Archive from janeiro, 2015
jan. 29, 2015 - Opinião    Sem comentários

A turma da Tijuca é boa

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A Tijuca, o bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, completa 256 anos em julho. Tem e teve muitas turmas. Algumas mais famosas, outras mais animadas que outras. Para falar de todas seria preciso escrever livros. Dezenas deles.

Eu, particularmente, lembro sempre de três delas, que são musicais e separadas por um intervalo de 20 anos da primeira para a segunda, e da segunda para a terceira.

A biografia de “Tim Maia”, escrita por Nelson Motta e que inspirou o filme, fala de uma delas. Nos anos 1960, as esquinas tijucanas foram testemunhas das reuniões de Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Jorge Ben Jor e, entre outros, Tim Maia. Nem todos moravam no bairro, mas era lá que se encontravam.

Naqueles anos 1960, a Tijuca foi o ponto de partida para o “iê, iê, iê”, para o balanço de Jorge Ben, para o som de Tim.

E todo turma teu seu ponto de parada ou, como dizem os mais animados, seu “quartel-general”. E o da daquela era o Bar do Divino, na esquina das ruas Haddock Lobo e do Matoso, no Rio Comprido. (Aliás, para não ser impreciso, é preciso falar em Grande Tijuca, unindo Rio Comprido, Usina, Muda, Aldeia Campista, Mangueira e Andaraí). Diga-se: o Divino fechou e reabriu tempos depois, conservando o velho status.

Daquela turma, Erasmo foi um dos que colocou o bairro nas rádios, com “Turma da Tijuca”. Ele canta: “Naquele tempo já existia punk/ E Tim Maia nem cantava funk/ Grandes sarros no silêncio das escadas/ Quebra-quebra nos estribos do bonde 66/ Que turma mais maluca, aquela turma da Tijuca”.

É a primeira turma, neste meu texto, claro.

Nos anos 1980, a Tijuca abrigou a genialidade efervescente de Aldir Blanc e Moacyr Luz, que eram vizinhos de prédio. Aldir tinha pouco mais de 30 anos no início da década. Moa, menos de 25.

Teve ainda Paulo Emílio. Aliás, esta turma é essencialmente talentosa.

É de Aldir e Moa, com Paulo César Pinheiro, o hino “Saudade da Guanabara”. A Tijuca está lá: “Pelos crimes que rolam contra a liberdade… Reguei/ O Salgueiro pra Muda pegar outro alento”.

Salgueiro e Muda, pedaços tijucanos. Ah, não posso esquecer de “Lápis de cor”, a música de Paulo Emílio que a minha turma mais canta quando senta em roda: “Amor, eu queria te dar/ A Tijuca e o Rio de Janeiro/ Amor, eu queria te dar/ Meu coração e o mundo inteiro”.

É obra-prima.

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Mais uma coisa: trechos de “O bêbado e a equilibrista” foram feitos no bairro. Mais precisamente no apartamento de Aldir, na Muda. E a Grande Tijuca está no clássico da MPB: “Caía a tarde feito um viaduto…” é referência ao desabamento do Elevado Paulo de Frontin, no Rio Comprido, em 1971.

Essa turma também tinha um bar para chamar de seu: o da Dona Maria, na Rua Garibaldi. Por causa desses bambas, as mesas daquela casa portuguesa receberam por anos a nata do samba (na foto acima, que peguei no Blog do Moa, o bamba aparece ao lado de Nelson Sargento e Beth Carvalho, entre outras pessoas, lá na Dona Maria). É óbvio que eles frequentavam outros balcões, mas fica o destaque.

É a segunda turma.

Avancemos no tempo. Nos anos 2000 surge mais uma turma da pesada: Gabriel Cavalcante, Pedrinho da Muda (na foto lá do alto), JP, Dudão, Lelê, Falcão, Velha… e por aí vai. Todos com mais de 26 anos de idade e menos de 30 e muitos.

