fev 17, 2017 - Música    Sem comentários

Clube do Samba abre a roda para o ‘Segunda-feira, a história do Samba do Trabalhador’

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‘NINGUÉM FAZ SAMBA SÓ PORQUE PREFERE’
O Clube do Samba, em sua reestreia, domingo passado, abriu a roda para o “Segunda-feira, a história do Samba do Trabalhador”. É o jeito dessa gente bronzeada mostrar que segue unida, lutando por sua cultura centenária. Os dois movimentos, o ‘Clube’ e o ‘Trabalhador’, têm em comum a resistência e a defesa do repertório próprio. Por essas, por outras, foi lindo estar lá.

E esta foto abre espaço para contar outra relação entre eles. Toda roda do Samba do Trabalhador é encerrada ao som de “Poder da Criação”, que João Nogueira, pai do Diogo Nogueira, que na imagem exibe o livro, fez em parceria com Paulo César Pinheiro.

No “Segunda-feira, a história do Samba do Trabalhador”, que tenho o maior orgulho de ter escrito, Moacyr Luz explica o motivo:

“Eu tenho cisma com algumas coisas. Começamos a tocar ‘Poder da Criação’ e fomos mantendo. Tem o lance da música dizer ‘ninguém faz samba só porque prefere’, ‘o povo começa a cantar’. Achei que isso tinha a ver com o que estávamos fazendo. Pesa também ser do João Nogueira, mas principalmente por causa da letra, que é emotiva, quase uma oração”.

Aliás, a próxima edição do Clube do Samba é dia 9/4, no Clube Guanabara, em Botafogo. Vida longa!

 

***

Crédito da foto: Tarso Ghelli.

jan 25, 2017 - Opinião    Sem comentários

SP, 463 anos

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A foto é de um trecho da Alameda Campinas, no Jardim Paulista. Era noite de chuva em São Paulo, uma das características dessa cidade, que é grande feito um país. Não acho a garoa ruim, mesmo não gostando de chuva que insiste em ficar.

São Paulo é diferente do meu Rio e mesmo assim tem minha admiração, atrai meus olhares e me deixa saudade. Acho que que gostar assim é gostar de verdade. Mas é só o que eu acho. O que sei é que… existe amor em SP!

Feliz aniversário, São Paulo! Feliz 463 anos…

jan 10, 2017 - Cinema    Sem comentários

# NÃO SOMOS TODOS DANIEL BLAKE

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A cruzada de Daniel Blake é semelhante a da maioria dos brasileiros. Dura, por vezes angustiante, por vezes esperançosa. O que Daniel Blake busca? Proteção social e seus direitos. Quer dignidade, respeito. Falo do personagem do grande Ken Loach, o diretor britânico que aos 80 anos de vida deu ao mundo um filme necessário. “Eu, Daniel Blake” está nos cinemas. Arruma um tempo, vá lá ver.

Ele é um carpinteiro, de 59 anos, que sofre um ataque cardíaco e é afastado do trabalho. Daniel Blake precisa da ajuda do governo para ter o que comer, para pagar as contas. É em torno da luta contra a burocracia para receber o benefício – algo demonizado por aqui – que o filme se desenrola. E nesse caminho, Blake ainda conhece uma jovem e seus dois filhos pequenos, que tão pobres quanto ele, sobrevivem como dá. Os quatros criam um lindo laço fraterno, como muitos de nós tecemos com quem não é da nossa família, mas… do nosso coração.

A história de Daniel Blake dá um nó na garganta ao expor como somos frágeis diante de um Estado que engorda com o nosso suor, como somos insignificantes aos olhos do sistema. O filme se passa na Inglaterra, entretanto aqui eu vi repórteres veteranos se aposentando na pobreza. Adoecendo e precisando da solidariedade de colegas de trabalho para viver.

Eu vi pais e tios de amigos perdendo o emprego e, com ele, o rumo. Aqui, eu vejo colegas preocupados com o futuro.

Mas aqui não somos todos Daniel Blake. Somos ainda mais impotentes.

jan 9, 2017 - Opinião    Sem comentários

‘Juízo final’: uma reflexão sobre as chacinas e a maldade

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O passeio da morte em presídios do Norte do país atrai muitos olhares. Uns de espanto, medo. Outros de completo enlevo, quase catarse. O Brasil também se divide na dor e em como enxerga o outro. O Brasil se divide na escolha da solução, do remédio. E também na hora de eleger motivo para sorrir.
 
