Archive from agosto, 2014
ago. 28, 2014 - Viagem    Sem comentários

O porão do jazz em NY

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A noite de jazz em Nova York não é só no badalado Blue Note, que merece uma visita (claro!) e cobra um preço razoável pela entrada: US$ 20 e US$ 35 (pra ficar numa mesa). Uns quarteirões dali, ainda na parte de Manhattan próxima ao centro financeiro da ilha (Lower Town), está o Fat Cat, uma casa de jazz, digamos, mais informal. O preço do ingresso é agradável: US$ 3. Funciona de segunda a segunda, depois das 18h. E, por noite, oferece de três a quatro atrações musicais.

A fachada esconde um tesouro da noite novaiorquina e até, pode-se dizer, levanta suspeitas. É que é apenas uma portinha. Depois dela, uma escada que leva ao porão. O endereço é 75 Christopher Street. Quase esquina com a 7ª Avenida. Fácil de chegar, ainda mais que a estação de metrô Sheridan Square fica a uns metros dali.

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Ah, o Fat Cat! O porão é bem grande, espaçoso. Após a escadaria há um bar à direita. Ao lado, o espaço onde os músicos tocam e, de frente, sofás. Nada de cadeiras. Você se acomoda ali e pronto. Tá em casa.

No restante do megaporão (veja na foto abaixo) há mesas de sinuca, de ping-pong, de totó, daquele jogo de discos, além de tabuleiros de xadrez, de damas e de gamão. Há ainda outros sofás pelos cantos. Quem não quiser assistir às apresentações, passa o tempo jogando conversa fora ou jogando. As mesas de jogos são alugadas por hora. Varia de US$ 5,50 a US$ 6,50 por pessoa.

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O site da casa (http://www.fatcatmusic.org/) sempre informa a programação. Não espere ver por lá um músico ou grupo com fama. Mas tenha certeza de que você vai ouvir um bom som, o legítimo jazz americano.

Para quem gosta de cerveja, o Fat Cat tem umas opções. Além das latinhas da pilsen Pabst Blue Ribbon (US$ 3) e da long neck Hard Cider (US$ 5), a casa oferece ceeveja “on tap”, ou seja: direto da chopeira. Destaque para a “Belgian Style White”. É de trigo e sai por US$ 6 (copo de 400ml).

Ir ao Fat Cat é bem melhor do que passear na Times Square.

ago. 26, 2014 - Recado    Sem comentários

Levando a boa mensagem

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Este blog, que mal completou um mês, tem agora uma logo para chamar de sua. Veja: um pombo-correio descontraído que leva por aí boas mensagens. Essa é a pretensão deste espaço. Falar do que vale a pena e fugir dessas polêmicas vazias que tanto ocupam as pessoas.

O desenho é presente do diretor de arte Lincoln Tesch (na foto abaixo), de 36 anos, craque da publicidade que carrega desde novo um fino talento para a ilustração. Nascido na Baixada Fluminense, criado em Marechal Hermes, na Zona Norte do Rio, Lincoln contorna sua arte com a sabedoria e jogo de cintura aprendidas nas esquinas do subúrbio carioca. Apesar de trabalhar com propaganda há quase 10 anos, sempre deu espaço para a ilustração. Jamais sufocou seu talento nato.

– Trago a ilustração comigo desde o berço e sempre quando preciso, recorro a ela – conta.

lincolnTesch tem passagens pelas agências Borghi/Lowe, Agência 3 e, atualmente, está na Fullpack. Nesses dez anos de profissão, faturou o Prêmio Globo de Propaganda, uma lâmpada de ouro e outra de prata no ABP, além de, entre outros, um GP no Prêmio Abril de Publicidade.

Aliás, o trabalho do cara pode ser visto aqui ó. Read more »

ago. 21, 2014 - Coleguinhas    Sem comentários

Já pensou em largar tudo e morar fora?

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Já pensou em deixar seu trabalho para trás e recomeçar longe de casa? Já pensou em largar tudo e ter uma vida nova? Se não fez isso, é porque, certamente, você chegou a conclusão de que seria difícil demais ou que, talvez, não valesse a pena. Marcelo Franco, um dos mais brilhantes fotojornalistas com quem já trabalhei, superou essas dúvidas. Após onze anos de trabalho na imprensa carioca, Franco deu um “até breve” ao jornalismo. Em 2010, aos 39 anos, ele vendeu seu equipamento, arrumou as malas e saiu por aí.

