set 22, 2014 - Opinião    Sem comentários

No Butantã, um fio de esperança

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Muita gente acha que o Brasil não tem jeito. Acha que o brasileiro comum é renitente ao trabalho, à evolução. Eu vou contar agora um pedacinho da história de Fernandinho, um jovem que conheci, semana passada, no Jardim São Jorge, sub-bairro do distrito Raposo Tavares, no Butantã, Zona Oeste de São Paulo. Em 1999, ele tinha 9 anos de idade. Era mais um dos milhares de meninos pobres daquela região que vivam pra cima e pra baixo nas ladeiras do Jardim São Jorge.

Mas num iluminado fim de semana, atraído por uma atividade sociocultural, ele chegou à sede do Grupo Assistencial Bom Caminho (na foto acima), que se instalara no bairro seis anos antes. O menino ficou encantado. Tinha ali, no meio de tanta gente disposta a ajudar, muitas coisas para fazer, para se ocupar. Nem percebia, mas já estava aprendendo algo. Contudo, àquela altura, o que ele se importava mesmo era com as brincadeiras e as companhias. Naquela semana de descobertas, Fernandinho voltou lá todos os dias. Sua presença assídua alegrou os colaboradores do Bom Caminho, mas sua insistência em permanecer, em fazer de tudo para ser o último a ir embora, ligou o alerta do Tio Mário, como é chamado por todos o presidente da ONG.

– Menino, vou te levar pra casa! Me diz onde é…

E Fernandinho, obediente e tímido desde a infância, conduziu o líder comunitário. A realidade dele não era diferente da de muitos da região, mas Mário se impressionou ao saber que a família de Fernandinho, num total de oito pessoas, dormia sobre a mesma cama de casal. Era mãe, filhos e filhas. Com o coração revestido por uma couraça feita pelas durezas do cotidiano, Tio Mário não se abateu e quis em presentear o menino. O Natal estava chegando, era o momento propício para um gesto de solidariedade. Ele pensou em dar uma cama ao garoto e perguntou:

– O que você quer ganhar de presente?

O menino de 9 anos não precisou pensar muito para responder o que Tio Mário não esperava ouvir:

– Eu quero ganhar um emprego para minha mãe, pra gente não morrer de fome.

A sinceridade genuína daquele brasileirinho varou a tal couraça e partiu o coração do Tio Mário. Dali pra frente, o homem sentiu que tinha um compromisso com aquela criança. É como se a ONG tivesse adotado Fernandinho. Ele passou a participar de todas as aulas que poderia fazer no Bom Caminho. Cresceu ali dentro, sob as orientações do Tio Mário e dos demais colaboradores do projeto social. Com as informações que recebia, Fernandinho encontrou meios de ajudar a mãe, os irmãos e irmãs, e, claro, de influenciá-los, de passar a eles o que vinha aprendendo.

Fernandinho, que jamais se desligou do grupo assistencial que o acolheu, cresceu evoluindo como ser humano e vendo alguns de seus amigos descerem a ladeira do crime. Ele, porém, permaneceu no “bom caminho”. No final deste ano, Fernandinho vai se formar em Psicologia. Em 2015, como funcionário da ONG, passará a atender seus irmãos de bairro.

O menino do Jardim São Jorge não imagina, mas é um fio de esperança nos dias de hoje.

bomcaminho1Na foto: Tio Mário e algumas das crianças atendidas hoje no Bom Caminho.

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