Esses caras são o combustível do Samba da Ouvidor, que surgiu em 2008 com outra formação, no Centro do Rio de Janeiro.

A roda é gratuita. E o movimento dessa turma da Tijuca (e de amigos de outros cantos da cidade) reaqueceu o comércio na Rua do Ouvidor. Quem lembra do início da roda vai contar: a música acontecia em frente à Livraria Folha Seca e poucos bares ficavam abertos. Hoje, sete anos depois, a maioria dos botecos fez reforma para melhor receber o público e fica aberta até a música acabar.

E mais: a Rua do Ouvidor ficou pequena diante da multidão, e a roda foi levada à esquina com a Rua do Mercado. É um sucesso carioca, com valor cultural incomensurável.

Essa turma tem dois refúgios na Tijuca: o Bar da Gema, na Rua Barão de Mesquita, e o Bar do Momo, na Rua General Espírito Santo Cardoso. Nem é preciso marcar para encontrar qualquer um deles lá.

A Tijuca não tem praia, mas não sofre por isso. Festeja sua natureza, sua história e seus filhos tijucanos (sem falar no Maracanã). O morador de lá tem um orgulho sem fim, como são os de Bangu, da Ilha do Governador e de Ipanema.

A Tijuca, sobretudo, é saborosa. Em suas esquinas dobram inspiração, romances e batucada. Falando apenas do campo da arte, o que a Tijuca sempre precisa é de música. Ela mantém o bom humor e o doce caminhar da rotina. Veja bem: lá não falta música. E é justamente por isso. A Tijuca é musical.

O curioso é que, com exceção do estádio Jornalista Mário Filho e apesar de tanta história, a Tijuca não é turística. Acredito eu, e com todo o respeito aos bairros que são, que a Tijuca ainda não esteja satisfeita. É muito viva, não abandona a cadência dos acontecimentos que a movem todos os dias. De fato, há muito para acontecer por ali. Como o belo samba que essa terceira turma está devendo ao bairro.

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No filmete abaixo, Gabriel Cavalcante, no Samba da Ouvidor, canta o trecho final de “Acontece”, clássico do mestre Cartola, baluarte da Mangueira, que fica na… rs!

jan. 18, 2015 - Viagem    Sem comentários

Le Dôme, uma boa mesa em Paris

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Cumpro agora o que prometi dias atrás: escrever sobre o Le Dôme Café  (ou Café du Dôme), o restaurante, com balcão de bar, que a Geração Perdida frequentou na Paris dos anos 1920, 1930.

Bem, eu quis conhecer o lugar após ler “Paris é uma festa”, de Ernest Hemingway (1899–1961). O livro “E foram todos para Paris”, do jornalista Sérgio Augusto, lista os lugares que Hemingway e cia frequentavam naqueles anos dourados e que existem até hoje. O Le Dôme, claro, está entre eles. Vale a pena ler os dois.

O Le Dôme parece ter sido criado para brilhar. Fica, veja só, num dos bairros mais charmosos de Paris, Montparnasse (segue o endereço completo – 108, bd du Montparnasse, 75014).

Ele abriu as portas em 1898 e, na década seguinte, já era conhecido por atrair intelectuais. Paul Gaugin (1948-1903), o grande pintor, por exemplo, também frequentou aquelas mesas. Aliás, é vizinho do também famoso La Rotonde.

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A iluminação é propositalmente escassa, e a decoração lembra os tempos antigos. É bem confortável e agradável. A casa, hoje, é especializada em frutos do mar. Quando fui, em quase todas as mesas, estavam degustando ostras e familiares.

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Nas paredes do corredorzinho que leva até o balcão há fotos de frequentadores seus ilustres, como Pablo Picasso (1881-1973). Fiz uma (abaixo) que reproduz a que registra o encontro, em 1956, entre Hemingway e Martine Carol (1920-1967), a atriz francesa.

