e Pedrinho da Muda, amigos de toda vida e de Samba da Ouvidor. Cantaram “O bêbado e a equilibrista” (Aldir Blanc e João Bosco) para lembrar o Maneca, a bondade em forma de gente que nos deixou recentemente. Não era só música, nem só poesia. Eram acordes emocionados que, feito onda, saíam daquele tablado.

Acho que vi. E foi lá do outro lado. Eram duas mãos fechadas e para o alto, balançavam como se comemorassem um gol. Acho que ouvi, vindo de lá mesmo, o grito: “Gabiiiiiii…”. Era como o Maneca reagia quando o Samba da Ouvidor cantava esse hino.

Acho que vi. Acho que ouvi. Não sei. A Roda tem um quê de encanto. Acho que, talvez, eu tenha sido atingido pela tal onda dos acordes emocionados. Juro que não sei. Sei que foi assim e… que essa Roda precisa girar sem parar.

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jun 12, 2016 - Música    Sem comentários

Um papo com Aldir Blanc, um gênio quase setentão

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Um dos maiores compositores da nossa música, Aldir Blanc está chegando aos 70 anos. O aniversário do coautor de “O bêbado e a equilibrista” é no próximo dia 2 de setembro, mas as comemorações já estão começando. O CCBB do Rio receberá o evento “Aldir Blanc  70 Anos – Bom de se Ver, Bom de se Aldir”, com João Bosco, no dia 16; Zé Renato, no dia 17; e  Leila Pinheiro, no dia 18. E o Teatro Ziembinsk, na Tijuca, terá, nos dias 16 e 17, o show  “Sambas de Aldir para ouvir”, organizado e apresentado por Dorina, a querida cantora (na foto de baixo).

Aldir não costuma sair de casa. E isso acontece há anos. Na companhia de Mary, sua mulher, prefere a reclusão do lar, na Muda, sub-bairro da Tijuca, onde a vida tem música própria. A opção não o impede de ficar atento ao que acontece do lado de fora. Basta ler os afiados artigos que publica em “O GLOBO”. Ele conserva a genialidade de sempre, e quando perguntei como é chegar aos 70 anos, não titubeou:

– Eu diria que foi inevitável.

Aldir Blanc é peça rara. Mesmo sem fazer propaganda, tem admiradores por todos os cantos. Aliás, Chico Buarque disse certa vez que este carioca, cidadão da Muda e “glória das letras cariocas”, é mesmo “Bom de ser ler e de se ouvir, bom de se esbaldar de rir, bom de se Aldir”. Tem razão.

Segue a entrevista.

Perto dos 70 anos, você costuma pensar mais no passado ou mais no futuro?
– Penso no presente, na amorosa convivência com mulher, filhas, netas e netos, o bisneto e alguns amigos que sobraram. É o que me dá força.

E as composições, seguem a todo vapor ou em ritmo mais cadenciado?
– As composições estão mais lentas, até porque são mais pensadas. Vivi momentos difíceis com a morte de meu pai e de um amigo-irmão, o Maneca (na foto de cima). O aparecimento da diabetes, em 2010,  também embolou o meio de campo. Estou mais devagar, mas não quase parando.

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Existe história de amor mais triste do que a cantada em “Paquetá, dezembro de 56” (o samba, de Aldir, conta a história de um suposto triângulo amoroso que acaba em tragédia)?

– Não. Você acertou no alvo. Tem um pouco de reminiscência nessa letra. Não por acaso também fiz a música, o que é raro. Foi uma dessas que brota relampejando… Eu mal tinha mãos para a caneta, o violão, uma loucura, a cabeça atropelando na reta. (Minutos depois, Aldir completou a resposta, que está a seguir) Ao lado daquela “enfermeira do Salgado Filho” (refere-se à música “Lupicínica”, em parceria com Jaime Vignoli), é a letra mais triste que escrevi.

Do que você sente saudade?
– Sinto saudade de Vila Isabel da meninice, dos que partiram – dos avós, então, cacetada!, do futebol de outrora sem cotoveladas na cara, do Brasil que não reconheço com aqueles ministros doidos para privatizar tudo antes de perderem a boca nas próximas eleições.

Das suas letras, qual a que você mais gosta?
– Por ter sido injustamente maltratada por palhaços estruturaloides, “O bêbado e a equilibrista” (com João Bosco, que faz 70 anos no próximo 13 de julho).

Hoje, muitas rodas de samba reverenciam suas composições. Suas criações caminham para a eternidade. O que você acha disso?
– Fico muito feliz, mas nunca pretendi isso. Acho que a essência do compositor popular está no anonimato, em ser assoviado na rua por um cara que nem conhece o autor, às vezes, como já me aconteceu, mesmo ao lado dele…

Por fim, chegando perto dos 70 anos, é possível dizer qual é a maior alegria dessa vida?
– Filhas, netos e netas, bisneto, poucos amigos sinceros, uma companheira amorosa, livros e música.

Aldir Blanc, o único que até aqui foi capaz de dar resposta ao tempo, sabe das coisas.

Ouça “Resposta ao tempo”:

 

E aqui… “Paquetá, dezembro de 56”:

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