set 21, 2017 - Opinião, Recado    Sem comentários

O sonho verde e rosa da princesa

nicole

A coluna Ancelmo Gois, no jornal “O Globo”, conta hoje um pedacinho da história de Nicole Silva, de 12 anos, princesa da Mangueira do Amanhã. É que em novembro, o grupo de dança do qual ela faz parte vai se apresentar em Santa Catarina, mas não tem condições de levar todos os integrantes.

Para não ficar de fora, a pequena princesa está vendendo doces na comunidade junto com a mãe, que durante a semana trabalha duro como diarista para sustentar a família. Nicole precisa juntar R$ 350 para a passagem e, assim, realizar seu objetivo: apresentar-se com a escola fora do Rio.

Essa história cativa, e muitos de seus pontos podem ser discutidos – o fato de a menina estar trabalhando, o fato de ser um atividade informal…

Acontece que Nicole é como muitos dos brasileirinhos de sua idade: precisa correr atrás para poder realizar.

Sem dúvida, o que toda criança merece é brincar, só brincar. Mas nesse Brasil desigual, isto é luxo para poucos.

Bem, a história da menina Nicole merece ser contada. Para que ela nunca mais trabalhe enquanto for criança, para que consiga seu sonho verde e rosa e, sobretudo, porque escancara que a felicidade – não só de uma criança – é simples, vive nas pequenas coisas.

Vida longa à princesa.

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Foto: Fabio Lacerda. (Nicole com Taranta Neto, Rei do Tamborim e Alexandre Marrom, integrantes da bateria da escola)

jul 10, 2017 - Opinião    Sem comentários

Sobre a mentira e o tempo

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Eu estava no início da carreira quando cobri a votação do Projeto de Lei que criaria o Sistema de Bilhetagem Eletrônica nos ônibus. Foi entre 2003 e 2004, na Alerj. O dono da ideia era o deputado José Cláudio de Oliveira Martins, um político de Campos (RJ) cujo mandato terminara no ano anterior.

Quem era a favor do projeto dizia que o sistema significava modernização e reforço na segurança das viagens (pois não haveria tanta grana no caixa).

A turma do contra chamava atenção para o fim da função de cobrador. Já que todos passariam a usar o bilhete eletrônico, o cartão.

Na época, o presidente da Fetransport, que reúne os donos de ônibus, Luiz Carlos de Urquiza Nóbrega negou veementemente que haveria demissão.

Mesmo sendo repórter iniciante – e lembro de cobrir as votações ao lado dos craques Dimmi Amora, Marcelo Dias, Sergio Braga, Gabriel Oliven, Gisela Alvares -, não caía naquele papo. Parecia-me lógico que o cobrador seria sacrificado.

O sistema que permite pagar a passagem com cartão é um avanço. Ninguém duvida. Mas a forma como tudo foi feito penalizou os trabalhadores, ao contrário do que Urquiza Nóbrega e cia. diziam.

De 2005 para cá, o número de cobradores caiu 82% na cidade do Rio. Eram 15 mil. Hoje, são 2,6 mil. A informação é do Sindicato dos Rodoviários do Município do Rio. Os motoristas eram 40 mil. Hoje, são 27 mil. As baixas se dão também por causa da crise. Sem dinheiro, o brasileiro anda menos de ônibus. Logo, as empresas faturam menos.

Naquela época, também ouvi falar na “Caixinha da Fetransport”, de onde sairia propina para muitos políticos. Por isso, segundo os bastidores da Alerj, os interesses das empresas de ônibus prevaleciam nas votações. Semana passada, a Operação Ponto Final prendeu os barões dos ônibus do Rio (foto). Talvez as provas da existência da tal ‘caixinha’ venham à tona. Há quem negue.

Aliás, sempre haverá alguém pregando um sofisma, negando uma verdade: “Eu não sabia de nada”. “A reforma da previdência vai salvar o futuro do Brasil”. “É de um amigo meu”. “Vamos dar todo apoio à Lava-Jato”. “A reforma trabalhista vai dar mais liberdade ao trabalhador”. “A UPP vai retomar  territórios”. “Temer tem condições de estabilizar o país”. “A culpa dos alagamentos é da maré alta”.

E o povo fica no meio, sem saber no que acreditar.

Mas o conto da Fetransport é prova: nenhuma mentira resiste ao tempo.

