Archive from fevereiro, 2015
fev. 27, 2015 - Crônica    Sem comentários

Tardes no consultório

idosa

Foi só Dona Efigênia entrar no hospital para provocar risinhos nas recepcionistas. Não era deboche, não. Nem desdém. Elas apenas achavam graça da quantidade de vezes que aquela senhorinha aparecia lá.
Dona Efigênia já passou dos 80 anos, é bem vovozinha, daquelas que anda com certa dificuldade, mas que não se entrega. Vive dando suas caminhadas. E ao hospital, ia, pelo menos, três vezes por semana.

– Doutor Felipe, por favor, minha filha… – disse ela.

Já sabiam que ela procuraria pelo tal médico. Ela sempre fazia isso.

“Será que ela é apaixonada pelo doutor Felipe? Mas ela parece ser bisavó dele!”, disse uma delas, certa vez.

“Ou será que o doutor lembra um filho dela que morreu há anos? Às vezes, ela mata a saudade assim”, imaginou a outra.

A cada visita da vovozinha, elas matutavam um outro motivo para as seguidas aparições de Dona Efigênia. E a idosa sempre pedia para ser atendida pelo doutor Felipe. E isso há tempos. Desde que levou um tombo na rua e foi parar na emergência. Naquela vez, dr. Felipe estava de plantão e a atendeu. Foi por acaso.

“Eu acho que ela é bem rica e sem filhos. Nunca a vi com ninguém aqui! Deve estar procurando alguém para deixar a herança”, conjecturou uma delas.

“Que nada, menina! Se fosse isso ela já teria feito. Eu acho que eles se conhecem de outra vida”, supôs a outra.

“Ai, não fala isso que fico toda arrepiada…”

O fato é que, naquele dia, o doutor Felipe não tinha ido trabalhar.

– Não veio? Hoje é dia dele, minha filha! – insistiu Dona Efigênia.
– Sim, mas o doutor teve um probleminha. Só semana que vem. Mas o que a senhora está sentindo hoje? Eu posso te encaminhar para outro médico – sugeriu.

Dona Efigênia já apareceu no hospital com todo o tipo de dor. Por causa do tombo, foi muitas vezes reclamando do joelho. Mas já se queixou dos ombros, dos dedos das mãos, do pescoço, das orelhas. Certa vez garantiu que estava ficando cega. Noutra, suspeitou estar com Aids.

– Aids, Dona Efigênia? Como teria acontecido isso? – exclamou Felipe, aos risos, numa das consultas.
– As doenças também evoluem, o doutor não acha?

As consultas de Dona Efigênia eram demoradas. Geralmente, o paciente não passava mais de dez minutos no consultório. Mas Felipe a recebia por cerca de meia hora. Gentilmente, sempre terminava a consulta dizendo:

– Fique tranquila, Dona Efigênia. A senhora está bem, muito bem. Mas agora preciso atender outros pacientes…

A notícia de que seu médico não estava lá naquela tarde paralisou a vovozinha por uns segundos. E ela respondeu à pergunta da recepcionista aparentando dolorosa decepção:

– Nada minha, filha.
– É no joelho outra vez? Dr. Carlos é muito bom e está aqui hoje…
– Não, não…
– É na cabeça? Dra. Cíntia é a melhor da região.
– Já passou, menina – disse a idosa, virando o corpo em direção à porta de saída.

Não falou mais nada, nem olhou para trás. Saiu cabisbaixa, tristinha.

Dona Efigênia sofre de solidão.

fev. 18, 2015 - Coleguinhas    Sem comentários

Lan e a mulata rubro-negra

mulata (1)

Lan me falou também sobre o Flamengo, time do nosso coração. Ele virou flamenguista antes mesmo da Era Zico. No papo, ele contou que adoraria ver um de seus desenhos – uma mulata vestindo a camisa do clube – na Gávea, a sede do rubro-negro carioca.

– Isso iria me eternizar entre os flamenguistas.

Lan, que nasceu na Itália e cresceu no Uruguai, virou flamenguista por causa de uma promessa. Em 1950, quando morava em Buenos Aires, ele encontrou lá o jornalista Otelo Caçador, que fora cobrir os Jogos Pan-americanos. E este, um rubro-negro apaixonado, fez o pedido:

– Se você for para o Brasil você tem que torcer pelo Flamengo.