Mas não deveria, jamais e em hipótese alguma, fazer o mesmo diante da vida e da morte. Deveria ter a certeza de que a maldade é uma semente. E todas vezes em que a maldade é praticada, uma semente dela cai por aí.
 
Não é novidade: ela é empregada desde que o mundo é mundo. E, ao que parece, só cresce. Quanto mais apanha, cresce. Espalha-se.
 
Hoje, já não é raro olhar para o lado e ver uma pessoa querida repetindo feito mantra: “tem que matar”, “tem que matar mais”. Logo percebemos que a semente da maldade encontrou novo solo fértil e começa a germinar, endurecendo a alma. Naqueles em que é a maldade quem conduz as ações, a semente já é flor.
 
Fuzilamentos e assassinatos em massa estão por toda a trajetória da Humanidade. Quantos mortos estão nas páginas da História da Rússia, da França, da China? Quantos cadáveres de uma só vez deitaram nos campos dos EUA, de Cuba, da Argentina, do Chile, do Japão, da Alemanha, de Ruanda?
 
A terra na qual pisamos já bebeu muito sangue, e a paz não veio. Por que ainda insistem em pedir mais mortes?
 
Porque a semente rebenta. Uns – que já não são mais os mesmos de outrora – irão retrucar, insistir que você pensaria diferente se a vítima fosse “um parente seu”. Mas, entenda, para muitos outros, “a maldade é uma semente” não é questão, é sentença. E violência gera violência.
 
Nos tempos de hoje, é extremamente necessário impedir que o coração sirva de solo para este tipo de germe. Melhor é alimentar a esperança que o clássico “Juízo final”, de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, semeia desde 1973. É aquele que diz: “Do mal será queimada a semente. O amor será eterno novamente”. E mais: “quero ter olhos pra ver a maldade desaparecer”.
 
Não há dúvida: só o amor vence o mal.

Renatinho do Banjo, um personagem do Rio

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Renatinho é o maior contador de histórias que eu já vi. Figura inconfundível que, apesar da pouca estatura, destaca-se numa multidão fácil, fácil, facinho. É que o garbo das roupas e a imponente carequinha, sempre reluzente, sobressaem. Mas justiça seja feita: esse legítimo representante do subúrbio carioca faz diferença mesmo é quando fala, ou melhor, inicia suas divertidas e bem elaboradas narrativas. E a resenha é sempre, sempre, sempre precedida de um sorrisinho digno de certos personagens rodriguianos, sorriso daqueles que a gente arma quando “tem uma boa pra contar”. Renato sempre tem uma.

Quem o vê na rua pode até pensar que se trata de um diretorzão de alguma escola de samba. É muito raro não encontrá-lo vestindo calça e camisa alinhadas, às vezes de puro linho, e sapato bicolor. Renatinho excede em estilo e dispensa os cordõeszões de ouro.

Alguns amigos o chamam de “Renatinho do Banjo”. É que esse pai de família arranha as cordas do instrumento, mas também é chamado assim por sua identificação com o samba, claro. Batizado Renato Araújo, é devoto da Estação Primeira.

O boa-praça, rubro-negro apaixonado que deu aos três filhos nomes de jogadores do Flamengo, trabalha há anos na imprensa do Rio. É diagramador, e dos bons.
Encontrá-lo num bar, numa festa ou até mesmo num ponto de ônibus qualquer é certeza de um bom papo, boas risadas. Foi assim certa vez, quando Renatinho me contou sobre o dia em que colocou de castigo o filho mais velho, um adolescente de 17 anos…

(Uma pausa: a Zona Norte do Rio é um grande caldeirão cultural. Lá, diversas influências convergem e ajudam a formar a personalidade suburbana, por mais que haja várias. A forma de falar é coloquial, popular por essência. É muito comum, por exemplo, que se adote expressões que vêm dos morros, das delegacias, da turma fora da lei etc, sem que se faça qualquer juízo de valor. São apenas influências que se misturam e Renatinho gosta das antigas gírias dos “tiras”).

– Que p*** é essa? Arrumando confusão com seu irmão mais novo? Ó, agora é CANA DURA pros dois. Não quero saber de papo. É CANA pros dois.