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Uma curiosidade:
Depois de apresentar aquele projeto, José Cláudio nunca mais venceu uma eleição. Nem para vereador em Campos. Aliado dos Garotinho, virou vice-presidente do Detran-RJ, em 2005. Cinco anos depois, foi denunciado pelo MP por suspeita de corrupção. Inclusive, dia 26, agora, há audiência deste processo na 37ª Vara Criminal, do juiz Marcos Augusto Ramos Peixoto.

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Foto: André Dusek.

jul 3, 2017 - Opinião    Sem comentários

Segurança Presente: suspeita de racismo numa esquina da Lapa

O episódio vivido por Nego Alvaro é um completo absurdo. No fim da noite de sábado, Alvaro, músico, cantor, compositor, pai de família, ainda estava à porta do Beco do Rato, na Lapa, no Rio, onde tocara suas músicas, quando foi abordado por agentes do programa Lapa Presente – um convênio entre Secretaria de Governo do Rio, prefeitura e Fecomércio.

Um dos agentes suspeitou de Nego Alvaro e disse que o levaria para a delegacia. O caso abre feridas e deixa perguntas sem resposta. Do que o agente suspeitou? Terá sido mais um caso racismo?
Ele revistou o Alvaro. Não encontrou nada ilícito. Por que levá-lo para a delegacia? Terá sido abuso de poder?

O vídeo mostra, pelo menos, CINCO agentes do Centro Presente cercando Nego Alvaro. CINCO. Alvaro se identifica, é revistado, prova que é um trabalhador que acabou de deixar o local de trabalho. Nego Alvaro não representa mal nenhum. Ainda assim é levado para a delegacia.

Os CINCO agentes poderiam estar circulando pelo Centro do Rio, coibindo ações criminosas, transmitindo a sensação de segurança aos notívagos. Mas estavam cercando um músico. Perderam um tempo precioso constrangendo um trabalhador.

O despreparo é de causar vergonha.

Só que, diga-se, a culpa não é do Tavares e de seus colegas de colete. Estes apenas reproduzem um dos frutos da ignorância: a luta do povo contra o povo.

jun 30, 2017 - Cinema, Opinião    Sem comentários

Os 155 anos de ‘Os miseráveis’ e o que perdemos

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A data me faz lembrar o que perdemos. Completam-se hoje 155 anos da publicação de “Os miseráveis”, o clássico de Victor Hugo (1802—1885). Nesses anos todos, a história já ganhou cerca de 50 adaptações só para a TV e o cinema – fora as inúmeras para os palcos. Uma das que mais gosto é a feita pelo dinamarquês Bille August para o cinema, em 1998. Neste filme, Jean Valjean, o bandido que se regenera, é vivido por Liam Neeson. E Javert, o implacável inspetor de polícia que o persegue, ganha vida com Geoffrey Rush.

Espero que o fato de o filme ter quase 20 anos me livre da acusação de spoiler, mas no final do longa, o policial fica a sós com Valjean, algemado, à beira do Rio Sena. Sendo que, momentos antes, a situação era inversa. O policial estava preso pelos que queriam derrubar a monarquia. Valjean tinha a chance de matar aquele que o perseguiu por toda a vida, mas decide soltá-lo.

Quando se reencontram às margens do Sena, Javert demonstra incômodo com o “perdão” do “bandido”. Matar e exterminar – ontem como hoje – fazem parte do pragmatismo humano. Muita das vezes, aniquilar algo parece uma solução, mas a verdade é que não resolve o problema. E o ser humano se tornou doutor nessa convicção. Não me refiro, diga-se, apenas ao ato de literalmente interromper a vida de uma pessoa, mas também às outras metáforas que cabem no verbo matar. Quantas vezes, em vez de “consertar”, você “jogou fora e comprou outro”?

Pois bem. Voltemos ao Rio Sena, ao filme de August. O inspetor Javert quer saber o motivo: “Por quê? Por que você não matou?”, questiona ele.

A cena é incrível. Valjean, o regenerado, não tem dúvida ao explicar ao seu perdigueiro:

– Eu não tenho esse direito.

A noção do que podemos ou não fazer. Foi exatamente isso que perdemos.