Nos anos 1990, ele trabalhava, no Rio, em uma fábrica de cadarços e cintos. Certa vez, fez uma viagem à São João Del Rei, em Minas Gerais, e fotografou, com sua máquina amadora, tudo o que viu pela frente. De volta à Cidade Maravilhosa, revelou as fotos e gostou do resultado. Decidiu se dedicar mais à fotografia e se inscreveu em um curso do Senac. Foi seu grande passo. E como uma coisa puxa a outra, logo depois do curso, ele começou a trabalhar.

– Fui conhecendo um pouco mais sobre fotografia, e o que mais me chamou atenção foi o fotojornalismo, porque teria que trabalhar na rua, pois odeio trabalhar em salas, escritórios, usar uniformes, essas paradas de ficar preso, não nasci para isso. O fotojornalismo me ajudou muito, ainda mais porque sou tímido. Eu preciso ver pessoas, conhecer lugares, histórias, aprender com cada um. Consegui (como fotógrafo de jornais) estar com um mendigo de manhã e com um megaempresário de tarde e vice-versa – conta.

Em 1996, aos 25 anos, ele foi contratado como fotógrafo da Light, seu primeiro emprego na área. De 1998 a 2001, trabalhou no jornal de bairro Tipo Carioca, que circulava pela Barra, Recreio, Vargem Pequena e Vargem Grande, na Zona Oeste do Rio. Em 1999, indicado pelo fotojornalista Alexandre Brum (hoje no jornal O Dia), seu colega no curso do Senac, Marcelo Franco foi trabalhar no jornal “O Povo”. Era o início de uma carreira marcada por belas imagens e pelos elogios de críticos e colegas.

Entre 2003 e 2004, trabalhou no jornal “O Dia”. E de 2004 até 2010, fotografou para o jornal “Extra”. Colecionou alguns prêmios, como o XXIX Vladimir Herzog, em 2007 (veja abaixo). A foto se chama: Sala de aula.

Em 2010, aos 39 anos, a carreira de Franco estava estruturada, seguia um bom caminho. Ele era reconhecido no mercado, mas andava desapontado com a profissão. O retorno financeiro não era o esperado e o trabalho exigia cada vez mais de seu tempo e esforço. O fotógrafo, então, decidiu mudar a vida completamente. Guardou a profissão no peito e foi para a Austrália em busca de dias melhores.

Mudou-se para Sidney, onde não trabalha com fotografia. Até tentou, mas o mercado é muito fechado. Marcelo Franco bateu na porta de outros ofícios: dirigiu caminhão, fez faxina, distribuiu panfleto, trabalhou na construção civil, com jardinagem, com mudanças… Foi à luta em busca de grana e qualidade de vida. Hoje, é garçom em um restaurante de Sidney e, pelo bom desempenho nesta função, já foi até premiado. Não se arrepende da mudança de vida. O que para muitos pode ser uma brutal mudança de “status profissional”, para Marcelo foi o início de uma vida mais justa e tranquila.

– Hoje eu ganho mais, muito mais. E tenho mais tempo livre. Às vezes, tenho tanto tempo que nem sei o que fazer com ele – brinca Marcelo, que, de lá, ajuda a financeiramente a família que ficou aqui.

salaA foto lá do alto também é do Marcelo Franco (veja outras no vídeo). Mostra um camburão da PM chegando numa comunidade em São Gonçalo, RJ. O moradores de lá faziam um protesto por causa da morte de uma criança. Eu a guardo há uns dez anos, junto com outras que gosto e foram feitas por outros colegas. Esta fazia parte do arquivo digital do jornal “O Povo”, onde comecei a estagiar em 2002 e onde conheci o Franco. A foto me fez entender que eles, os fotógrafos, têm uma certa magia nos olhos. Eles não precisam explicar nada, como fazem os repórteres em seus textos. Eles captam, reúnem num retângulo uma prova, uma ideia, uma verdade e até mesmo um sonho. Eles fazem arte.