Desde o final do século passado, o Le Dôme deixou de ser ponto de encontro de intelectuais boêmios e um bar. Transformou-se num restaurante chique. Mas vale a visita.

Há muitas opções no cardápio, não só peixe. E serve taça de vinho a 5 euros. Dá pra sentar, pedir uma tacinha e viajar no tempo.

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jan. 13, 2015 - Opinião    Sem comentários

Respeite o repórter

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Não é difícil encontrar alguém por aí falando mal da imprensa. Que o tal jornal é isso. A tal revista é aquilo. As pessoas, que, na maior parte, nem sabem do que estão falando, julgam os repórteres como se todos fossem iguais.

Eis um caso que mostra que elas estão erradas. Leslie Leitão, da revista “Veja” (aquela que muita gente fala mal), revelou o caso dos policiais militares Marcio José Watterlor Alves e Delviro Anderson Moreira Ferreira (na imagem acima), que perseguiram e mataram a jovem Haíssa Vargas Motta, na Baixada Fluminense.

Após a revelação feita por Leslie, a imprensa foi atrás da história (O jornal “Extra”, por exemplo, com suas capas contundentes, tem sido implacável nesta repercussão).

O assassinato foi em 2 de agosto de 2014. Cinco meses atrás. Já a matéria da “Veja”, publicada no último dia 10. De lá pra cá, três dias.

Hoje, tendo a matéria esclarecido como tudo aconteceu, o Ministério Público estadual anunciou que denunciou os PMs por homicídio duplamente qualificado.

Respeite o repórter! E jornalista, entenda: o jornalismo não morreu.

Não venha me falar do que você acha. Conte-me o que você sabe.

Foi o que o Leslie Leitão fez.

jan. 7, 2015 - Opinião    Sem comentários

DIGA NÃO À VIOLÊNCIA

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Este 7 de janeiro começou com muita gente compartilhando uma brincadeira: os números da data de hoje repetem o maior vexame da seleção brasileira de futebol numa Copa do Mundo: 7 e 1.
Não demorou muito para a brincadeira cessar, atropelada pelas notícias vindas de Paris.

Afinal, tragédia de verdade aconteceu por lá.

jan. 7, 2015 - Opinião    Sem comentários

Paulo Roberto Costa e a Bíblia

pauloMuita gente que conheço despreza a Bíblia. Às vezes, descartam-na por causa dos maus exemplos daqueles que dizem seguir os mandamentos do livro sagrado, mas, na verdade, não os cumprem. Às vezes, por não entenderem o que nela está escrito. (Algumas traduções não ajudam, e a Bíblia requer estudo, mais do que simples leitura) Às vezes, por puro preconceito. Há também os que têm preguiça de saber, de fato, o que há nela.

Enfim, acho que o livro traz ensinamentos, uma filosofia de vida, que são como bússola neste mundo. Conselhos que, caso seguidos de verdade, fazem com que o sujeito tenha, debaixo desses céus, uma vida melhor.

Veja. Se Paulo Roberto Costa, o ex-diretor da Petrobras preso por causa do escândalo de desvio de verba na estatal, tivesse entendido e praticado o que está em Provérbios 15:27 estaria passando os últimos dias como eu e você: em paz, entre amigos e familiares.

O conselho, claro, serve para qualquer outro corrupto, seja do Petrolão, dos mensalões e esquemas semelhantes, iguais ou da mesma natureza.

Diz lá: “O avarento põe sua família em apuros, mas quem repudia o suborno viverá”.

Uma outra tradução para o português diz assim: “O que se dá à cobiça perturba a sua própria casa; mas o que aborrece a peita (ou suborno) viverá”.

O “viver” deste trecho não é permanecer vivo, respirando. É viver com qualidade, viver mais…

A prisão domiciliar é bem melhor do que a das grades do nosso sistema penitenciário. Mas a vergonha é a mesma. Você pode até discordar de mim, mas duvido que queria trocar de lugar com ele.