Já vi esse filme: chuvas voltam a castigar o Rio

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As chuvas que andam castigando o Rio de Janeiro fazem lembrar o documentário “Primeira página”, de Eduardo Escorel, sobre os deslizamentos de terra em Petrópolis (RJ), em 1981, que mataram 67 pessoas. O título é referência a esta foto – de Carlos Mesquita (1947-2012) – que estampou a capa do “Jornal do Brasil” de 4 de dezembro de 1981. O curta-metragem, que, assim como a tragédia, está completando 36 anos, entrevista Mesquita (que faturou o prêmio Esso de 1982 por causa deste clique), o repórter que fez a matéria com ele, o Paulo Motta (que foi meu editor na Rio e hoje é editor-executivo do GLOBO), e o menino da foto.

O garoto se chama Jamil Luminato. Tinha 22 anos na época.
Pois bem, em 2013, uma nova enchente voltou a arrancar vidas na Serra do Rio. E entre as vítimas estavam, veja só, a filha e netos de Jamil.

Todo ano chove. E a incompetência dos nossos governos (seja de Estado ou municipais) perpetua a chuva como sinônimo de morte. Que Deus nos proteja.

maio 16, 2017 - Cinedocumentário    Sem comentários

Documentário mostra que sistema de saúde sobrecarrega Justiça do Rio

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A coluna “Extra, Extra”, da jornalista Berenice Seara, no jornal “EXTRA”, publicou, ontem, nota sobre o curta “Plantão Judiciário”.  Como diz a nota, o filme mostra que as falhas no sistema de saúde sobrecarregam a Justiça do Rio de Janeiro.

Ano passado, cada plantão – que, durante a semana, funciona das 18h às 11h da manhã seguinte – recebeu, em média, 40 processos. Sendo que 90% deles foram referentes ao sistema de saúde, tanto o público quanto o privado.

É gente cujo plano de saúde nega atendimento de emergência ou transferência. É gente que precisa de leito de CTI público, mas não há vaga. E quando o sistema de saúde diz não, as pessoas vão bater na porta da Justiça.

Numa noite e madrugada do ano passado, nossa equipe esteve no Plantão Judiciário, no Centro do Rio, e acompanhou algumas dessas histórias.

O filme será lançado no segundo semestre deste ano. Até.

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mar 14, 2017 - Cinedocumentário    Sem comentários

Quem se lembra da Vila Autódromo, no Rio?

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Estão se completando três anos que a Vila Autódromo, a favela carioca, começou a ser removida por ser vizinha do terreno onde foi construído o Parque Olímpico, na Barra. Lembrei do caso, dia destes, ao assistir ao documentário “À espera da medalha”, de Lucas Amarildo, um trabalho de conclusão de curso universitário que merece a telona. O filme apresenta um dado que chama a atenção. A antiga gestão da prefeitura foi a que mais removeu pessoas em toda a história da cidade do Rio de Janeiro: 67 mil. Em segundo lugar, ficou a de Carlos Lacerda (1961-1965), com 30 mil pessoas removidas. Pereira Passos (1902-1906) vem em terceiro: 20 mil pessoas.

O tema é polêmico. As remoções podem ser boas, mas também podem ser péssimas. Quem assiste ao doc fica com a sensação de que os moradores foram enganados pela prefeitura do Rio. Eles receberam promessa de que ganhariam casas novas. Mas os apartamentos do Parque Carioca, para onde boa parte dos moradores foi transferida, são do programa Minha Casa Minha Vida. Alguém tem que pagar por eles. Parece que será o governo federal, mas a cobrança ainda chega aos que vivem lá, meses e meses após a Rio-2016. E eles não estão pagando as parcelas. Depois de ver o filme, achei esta matéria da EBC. Nela, o eletrotécnico Orlando Santos, que trocou a favela pelo condomínio, explica a consequência. É que “no lugar de um documento de posse, (eles têm) uma dívida de R$ 77 mil, além de um compromisso de não vender ou repassar o imóvel por dez anos.”

– Quando as pessoas vão fazer compra em lojas grandes, não necessariamente elas estão com nome restringido por SPC ou Serasa. Mas no levantamento verificam que tem uma dívida muito grande no nome das pessoas, as lojas decidem se a pessoa pode se tornar cliente. A possibilidade de conseguir fazer um empréstimo ou outra compra seria muito maior se não tivesse uma dívida no nome. Eu não estou pagando, mas a dívida é real.

O jornalismo gera notícias (e é bom de memória). Na época, registrou as remoções. Só que notícia é como peça de um quebra-cabeça. Ver apenas uma pode não te dar ideia do todo. Agora, o cinema, mais uma vez, junta essas peças num filme, o documentário “À espera da medalha”. E o quadro é feio.