E o artista Marcelo Franco, de 43 anos, jura que não abandonou o fotojornalismo. Deu apenas um tempo. Diz que pensa em voltar para “deixar algo” na terra em que nasceu. Estou torcendo por isso!

A entrevista foi feita na Redação do jornal “Povo”, no Centro do Rio. Veja o vídeo:


 

ago. 19, 2014 - Crônica    Sem comentários

O impaciente

Paulo Augusto não gosta de médicos. Nada contra o ser humano que é médico. Ele não gosta é da conversa que os médicos têm com ele. Fez de tudo para escapar de uma nova consulta. Mas depois de tombar jogando futebol, a família de Paulo Augusto marcou em cima. Mulher, a doce Filó; a filha, Renatinha; e até a sogra, Dona Dalva. Todos tinham medo que ele, de uma pra outra, batesse as botas como seu Agenor, o pai de Paulo Augusto que morreu vítima de um infarto. A pressão tinha fundamento, portanto. Muito a contragosto, ele foi.

– Vão pedir uma monte de exames, quer ver? Médico adora ver a gente gastar dinheiro com exame – repetia.

Dez dias depois, lá estava Paulo Augusto a caminho de um dos exames: o teste ergométrico. Filó, coitada, não acreditou quando o marido disse que realmente faria o exame. Ele já entrou na sala de má vontade. Uma assistente lhe tascou uns plugues pelo peito e o mandou subir na esteira. Nisso, sai o cardiologista de uma salinha. Sorriso amarelo no rosto, nem deu boa tarde. Paulo Augusto percebeu.

– Paulo… Augusto?
– Eu
– Faz exercício físico?
– Jogo bola todo final de semana.
– Eu disse exercício físico, não esporte.
– Futebol é exercício físico.
– É esporte. E, pelo visto, você o pratica loucamente. Sem ao menos se preparar – disparou o médico, dando uma risadinha tosca, com intervalos entre um curto “rá” e outro.

Paulo Augusto sentiu o coração bater mais forte, o sangue subir. Segurou a resposta quando esta já estava pronta para sair. O médico informou que o exame começaria. A esteira estava no mínimo, mas, com o passar do tempo, a velocidade aumentaria. Caso necessário fosse, Paulo Augusto deveria correr.

– Entendeu?
– Claro. Você fez faculdade para fazer isso aqui é?
– Como?, perguntou o médico.
– Nada não. Pensei alto – disse Paulo, com um sorriso bobo no canto da boca.

Quando se viu diante da esteira e ao lado de um médico rabugento, Paulo Augusto se lembrou dos seus tempos de adolescente no Méier. Corria de um lado por outro até encontrar descanso no fliperama perto do Imperator, na época em que a casa de shows ainda era um cinema. Olhou para a esteira, lembrou-se do velho joguinho e pensou: “vou zerar a máquina”. Encarou aquilo como um grande desafio.

Começou a caminhar tranquilamente. A velocidade aumentou, e ele acompanhou. Vez ou outra, olhava pro médico e ria debochadamente. O do estetoscópio aumentou a velocidade. Paulo Augusto seguiu em frente, atrevido.

– Esse é o máximo, é? Cadê? – provocou.

A velocidade estava no máximo. Paulo Augusto, cansando. Mas não deixou a peteca cair.

– Ô, seu doutor. Isso aqui é fraquinho pra mim. Ô, tartaruga sem casca, duvido que você consegue correr assim…
– Desculpa! O senhor me chamou de quê?
E Paulo Augusto, ofegante, já falava com pausa…
– Ô… aposto… eu… aposto… que você…. fuma escondido da sua mulher!
– Desculpe, sr. Paulo Augusto. O senhor está me desrespeitando. O que você está dizendo não tem o menor sentido – disparou o do jaleco, desligando a esteira.

Paulo Augusto tomou um tranco, equilibrou-se e foi pra cima do médico.
– Coé! Não sabe perder? Zerei a máquina…

O médico chamou a assistente, e ela conteve Paulo Augusto. O médico correu para a salinha anexa. Quando a porta se abriu deu para ouvir que lá dentro tocava alto a nona sinfonia de Beethoven. Com olhar de um gladiador que sai vitorioso da arena, Paulo foi para o vestiário trocar de roupa. Na volta, recebeu um papelzinho de receita. Deixou a sala e logo viu Filó, aflita, vindo em sua direção.