O grande cartunista nem sonhava em se mudar para o Brasil. Porém, dois anos depois, veio para cá a convite do jornalista Samuel Weiner. Trabalhou no extinto jornal “Última hora”, onde fez retumbante sucesso.

Bem, Lan cumpriu a promessa e, com o tempo, aprendeu a amar o clube, assim como faz com a Portela. Em seus desenhos, derramou muita tinta vermelha e preta por causa do Mengão. Até que surgiu a ideia de desenhar a mulata com a camisa do Mais Querido.

Em 2013, este desenho e de outras mulatas viraram esculturas pelas mãos do escultor  Marcos André Salles (o gênio tem algumas em casa. Na foto do alto). Agora, aos 90 anos, diz que gostaria de ver essa escultura, mas em tamanho real, instalada na Gávea.

Lan completa 90 anos hoje. Seria um belo presente, hein, Mengão?

brunetlan

Mais uma…
O cartunista contou ainda que o sucesso desse desenho fez Sergio Cabral Filho, ex-governador do Rio, pedir uma versão vascaína.

Conta o Lan que o político usou um tom de autoridade: – O Lan, você tem que fazer uma mulata com a camisa do Vasco.

O mestre do traço, que é amigo de longa data do jornalista Sergio Cabral, pai, e viu Cabral Filho crescer, rebateu, com fina ironia.

– Eu achei graça dele. E falei: ‘Ô, Serginho…’. Assim mesmo, sem essa de tratar como político. Eu o conheci pequenininho. Então disse: ‘Ô, Serginho, mulata eu desenho. Mas com a camisa do Vasco… nunca!’

Viva o Lan!

 

 

***
(A foto acima é de Fabio Rossi)

fev. 16, 2015 - Coleguinhas    Sem comentários

Conversa com o tempo

brunet2987a

Na tarde de quinta passada eu tive uma das tardes mais agradáveis da minha vida. Passei umas quatro horas entrevistando o Lan, o grande cartunista ítalo-carioca, no sítio dele, lá em Petrópolis, na Serra do Rio. A matéria foi publicada hoje, no jornal O GLOBO. Conversamos muito. Faltou papel para colocar tudo que ouvi desse gênio do traço.

Então, vou despejar aqui, aos poucos, algumas coisas que conversamos. Vai ser a partir desta Quarta de Cinzas, quando Lan completa 90 anos.

O Lan é muito mais do que um cartunista. Desde que chegou ao Brasil, em 1952, ele conviveu com todo o tipo de gente. Acumulou muitas histórias, segredos e muito conhecimento. Na conversa, era nítido que ele tinha prazer em contar suas memórias. Porque contar é lembrar. E lembrar é reviver. Ele me disse:

– Meu futuro é meu passado…

lanzinho

Achei bonita também a definição do Lanzinho, personagem que o artista criou (no desenho acima, ao lado de Moacyr Luz, ele contempla uma mulata).

— O Lanzinho representa as limitações da terceira idade. Do lado dele, as mulheres ficam gigantescas, inalcançáveis.

Lan sabe das coisas.

 

fev. 12, 2015 - Música    Sem comentários

Feito um beija-flor

show

Conhecido pelas rodas do Samba do Trabalhador e do Samba da Ouvidor, Gabriel Cavalcante se propôs a fazer algo diferente: cantar seu repertório particular.

No show que ele apresenta no Paris Show, na Casa Julieta de Serpa, no Rio, Gabriel, um jovem músico de 28 anos, canta Dori Caymmi, Paulo César Pinheiro, Wilson das Neves, Aldir Blanc, Baden Powell. Canta sucessos de Nana Caymmi e de Dolores Duran. Quem com a idade dele canta Dolores Duran?

É um repertório particular, já disse. Apesar de ter Paulo César Pinheiro e Wilson das Neves, Gabriel da Muda canta algo diferente do que apresenta em roda. Sim, também tem “Som de prata”, de Moacyr Luz, que Gabriel gravou no segundo DVD do Samba do Trabalhador.