Você pode ver o filme pelo Youtube:

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Ah… Junto com outros registros das remoções, o filme será exibido, sábado agora, às 16h, na Vila Autódromo.

Crédito da foto: Kátia Carvalho.

fev 17, 2017 - Música    Sem comentários

Clube do Samba abre a roda para o ‘Segunda-feira, a história do Samba do Trabalhador’

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‘NINGUÉM FAZ SAMBA SÓ PORQUE PREFERE’
O Clube do Samba, em sua reestreia, domingo passado, abriu a roda para o “Segunda-feira, a história do Samba do Trabalhador”. É o jeito dessa gente bronzeada mostrar que segue unida, lutando por sua cultura centenária. Os dois movimentos, o ‘Clube’ e o ‘Trabalhador’, têm em comum a resistência e a defesa do repertório próprio. Por essas, por outras, foi lindo estar lá.

E esta foto abre espaço para contar outra relação entre eles. Toda roda do Samba do Trabalhador é encerrada ao som de “Poder da Criação”, que João Nogueira, pai do Diogo Nogueira, que na imagem exibe o livro, fez em parceria com Paulo César Pinheiro.

No “Segunda-feira, a história do Samba do Trabalhador”, que tenho o maior orgulho de ter escrito, Moacyr Luz explica o motivo:

“Eu tenho cisma com algumas coisas. Começamos a tocar ‘Poder da Criação’ e fomos mantendo. Tem o lance da música dizer ‘ninguém faz samba só porque prefere’, ‘o povo começa a cantar’. Achei que isso tinha a ver com o que estávamos fazendo. Pesa também ser do João Nogueira, mas principalmente por causa da letra, que é emotiva, quase uma oração”.

Aliás, a próxima edição do Clube do Samba é dia 9/4, no Clube Guanabara, em Botafogo. Vida longa!

 

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Crédito da foto: Tarso Ghelli.

jan 25, 2017 - Opinião    Sem comentários

SP, 463 anos

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A foto é de um trecho da Alameda Campinas, no Jardim Paulista. Era noite de chuva em São Paulo, uma das características dessa cidade, que é grande feito um país. Não acho a garoa ruim, mesmo não gostando de chuva que insiste em ficar.

São Paulo é diferente do meu Rio e mesmo assim tem minha admiração, atrai meus olhares e me deixa saudade. Acho que que gostar assim é gostar de verdade. Mas é só o que eu acho. O que sei é que… existe amor em SP!

Feliz aniversário, São Paulo! Feliz 463 anos…

jan 10, 2017 - Cinema    Sem comentários

# NÃO SOMOS TODOS DANIEL BLAKE

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A cruzada de Daniel Blake é semelhante a da maioria dos brasileiros. Dura, por vezes angustiante, por vezes esperançosa. O que Daniel Blake busca? Proteção social e seus direitos. Quer dignidade, respeito. Falo do personagem do grande Ken Loach, o diretor britânico que aos 80 anos de vida deu ao mundo um filme necessário. “Eu, Daniel Blake” está nos cinemas. Arruma um tempo, vá lá ver.

Ele é um carpinteiro, de 59 anos, que sofre um ataque cardíaco e é afastado do trabalho. Daniel Blake precisa da ajuda do governo para ter o que comer, para pagar as contas. É em torno da luta contra a burocracia para receber o benefício – algo demonizado por aqui – que o filme se desenrola. E nesse caminho, Blake ainda conhece uma jovem e seus dois filhos pequenos, que tão pobres quanto ele, sobrevivem como dá. Os quatros criam um lindo laço fraterno, como muitos de nós tecemos com quem não é da nossa família, mas… do nosso coração.

A história de Daniel Blake dá um nó na garganta ao expor como somos frágeis diante de um Estado que engorda com o nosso suor, como somos insignificantes aos olhos do sistema. O filme se passa na Inglaterra, entretanto aqui eu vi repórteres veteranos se aposentando na pobreza. Adoecendo e precisando da solidariedade de colegas de trabalho para viver.

Eu vi pais e tios de amigos perdendo o emprego e, com ele, o rumo. Aqui, eu vejo colegas preocupados com o futuro.

Mas aqui não somos todos Daniel Blake. Somos ainda mais impotentes.

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