E o castigo se estendeu pela semana e virou assunto na rua, entre os coleguinhas dos garotos. Até que numa sexta-feira, Renatinho recebeu uma ligação. Era a esposa.

– Nem adianta defender. Eu coloquei os dois de castigo e eles vão ficar. Eles têm que aprender…
A mulher ouviu, mas insistiu:
– É que o nosso menino tem namorada, né? E hoje é sexta-feira. A menina quer encontrar com ele.
Renatinho pensou, pensou e lapidou mais uma pérola:
– Ó, VISITA ÍNTIMA tá liberada, não pode é BANHO DE SOL lá fora…

Renatinho, definitivamente, é um personagem da Cidade Maravilhosa.

 

***

Publiquei esse texto, no Facebook, em 25 de outubro de 2012, e lembrei dele porque o jornal O Dia publicou hoje uma matéria falando do Renatinho. Vale a pena ler. Clica aqui.

jan 5, 2017 - Opinião    Sem comentários

‘Capitão Fantástico’: vale a pena refletir

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Quando o relógio corria para encerrar 2016, fui ver “Capitão Fantástico”, filme do americano Matt Ross que está nos cinemas. Conta a história de uma família que mora no meio do mato – um pai e seis filhos. A trama se desenrola quando eles precisam ir à cidade e, assim, chocam-se com os costumes da vida urbana. O pai dessa família, Ben (de vermelho na foto), é um sonhador. Cria os filhos isolados da ‘civilização’ para que se tornem adultos extraordinários.

O confronto entre os mundos é fascinante, e o longa é cheio de cenas que produzem reflexão. Numa delas, o adolescente Rellian (de terno marrom), incomodado com o estilo de vida de sua família, irrita-se com o pai e questiona:

– Por que não celebramos o Natal como todas as famílias?

O pai responde com outra pergunta, e o menino, enraivecido, retruca. Nisso, algo singular acontece. Ben, que está sendo confrontado pelo filho, baixa a guarda e dá espaço ao diálogo. A fala é mais ou menos essa:

– Ok, Rellian, sente-se aqui e nos mostre seus argumentos. Se você nos convencer, iremos mudar de ideia…

Esses segundos do filme são valiosos. No mundo de hoje, de pessoas cheias de certezas e vazias de sensatez, poucos são aqueles que se dispõem a ouvir argumentos e mudar de ideia.

E é aqui, diante desta perspectiva, que o encontro com o assombro parece irremediável: num debate, diante de alguém que pensa diferente, você já deu tempo para a pessoa explicar as razões dela?

Por favor, conte-me, conte-me: ela tinha, ao menos, um argumento coerente a oferecer?

No filme, após ouvir a proposta do pai, Rellian sai correndo.

jan 4, 2017 - Crônica    Sem comentários

A lição do vendedor de balas

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O ônibus seguia para o Centro do Rio de Janeiro, e o vendedor de balas e amendoim descansava na parte traseira do coletivo. Estava de pé, próximo à porta. O homem já tinha oferecido seus produtos aos passageiros. Quem quis comprar, comprou. Agora, enquanto esperava seu ponto de descida, jogava conversa fora.

– Esses dias aí, ó…. fiz R$ 100 num dia! – contou o ambulante, todo feliz.

Para ele, a cifra parecia o auge, uma vistosa conquista. Ele falou “cem reais” com alegria, diria, tocante. O valor que para uns compra “apenas uma garrafa de vinho” ou paga um jantar era para aquele ambulante o grande feito do mês.

– Nem falei pra minha mulher. Guardei o dinheiro e comprei mais bala. Aí, tu sabe, né, dá pra vender mais. Esse é o ritmo… – explicou a dois passageiros que lhe davam atenção.

– Aí, tu vê. Semana passada fui lá no Morro Azul (no Flamengo, Zona Sul do Rio) trabalhar numa obra. Carreguei saco de areia, de cimento. E, no final do dia, sabe quanto eu ganhei?

A dupla que prestava atenção no homem respondeu não com a cabeça. Ambos queriam saber.

– R$ 80! Dá pra acreditar? Debaixo de sol, pesadão… Aí, eu prefiro vender bala, né! Num dia bom eu ganho mais do que na obra.