Mas o restante é, reunido assim, único. O lugar também. Acrescido da grave voz desse menino talentoso, o show é algo pra lá de especial. Ainda mais com a participação luxuosa de João Camarero, Marcos Tadeu, Fernando Leitzke e Marcelo Muller.

“Só sabe de amor e saudade quem já ficou só/ Saudade, eu tenho saudade/ Mas não de contigo voltar/ Eu vivo sentindo saudade… de amar”.

É, ele canta essa, do Dori e do PCP. É o tom, sabe? Às vezes, é de cortar o pulso. Mas Gabriel, lá do alto, na penumbra do palco, logo te socorre. Não se preocupe. Deve-se apenas viver.

Nesse show, assim, sem pretensão, Da Muda expõe o que canta para amigos e familiares, em meio aos mil e um sambas que guarda na cabeça.

Alcança quem ama, quem quer amar e quem já não ama mais ninguém.

Gabriel Cavalcante resgata músicas que andam esquecidas, algo semelhante com o que faz nas mágicas tardes e noites na Ouvidor, a rua mais importante do Brasil.

Um desses resgates é “Não vim pra ficar”, de Paulo César Pinheiro e Wilson das Neves. Traz o discurso de um cara desinteressado por novos relacionamentos, mas que conserva, lá no fundo, o desejo da manter a velha chama. E ele confessa: “Não vim pra ficar/ Não me guarde uma escova de dentes, não vou pernoitar/ Não faz cópia da chave, não quero invadir o seu lar/ Quero vir como sempre, feito um beija-flor”.

Uma querida amiga diz que o protagonista dessa música é um filh… você sabe. Eu o acho sincero. No vídeo abaixo, Gabriel canta essa história. O que você me diz?

Aliás, o último show dele lá na Julieta de Serpa é hoje. Embora seja o desfecho da série de três apresentações, não me resta dúvida: Gabriel Cavalcante – e já tem tempo que mostrou isso – veio pra ficar.

_

fev. 9, 2015 - Crônica    Sem comentários

A redenção

reencontro

Era daquelas noites que até se tem esperança de algo, mas não tanta. Só que o que aconteceu com ele foi totalmente inesperado. No meio daquelas dezenas de pessoas que curtiam a música, viu quem pediu a Deus para nunca mais ver.

Todo fim é complicado. Aquele fora demais.

Eles viveram uma versão tupiniquim da ‘Commedia dell’Arte’, o clássico italiano do século XVI, que nos apresentou Pierrô e Colombina… e, claro, Arlequim.

A Colombina carioca ficou dividida entre dois, e ele não suportou a dúvida. Perguntava-se a todo instante: Como pode? Depois de tanta coisa ela ainda tem dúvida?

Pensou duas, três vezes. Firmou convicção. Decidiu acabar tudo, dizendo que era para preservar o coração. Fora um rompimento daqueles sofridos.

Ele tinha consciência de que ela era ele em versão feminina. Ela dizia o mesmo. Ainda assim, o fim.

Mas ele cumpriu, ou ao menos tentou até aquele dia, sua promessa: nunca mais a veria, nunca mais a procuraria, nunca mais lhe daria seu carinho.

Entre o adeus chorado e aquela noite se passaram dez anos. Tanto ele, quanto ela deram rumo à vida. Embalaram outros relacionamentos, terminaram todos eles e, enfim, reencontraram-se. Não sabiam. Mas, ali, eram livres. Ambos.

Quando ele olhou para ela, ela não estava olhando para ele. Isso aconteceu umas cinco vezes. Parecia um imã, mas com certo atraso. E ela olhou para ele, mas ele olhava para outro lado.

Ele tratou de se afastar. Queria evitar que se esbarrassem, que cruzassem o olhar. Trazia ainda no peito uma coisa mal resolvida.

Achava que ela não o tinha levado tão a sério, que não tinha respeitado tanto amor. Ela era mais leve. Não pensava nisso.

– Besteira! Por que não ir falar com ela? Já se passaram dez anos… – pensou.

Tinha na consciência que mágoa é algo que não se pode deixar no coração. Pois ela, primeiro, faz mal a quem a guarda. O perdão é libertador. Esquecer, um sonho.