– Deu tudo certo?
– Claro que deu. Não tenho problema nenhum no coração.

Filó tomou o papelzinho que ele se preparava para colocar no bolso. Dizia: “encaminho ao serviço de psiquiatria”.

Paulo Augusto sofre de impaciência.

ago. 13, 2014 - Opinião    Sem comentários

Ecos da tragédia: três coleguinhas no avião de Eduardo Campos

Jantar de confraterniza‹o de Eduardo Campos, presidente nacional do PSB e ex-governador de Pernambuco, Marina Silva, ex-senadora e ex-ministra do meio ambiente, com artistas brasileiros, no Joquei Clube do Rio de Janeiro.

A notícia da morte de Eduardo Campos, candidato à presidência, corre de forma avassaladora. “Tão novo”. “Deixa mulher e cinco filhos”. “Morreu no mesmo dia que o avô”. Só se fala nisso por aí. Mas, agora, quando tive tempo de parar e ler sobre o caso senti como se a tragédia tivesse acontecido mais perto.

Nunca entrevistei o Eduardo Campos. Não tenho nehuma história para contar sobre ele. Só que ele não estava sozinho naquele avião. Além do candidato, havia mais seis pessoas. E três delas eram colegas de profissão.

A foto acima é Alexandre Severo Gomes e Silva, o Alexandre Severo. Ela me foi enviada, no último dia 4 de junho, pelo jornalista Carlos Augusto Ramos Leal Filho, o Carlos Percol. Os dois estavam com Eduardo Campos no avião, assim como o cinegrafista Marcelo Lyra.

Conheci o Percol no início deste ano. Ele, antes de trabalhar na campanha do Campos, era assessor de imprensa da prefeitura do Recife. Nos falamos muito por email e telefone.

recifeÉ que, vocês devem lembrar, Recife correu o risco de ficar sem a Fifa Fan Fest durante a Copa do Mundo. A pedido do Ancelmo, procurei o Percol para tratar do assunto. A coluna foi quem publicou primeiro que haveria a festa na capital pernambucana. E foi o Percol quem me confirmou (na imagem ao lado há duas notas publicadas sobre isso, uma de 11 de março e outra de 21 de março).

Pouco depois, ele voltou a trabalhar com o Eduardo Campos e tentou emplacar a foto (acima) feita pelo Alexandre Severo na coluna. Mas não rolou.

Como a gente se falava tanto, comentei com ele que, em setembro agora, iria até Recife, terra dele. Pedi umas dicas. E Percol se prontificou em me encontrar por lá. Estávamos marcando um jantar para bater papo, falar da cidade e de como foi a Copa do Mundo no Recife. Não deu tempo.

No meio do trabalho, quando menos se espera, lá se foram sete brasileiros. Assim… do nada. Foi uma dessas loucuras da vida, que resolve acabar como uma festa interrompida no meio, bem antes da hora. O Percol tinha só 36 anos e havia casado uns meses atrás, em abril acho!

Deixo aqui minha solidariedade às famílias! Reforço também minha certeza de que é preciso (sempre) aproveitar o tempo que temos e da melhor forma possível! A vida, às vezes, parece um passarinho faceiro. Pia, faz graça e logo se vai.

ago. 13, 2014 - Coleguinhas    Sem comentários

Luarlindo Ernesto, o decano do reportariado

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Luarlindo Ernesto Silva é jornalista e completa hoje 71 anos de vida. Não é editor, colunista ou chefe de reportagem. Luarlindo Ernesto é repórter. E é o mais velho da imprensa carioca. Luar, como é carinhosamente chamado, é o nosso decano e deu os primeiros passos no jornalismo no primeiro semestre de 1958, quando ainda tinha 14 anos.

– Foi um castigo que meu pai  me deu por eu jogar bola na rua de cueca. A gente tinha um vizinho que era jornalista, o Augusto da Silva Júnior, repórter do jornal “Última hora”, e meu pai pediu para ele me deixar trabalhar com ele. Só que era na madrugada… lá fui eu – lembra o repórter, que cresceu na Praça da Bandeira, na Zona Norte do Rio.