Fazia sentido. Os ouvintes concordaram, deram corda à história, e o homem continuou, reduzindo um pouco o volume da própria voz e atraindo mais espectadores:

– Mas aí um cara do tráfico, de fuzilzão na mão, me chamou pra trocar ideia.
– É mesmo? – quis saber uma mocinha dentro do coletivo.
– É. O cara chegou pra mim e disse assim: ‘Po, tô vendo você aí carregando esse peso. Você tem disposição…’
– Só tô ajudando na obra aí…
– Então… você podia trabalhar aqui com a gente. Vai ganhar mais… – disse o traficante.

Nessa altura, o vendedor de bala já tinha arrebatado a atenção de mais pessoas. Quem estava na metade do ônibus para trás, de uma forma ou de outra, prestava atenção no sujeito. Uma senhorinha, inclusive, chegou a mudar de lugar para ficar mais perto.

– Mas e aí? – perguntou um adolescente com uniforme de colégio.

O camelô abriu os braços, levantou os ombros…

– Aí que eu tenho mulher, uma filha. Vendendo doce eu ganho meu dinheiro e tá bom assim…

As pessoas mais perto balançaram a cabeça em sinal de positivo, aprovando a decisão do ambulante. E ele completou:

– E você sabe, né?: Os olhos do Senhor estão por toda parte… – discursou o homem, revelando crer na existência de um Deus vigilante e punitivo, imagem comum entre religiosos.

O ponto do vendedor de balas chegou. Ele puxou a cordinha e desceu se despedindo com um “valeu!” único e coletivo. Levou as guloseimas. Deixou o incômodo silêncio que faz pensar.

Em tempos em que certo e errado dobram a mesma esquina, escolhe o melhor caminho quem enxerga o horizonte.

dez 22, 2016 - Opinião    Sem comentários

Teatro Municipal do Rio e uma reflexão sobre a classe política

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Quem o vê assim, todo deslumbrante, nem imagina que sua história começa com polêmica. Há 114 anos, quando o então prefeito Pereira Passos abriu concurso para construir o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, dois projetos foram à final: o Aquilla e o Isadora. Só que o Aquilla tinha um autor secreto: o engenheiro Francisco de Oliveira Passos, que era… filho do prefeito. Teria ele sido favorecido? Bem, o fato é que isso caiu feito bomba na política, e o jeitinho foi juntar os dois projetos, o de Oliveira Passos com o Isadora, do francês Albert Guilbert.

A História registra que isso foi feito com facilidade, já que eles tinham a mesma tipologia. Assim, o teatro carioca, inaugurado em 1909, nasceu inspirado na belíssima Opera de Paris.

Aliás, lembrar dessa história reforça a ideia de que a velocidade da deterioração da classe política é maior que a do tempo. Hoje as tenebrosas transações não deixam frutos como o Municipal.

dez 5, 2016 - Uncategorized    1 Comentário

‘A 13ª emenda’: leis mais duras acabam com a violência?

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O documentário “A 13ª emenda”, da americana Ava DuVernay, é daqueles que merece ser visto, revisto, debatido. Está no Netflix. Ele já começa impactando: os EUA têm 5% da população mundial e… 25% dos presos de todo o mundo. O filme da Ava é sobre o sistema prisional americano, fala da perseguição ao negro e, entre outros assuntos, do lucro das prisões privadas (algo que está começando por aqui). A 13ª emenda da Constituição americana é a que garante a liberdade, exceto aos criminosos. Veja o filme.
 
Mas um ponto em especial pode ser cruzado com a nossa realidade: o clamor pelo combate ao crime, pela punição ao criminoso. Lá, isso fez disparar o crescimento do número de presos: em 1985, eram 759,1 mil presos; em 1990, 1.179.200; em 2000, 2.015.300; e em 2014, o número chegou a 2,3 milhões de presidiários.
 
Já o Brasil, em 2000, tinha 232.755 presidiários. Em 2014, já eram 622.202 pessoas nos presídios brasileiros.
 
O filme “A 13ª emenda” relaciona o aumento das prisões ao endurecimento das leis – grito que ecoa por aqui. Em 1994, Bill Clinton aumentou o rigor, formou 100 mil novos policiais e gastou bilhões de dólares em prisões e programas de prevenção. Trinta anos depois, como o filme mostra, Clinton admite ter errado. É que a lei resolveu uns problemas, mas criou outros, como a superpopulação carcerária.
 