Tomou coragem. Olhou para trás, só que ela não estava mais lá. Ironia pura da vida, digna de comédia romântica. Mas não demorou, não. Há coisas que precisam acontecer, queira o homem ou não.

Ele a viu novamente. E de longe deu um sorriso. Ela murmurou algo para a amiga do lado. Ele, como se nunca tivesse esquecido os jeitos dela, como se mantivesse intacta a velha intimidade, leu seus lábios.

– Ai… – ela suspirou.
– Que foi? Viu seu ex-namorado aqui?
– Não. É mais que isso. É um amor antigo.

Foi a redenção.

fev. 6, 2015 - Opinião    Sem comentários

História de nós dois

mae

É menino. Meu Deus, ele é lindo. Obrigado. Olha, esse é o meu menino. Xiiiiiiii, xiiiiii! Dorme, dorme. Não. Não, faz isso! Tira o dedo daí. Calma. Caiu, levanta! Vai, você consegue! Machucou? Vem cá! Já pro banho. Agora! Não vou repetir. Espera… ano que vem você vai para a escola. Ainda tá cedo. E aí, brincou muito? Já pra cama! Não quero saber! Come tudo. Arroz e feijão. Chega de batata frita. Briga? Me explica isso! E o que seu coleguinha fez? Mudar de colégio é bom. Você vai ver! No máximo até meia-noite! Qualquer coisa liga pra mim. Passeio, é? Tá. Se divertiu? Mas você não podia ter feito isso! Que coisa feia! Festinha na casa de quem? Quem vai te levar? Qual telefone da casa desse amigo? E o nome da mãe dele? Parabéns! Passou de ano! Quem é essa menina? Prova é assim mesmo! Tem que estudar mais! Não tô gostando disso! Mas o que é que você tem na cabeça? Só vou falar uma vez! Tá bom! Não é porque tá de férias que vai dormir até meio-dia. Se eu for ai vai ser pior! Esse tipo de menina não é para você! É melhor você me ouvir. Jornalismo? Tem certeza? Você tem que se dedicar! Amanhã te levo no ponto de ônibus! Que legal! Deixa eu ver! Que bonito! Vai acontecer, fica tranquilo! Parabéns! Você merece! Eu li! Foi difícil? Que orgulho! Te amo tanto! Te convidaram, é? E o que você disse? Um dia você chega lá. Tenho certeza! Essa até que é bonita! Você não é mais nenhuma criança! Vai dar tudo certo! Você é esforçado! Deus é contigo. Não te falei? Quando eu falo, acontece! Morar sozinho? Não precisa disso! O Botafogo ganhou, o Flamengo perdeu. Rá! Você tá lindo nessa roupa! Brigou com ela? Vem cá! Encosta aqui, não fica assim! Vai ser um sucesso! Guardei aquele recorte de jornal. Você vai ter que me ensinar a mexer nesse negócio de WhatsApp. Ih, parou de funcionar! Acredita em Deus. Vai dar tudo certo! Tá precisando de quê? Comprei umas coisas para a sua cozinha! Sabe que pode contar comigo! Não fica assim! Te amo demais! Você não me liga mais! Saudade de você! Eu vi. Quase caí para trás! Nem te conto! Tá bom, não vou colocar nada no Facebook. Vamos almoçar amanhã! Quando eu estiver chegando eu te ligo. Boa noite! Bom dia! Tá precisando de alguma coisa? Eu te amo.

****
Não é Dia das Mães. É dia da minha. Mas dedico a todas que sejam como ela – daquelas que sempre estendem a mão, repare na foto, só por precaução – os meus sinceros elogios! Vocês fazem a diferença!

fev. 3, 2015 - Música    Sem comentários

Velha guarda da caneta

IMG_0655

Chegando na Redação do GLOBO, ontem, tive uma grata surpresa. Dei de cara com Zé Katimba e Noca da Portela, consagrados compositores da música que o Rio de Janeiro inventou.

O Noca eu conheço mais de perto. Somos, inclusive, parceiros. Eu, ele, Genilson Junior, Pedrinho da Muda, Mario Oliveira e JP disputamos, certa vez, o samba de um bloco. A vitória não veio. Mas a honra da parceria é eterna.