O próprio chama o jornalismo daquela época de “boêmio, irresponsável e romântico”. A irresponsabilidade não tinha censor, nem limites. Não havia faculdade de jornalismo, e os profissionais eram muito mal remunerados. Luarlindo lembra que, naquelas décadas, “jornalismo era bico”. O sujeito, geralmente, tinha formação em outra área ou trabalhava com outra coisa. O jornal era apenas para complementar a renda. Luar, por exemplo, cursou Direito nos anos 1960, mas não concluiu a graduação.

Aliás, as vacas eram tão magras naqueles anos que o repórter chegava a trabalhar, ao mesmo tempo, em três diferentes veículos de comunicação. Luarlindo foi um destes.

luarlindoComeçou no “Última hora”, onde ficou até 1965. Só que dois anos antes, passou a trabalhar também no “O Globo” e no “O Dia”. Foi repórter ainda da “Gazeta de Notícias”, do “O jornal”, fez freela para as revistas “Realidade” e “Veja”, além de para a TV Globo, a italiana TV Rai e para o jornal italiano “Corriere de la sierra”. Ele lembra até hoje: “Eles pagavam mil dólares por matéria”.

Nos anos 1970, Luarlindo foi repórter, ao mesmo tempo, da “Folha de São Paulo”, do “Diário de Notícias” (de onde saiu em 1974) e, novamente, do “O Dia”. No fim daquela década, ele “saiu do jornal ‘Última Hora’ pela última vez” e se transferiu para o “Jornal do Brasil”, onde trabalhou por 12 anos. Em 1991, iniciou sua terceira passagem pelo jornal “O Dia”. E lá está até hoje.

Premiado pelos críticos e reverenciado pelos colegas de Redação, Luarlindo destaca, dos seus 56 anos de profissão, três casos: “Tommaso Buscetta, o mafioso”, a “deposição de um presidente sul-americano” e a “explosão da bomba no Riocentro”.

O mafioso italiano fora preso no Brasil e extraditado em 1972. Onze anos depois, voltou escondido para o Rio de Janeiro. Ao se deparar com assassinatos de estrangeiros que entraram no Brasil com passaporte falso, Luarlindo desconfiou que tinha dedo da máfia no caso. Foi atrás dos bens que Tammaso tinha aqui e conseguiu provar que o mafioso estava de volta. Em 2000, Luar foi a Roma contar o que sabia à Justiça italiana.

O segundo caso, o do presidente sulamericano, foi assim: Luarlindo estava na Argentina ou no Uruguai. Ele não lembra. Pode ter sido em outro país, inclusive. Eu pesquisei e não achei (não deu tempo de procurar nos arquivos e matar a charada). Luar diz que foi nos anos 1960, década recheada por golpes de Estado. Luarlindo só se lembra que estava no tal país, soube do golpe e passou a informação cifrada pelo telex (antigo equipamento de transmissão de texto) para a Redação do jornal “O Globo”, onde trabalhava. Foi um furo na época, um furaço. No segundo vídeo, ele conta como fez isso.

A terceira cobertura da qual muito se orgulha é a da explosão da bomba no Riocentro, em 31 de abril de 1981. O caso, inclusive, rendeu a Luarlindo e à equipe do “Jornal do Brasil” o prêmio Esso, na categoria principal, daquele ano. Depois de me contar a experiência, Luar exalta a arte do repórter, a busca pela informação e critica a comodidade de hoje em dia.

– Hoje o jornalista vai no Google…

Ao lembrar do passado e confrontá-lo com o presente, Luarlindo Ernesto, um dos poucos elos que ainda temos entre o jornalismo atual e sua fase romântica, bota-nos para pensar no futuro. Que caminho o jornalismo investigativo merece seguir? Veja os vídeos.

Enfim… feliz aniversário, Luar! Saúde, muita saúde!