Perceba. Não vendo aqui qualquer religião. Não confunda. Só defendo que conselhos como este, testado e feito verdadeiro pelo tempo, não deveriam ser desprezados. Muito menos tão facilmente como vemos hoje em dia.

 

Instagram: danielbrunet8

jan. 5, 2015 - Crônica    Sem comentários

O encontro de García Márquez e Hemingway em Paris

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Quem tem o hábito, mania ou necessidade de ler livros adoraria conhecer seus autores preferidos. Mesmo que fosse algo discreto, como um encontro de iguais.

O colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), antes de se tornar um grande escritor, gênio do realismo fantástico, teve esta oportunidade. Foi em 1957. O jornalista Gabo tinha 30 anos e estava em Paris trabalhando como correspondente internacional.

Na calçada oposta do Boulevard St. Michel (foto acima), no Latin Quartier, em Paris, ele viu Ernest Hemingway (1899-1961) e a mulher, Mary, caminhando.

García Márquez ficou sem saber se corria até o autor de “O velho e o mar” para pedir uma entrevista ou se apenas ia até ele dizer o quanto o admirava. (Anos e anos mais tarde, García Márquez diria que Hemingway foi o escritor que mais o influenciou, por lhe ter passado a disciplina da ciência da escrita).

Na dúvida e impactado, o jornalista latino ficou parado. Só conseguiu acenar de longe e gritar: “mestre”. Gentil, o escritor americano retribuiu o aceno e seguiu sua caminhada.

E assim foi o encontro dos dois. Gabo, não sabia, mas aqueles eram os últimos anos de Hemingway, que morreria quatro anos depois (é preciso aproveitar as oportunidades!!!).

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De fato, causa impacto encontrar alguém que você admira muito. Nem sei como reagiria se presenciasse esta cena. É que levo Gabo e Hemingway debaixo do braço há muito tempo.

Se eu conseguisse me mover, antes de convidar Hemingway para ir ao Le Dôme (em breve vou escrever sobre este bar), faria com García Márquez gaiatice semelhante a que Gil Pender aplicou em Luis Buñuel na mágica história parisiense de Woody Allen:

– Gabriel, eu conheço um coroa que passou a vida apaixonado por uma só mulher. Ela se casou e, mesmo assim, ele continuou apaixonado por ela. Você não vai acreditar, Gabriel, mas esse coroa esperou uns 50 anos até que ela ficasse viúva e ele pudesse, enfim, viver seu grande amor. Uma história e tanto, né? Aconteceu lá no Morro do Juramento, no Rio…

 

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jan. 2, 2015 - Recado    Sem comentários

Por favor, não derrubem o Blog do Brunet

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O título é só provocação. O Blog do Brunet ficou fora do ar por semanas e está de volta agora (Feliz 2015!). É que no último mês de novembro, a página recebeu quase 72 mil acessos (veja o gráfico), e o servidor não suportou (só não é mais fraco do que casca de ovo).

O jornalista Carlos Alberto Ferreira, meu guru para mídias sociais, diz que eu tenho que comemorar o feito. Então… obrigado, gente!

A partir de agora, o blog será atualizado sempre que possível. Tenho certeza de que, neste novo ano, teremos muitas histórias para contar. Vem!

jan. 2, 2015 - Opinião    Sem comentários

O ÚLTIMO CAPÍTULO

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A partida de Roberto Gómez Bolaños desperta sentimento gêmeo causado pela morte de um parente. Um parente próximo, claro.
Junto com meus irmãos, Chaves e Chapolin estiveram comigo em todas as tardes alegres da minha infância e adolescência. Estiveram com você nas suas também, não? Aposto um sanduíche de presunto que sim!
É o maior de todos, o gênio, o incomparável. Artista de verdade, de verdade mesmo. Viveu 85 anos e viu quase que o mundo inteiro se render ao seu talento. Que bom! Ele mereceu.
Obrigado, Chavo del ocho!

 

 

* Texo publicado originalmente no Facebook em 28/11/2014.

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