Zé Katimba é famoso por “Martim Cererê”, samba que ele fez com Gibi, em 1972, para a verde e branca de Ramos. É dele também, com João Nogueira, “Do jeito que o rei mandou”: “Sorria que o samba mata a tristeza da gente…”.

Noca é compositor de inúmeros sucessos. Tem gente que canta, diverte-se e nem sabe que a música é deste nobre portelense. É o caso, quer ver?, de “Caciqueando”: “Olha, meu amor/Esquece a dor da vida/ Deixa o desamor…”

A que eu gosto mais é “Peregrino”, um homenagem a Jesus. Diz no fim: “Ninguém vive feliz se não puder falar/ E a palavra mais linda é a que faz cantar/ Todo samba, no fundo, é um canto de amor”.

O que me impressiona nesses dois é a vitalidade. Os dois nasceram em 1932. Têm hoje 82 anos. E este ano, a Imperatriz Lepoldinense desfila com uma música do Zé e dos parceiros dele. Já a Portela leva à Avenida uma do Noca e cia. Oitenta e dois anos, amigos e amigas.

Mesmo quando a saúde fraqueja, o Noca mantém o bom humor. Recentemente, ele estava internado. Liguei preocupado. E ele:

– O velho é madeira boa, Daninho. Não quebra assim não.

Graças a Deus!

E ontem, quando nos despedimos, ele ainda me provocou:

– Quando você vai tomar um chá de macaco com o nego velho aqui? Passa lá no cafofo…

Seria lindo se gente da minha idade fosse tão animada, produtiva e criativa como esses dois. Noca me ensina que velhice não é questão de idade.

fev. 2, 2015 - Crônica    Sem comentários

Conselho vadio

velho

O rapaz estava parado à porta de um bar qualquer na Lapa, o bairro boêmio do Rio. Esperava um amigo chegar, mas, antes disso, viu um senhor claudicante se aproximar.

Ele não teve preconceito, nem medo. Viu que o velho não oferecia perigo algum. Iria apenas lhe pedir algo. E pediu.

Os pedintes de hoje tem, em geral, três estratégias: contar uma história triste, triste e triste e pedir dinheiro, dizer que está morrendo de fome e pedir que compre algo para comer ou falar que precisa de dinheiro para alimentar algum vício.

O velho da Lapa escolheu a terceira opção:
– O senhor pode me ajudar?
– Não precisa me chamar de senhor. Eu sou mais novo que o senhor, bem mais.
– Olha, eu podia falar um monte de coisa. Mas só quero tomar uma cachaça. Uma só, depois vou dormir num papelão ali na esquina.

O homem, trajando roupas rotas, falava a verdade. Pobre velho. Tudo o que tinha era um papelão para dormir e a esperança de que alguém lhe pagasse a cura de sua ânsia.

O rapaz sinalizou para o sujeito atrás do balcão:
– Desce uma pra ele, amigo!

Lá foi o velho, mancando, devagar, saciar seu desejo, vício, prazer noturno, derradeiro. Traçou aquele meio copo americano numa talagada só. Logo em seguida, um suspiro de prazer.

Voltou para agradecer:
– Eu tenho 63 anos. Desejo tudo de bom para o senhor.
– Senhor não. Já pedi…
– Tudo bem… pra você, pra você.

O velho, que parecia ter mais de 70 anos, aproximou-se ainda mais do “garoto” e lhe tocou as mãos.
– Ouve isso. Na vida a gente tem que ser duro como uma rocha, mas também precisa ser sensível como uma porcelana. Muito obrigado pela branquinha!
– Tudo bem. Boa noite pro senhor.
– E ó, fique longe das drogas. Senão você não vai saber a hora de ser rocha e de ser porcelana – explicou, apontando as duas mãos para si, como quem diz: “Veja só o meu caso…”
– Tá bom!

Além do papelão e da realizada esperança do último gole, o velho da Lapa tinha uma mensagem. O rapaz ouviu, guardou o conselho vadio. Saiu de lá com o aprendizado: sabedoria não tem valor algum se for só da boca para fora.

UA-53194424-1
UA-53194424-1