Parte I:

Parte II:

* A palavra “reportariado”, no título deste post, não existe para a ABL. Mas, para nós, mortais, significa coletivo de repórteres.

ago. 11, 2014 - Opinião    Sem comentários

O dia em que conheci a juíza Patrícia Acioli

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Completam-se amanhã três anos que a juíza Patrícia Acioli foi assassinada na porta de casa, em Niterói. Tinha 47 anos. Foi executada com 21 tiros. Cerca de 11 meses antes, eu e o reporterfotográfico Domingos Peixoto estivemos no gabinete dela, no Fórum de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio. Patrícia era desde 1999 a titular da 4ª Vara Criminal daquela cidade. A única que julgava homicídios por lá.

Estávamos no início de setembro de 2010. Eu era repórter da editoria Rio do jornal O GLOBO e recebi de Paulo Roberto Araújo, um dos chefes de reportagem, a missão de entrevistar a juíza.

– Ela tem fama de durona, condenou uns bandidos. Acho que vale a pena conversar com ela – disse Paulinho.

Comecei a estudar a pauta e soube que o Ministério Público de lá estava analisando antigos casos de auto de resistência (quando um policial mata alguém após sofrer uma “injusta agressão”). O MP descobriu erros em alguns processos antigos. Entre 2008 até aquela data, 70 policiais militares foram denunciados por homicídio. E era Patrícia Acioli que estava julgando esses casos.

Diante disso, a pauta mudou. Este número de denúncias e os casos de inocentes que após a morte viraram “supostos traficantes” formaram a matéria principal.

A continuação, na página ao lado, foi uma entrevista com a juíza Patrícia Acioli. Era impossível não tentar entrevistá-la. Patrícia tinha pela frente um grande desafio e, ao mesmo tempo, era um alvo ambulante.

Eu fui até o Fórum de São Gonçalo, mas no primeiro dia não consegui conversar com ela.

– Estou cheia de coisas para resolver. Você pode voltar amanhã? – ela quis saber.

Claro que podia. No dia seguinte, lá estavam eu e Domingos Peixoto, um gigante das lentes. Desde o início, Patrícia Acioli foi solícita. Recebeu-nos em seu gabinete sem formalidades. Conversamos por cerca de uma hora e meia (gravei a entrevista em áudio. Tenho esperança de um dia encontrar o arquivo em algum perdido CD de back up). E, claro, perguntei se ela tinha medo das ameaças, se tinha medo de morrer. E foi isso o que ela me respondeu:

“Não tenho medo de ameaça. Quem quer fazer algo vai e faz, não fica ameaçando. Ninguém morre antes da hora…”

Antes de colocar a frase dela no texto, fiz uma observação na matéria: “Apesar de não temer ameaça, a juíza não permitiu que seu rosto fosse fotografado para a reportagem. Segundo ela, é uma forma de preservar sua família”.

De fato, ela parecia não ter medo de nada. Falava com tranquilidade sobre as ameaças e demonstrava orgulho do trabalho que fazia: julgar assassinos. A foto acima é de Domingos Peixoto, feita em 9 de setembro de 2010. Patrícia, usando sua toga, abre um dos inquéritos que estava julgando. No fundo da imagem, repare só, uma pilha quase sem fim de outros casos.

Publicamos as informações no dia 12 de setembro de 2010, exatamente onze meses antes de Patrícia Acioli ser morta a tiros. Acredito que esta tenha sido a última matéria sobre a magistrada antes dela ser executada. Ao menos, não tive notícia de algo parecido. Editada pelo jornalista Jorge Antonio Barros (que hoje é meu colega na coluna Ancelmo Gois), a matéria ganhou o título: “Uma juíza linha-dura no caminho dos PMs”.

acioliFoi assassinada, como a investigação mostrou, justamente por PMs. Hoje, três anos depois, todos os 11 policiais militares envolvidos na execução da juíza foram condenados pela Justiça, numa resposta rápida e difícil de se ver. Mas é melhor assim!

Talvez eu nunca esqueça esta entrevista e nem a surpresa que tive quando soube da morte da juíza. Estava em lua de mel, fora do Rio. Virei para minha mulher e… “amor, tenho que ligar pro jornal. É rapidinho…”

O que aprendi com tudo isso? Que “quem quer fazer algo vai e faz” e que é possível, sim, morrer antes da hora.

ago. 3, 2014 - Coleguinhas    Sem comentários

Ancelmo Gois: o menino de Sergipe que virou o maior colunista do país

AG2Vou publicar aqui (e com certa frequência) textos sobre jornalistas e suas boas histórias. A estreia será com Ancelmo Gois, o colunista do GLOBO, com quem trabalho há uns três anos. Minha ideia inicial era apenas registrar uma história, um grande caso, uma grande cobertura. Mas não deu.