O Brasil já tem hoje a quarta maior população carcerária do mundo. Depois dos EUA, de acordo com dados de 2014, vêm China (1.657.812) e Rússia (644.237).
 
Entre as tantas manifestações que tomam as ruas do Brasil, estão as que pedem “leis mais duras”, “penas mais longas”. Algumas estão em debate no Congresso. Se forem aprovadas, farão aumentar o número de presos. E muita gente vai aplaudir.
 
Só que, como aconteceu com os EUA – que agora flerta com a contramão -, endurecer leis e prender mais gente… não resolveu o problema. Afinal, por lá, a violência persiste.
 
O angustiante do documentário é que ele não aponta um caminho para a solução. Mas deixa claro que as vozes americanas que pediram mais leis, mais prisões, nos anos 1980 e 1990 – e que se parecem com as de uns brasileiros de hoje – estavam erradas.
nov 21, 2016 - Música    Sem comentários

No Centro da Música Carioca, Dorina canta Aldir Blanc sob aplausos

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Antes de começar o show “Dorina canta sambas de Aldir e ouvir”, em homenagem aos 70 anos de Aldir Blanc, completados em setembro passado, Dorina, no palco do Centro da Música Carioca, na Tijuca, sábado passado, antecipa: “esse é o Aldir das paixões, o Aldir das traições, o Aldir da solidão”. São temas recorrentes nos versos do mestre-sala das letras.

Aldir escreve o que nenhum poeta parecer ter coragem de botar num papel. Mas, depois que Aldir coloca, todo mundo concorda que a tradução, a do sentimento, é real, necessária, no ponto certo. Aldir Blanc enxerga na escuridão. Quase tudo que ele descreve é efeito da falta de amor. Aldir alerta. Escuta quem pode, guarda quem tem juízo.

O mestre, que prefere a reclusão do lar, não foi às ruas comemorar seus 70 anos. Dorina – e outros também, diga-se – tratou de transformar a data num evento que já atravessa meses. Um show, um verdadeiro show. É o efeito Aldir.

Dorina é corajosa. Colocou no repertório uma música que ficou famosa no Brasil inteiro na voz de Nana Caymmi, a “Suave veneno”, parceria com Cristóvão Bastos. É difícil cantar depois de Nana. Mas isso não parece ter intimidado Dorina. Ela deu ao clássico uma nova e linda interpretação, delicada e poderosa. Terminou coberta de aplausos e mereceu cada um deles.

Dorina fez mais. Gravou duas inéditas. “Saindo à francesa”, a música que Aldir, Moacyr Luz e Luiz Carlos da Vila fizeram em homenagem a Maurício Tapajós, quando da morte do grande músico e compositor, em 1995.  Aldir, carinhosamente, chamava-o de Gordo. E é assim que a joia começa: “Gordo,/ Ligaram para mim sobre a hora do enterro/ Foi trote. Isso tudo não passa de um erro/ Me encontra com o riso de sempre no bar”.

Esse é o Aldir da esperança que agora Dorina canta pra gente. Ninguém passa incólume depois de “Saindo à francesa”. Ela termina assim: “Ah! Eu vou te procurar num montão de espelunca/ E só descansar no dia de São Nunca/ Se Deus confessar que meu Gordo dormiu”.

Até quem não conheceu Tapajós sente saudade. E transfere a tal esperança para um outro ombro amigo que os olhos já não podem ver. E isso emociona tanto quanto a dor da “enfermeira do Salgado Filho”.

Essa inédita saiu da gaveta para ganhar vida na voz de Dorina. E, de quebra, a eternidade. É que “Dorina canta sambas de Aldir e ouvir”, que tem clássicos – não todos – e umas pouco conhecidas do mestre, não se apaga com o fechar das cortinas. Segue agora para as bolachas de CD e DVD, em breve à mão dos mortais.

A outra é “Pretinho básico”, com melodia de Moyseis Marques e letra de Aldir, que escreve, como já disse, o que os poetas…: “Me faz cafuné, cafunga o meu pé/ Me diz que vai durar para sempre…/ Meu coração ouve a razão: não vai, não!”

E, assim, na festa do menino do Estácio que fez 70 anos, todo mundo saiu ganhando. Obrigado, Dorina. Vale – e sempre valerá – muito a pena Aldir.

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