No vídeo abaixo, Ancelmo conta um pouco da trajetória dele no jornalismo, fala sobre o sonho de mudar o mundo, da revelação que fez no “Informe JB” sobre PC Farias e de  seu primeiro dia no Jornal do Brasil. Vale a pena assistir.

Sergipano de Frei Paulo, Ancelmo, de 65 anos, começou a trabalhar aos 15 anos na “Gazeta de Sergipe”. Sua primeira função foi arquivar fotos. Entre uma tarefa e outra, corria para ouvir os jornalistas conversando sobre os problemas da cidade. O menino logo se interessou pelos assuntos, principalmente os que envolviam política. A transição do arquivo para a reportagem foi natural, como era antigamente.

Antes mesmo de completar 18 anos, Ancelmo já escrevia a coluna “Reclamações do povo”, que publicava pequenas queixas da população. O trabalho dele era selecionar e reproduzir as cartas enviadas pelos leitores. Como já apresentava talento, o jovem sergipano migrou para a reportagem, e a pequena estrutura da “Gazeta de Sergipe” abriu espaço para que ele fosse testado em outras áreas. Chegou, inclusive, a fazer crítica de cinema.

Em dezembro de 1968, logo após o AI-5, Ancelmo, que participava da luta contra a ditadura, acabou preso e passou o réveillon de 1969 atrás das grades. Quando deixou a cadeia, já não tinha mais o seu emprego na “Gazeta de Sergipe”. Clandestinamente e com apoio do Partido Comunista, ele se exilou em Moscou, na Rússia. Lá ficou mais de um ano.

Na volta, já depois da Copa de 1970, Ancelmo foi morar no Rio de Janeiro. Queria continuar trabalhando como quadro político, mas a pouca grana que recebia na militância o obrigou a procurar emprego. Decidiu voltar ao jornalismo. Bateu na porta do jornalista Maurício Azêdo, que era um quadro do Partido Comunista.

Por indicação dele, Ancelmo começou a fazer freelas em publicações, da editora Abril, sobre trabalhos técnicos, relacionado a metalurgia, siderurgia. Ele, por exemplo, acompanhou, de dentro da Redação, o surgimento da revista “Exame”, uma fusão das antigas publicações da Abril.

AGDe lá, Ancelmo foi para a revista “Veja”, no início dos anos 1980. Foi repórter de economia, subeditor, editor. Em 1986, trocou a “Veja” pelo “Jornal do Brasil”, a convite do amigo Marcos Sá Corrêa. Ancelmo Gois conta ter realizado um sonho ao entrar no “JB” (veja o vídeo). Foi lá que ele engatou a carreira de colunista, ao se tornar titular da “Informe JB”, que na época era a coluna mais importante do país.

Seis anos depois, em 1992, o jornalista voltou para a “Veja”. Dessa vez, como chefe na sucursal da revista no Rio e titular da coluna “Radar”, que estava sendo reformulada.

– Quando eu fui pra lá, fui tocar o projeto da “Radar” com duas páginas. Antes, só tinha uma, e as notas eram mandadas pelos chefes das sucursais – conta.

Nesta segunda passagem, Ancelmo ficou cerca de oito anos. Em 2000, foi para o site Notícias de Opinião (NO). Foram os primeiros passos do jornalismo brasileiro na internet. E, no ano seguinte, assumiu a principal coluna de notícias do jornal O GLOBO, onde está até hoje.

Apesar dos seguidos furos, das grandes revelações e dos inúmeros prêmios, Ancelmo Gois mantém a simplicidade daquele menino de Sergipe. Costuma sempre dizer pra gente:

– Muita gente bate no nosso ombro e diz que fazemos a melhor coluna do país. No dia em que acreditarmos nisso, ficaremos para trás…

Ancelmo Gois é um grande mestre, talhado nas pernas ágeis da notícia.

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