Archive from março, 2015
mar. 31, 2015 - Botequim, Crônica    Sem comentários

O ladrão de coxinha

Gema_coxinha

O sujeito chegou no Bar da Gema, na Tijuca, e pediu uma coxinha de galinha. Era uma terça-feira, o único dia da semana que a casa serve esse pedaço de frenesi. Só que já não tinha mais. Uns acham que o boteco “não se prepara”. Não é isso. A massa da coxinha do Da Gema é feita no dia. Jamais é congelada. Leva muito leite e pouca farinha. Isso garante o sabor incomparável. Mas é preciso ter muito braço para preparar os quitutes a ponto de atender a todos os pedidos. Nem sempre dá.

O sujeito ficou amuado. Normal. Esperou a semana inteira, mas não beliscou a saborosa. Para não perder a viagem, pediu cerveja e pastéis. Mal sabia do que estava por vir.

É que o Da Gema é daqueles bares frequentados por um público fiel, gente que vai toda semana e costuma ligar antes para reservar… coxinha.

Foi o que aconteceu naquela terça. Um cliente chegou, cumprimentou a Luiza, o Leandro e se sentou, não colado, mas próximo ao sujeito amuado. Dez minutos depois, como naqueles filmes românticos, nos quais a cena segue em câmera lenta e uma moça bonita anda, graciosa, em meio à fumaça, um dos garçons trouxe, numa bandejinha, a tal da coxinha.

Despertou naquele homem os mais diversos sentimentos. “Acabou e agora tem? Como assim?”. Sem encontrar a resposta para as perguntas que surgiram naqueles segundos e sem conseguir conter a fúria que lhe tomara de assalto o sossego, o ex-amuado se levantou, foi na direção do garçom e… “passa pra cááááááá”.

Isso mesmo. O cara, em pleno salão do Da Gema, roubou, na maior mão grande, a coxinha alheia. Com a inigualável nas mãos, ele voltou para a mesinha onde estava. A plateia ficou incrédula. O homem se sentou, mantendo o olhar fixo no garçom, que estava estático, perplexo, sem reação. Depois olhou para o cliente. Olhou para os demais e… “nhac”… saciou a fome de comer a coxinha do Da Gema. Ninguém falou nada.

O que se diz é que foi depois desse episódio que o Leandro e a Luiza resolveram pintar, numa parede do bar, justamente onde o ladrão de coxinha estava sentado, um verso do profeta carioca: “Gentileza gera gentileza”.

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Mês passado, completaram-se dois anos que essa coxinha dá sabor às nossas terças. Valeu, Da Gema!

mar. 21, 2015 - Viagem    Sem comentários

São José do Egito-PE, o berço da poesia

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São José do Egito é uma pequena cidade pernambucana que tem pouco mais de 33 mil habitantes. Ela não está nos roteiros turísticos, mas merece uma visita. Localizada na região de Pajeú, São José do Egito tem as características de todos os municípios da caatinga: ar seco, terra clara, algum verde e um lindo céu azul.

As cidades do sertão podem ser semelhantes, mas só São José do Egito é o Berço Imortal da Poesia. A miúda pernambucana tem seu charme, tem cultura. Por lá, são famosas as rodas de poesia e as noites de forró. Quem mora no entorno, inclusive, na capital, indica.

Mas um aviso: São José do Egito só costuma ter atrações a partir de quinta-feira. A qualquer hora e dia você pode visitar o Beco de Laura (acima), espécie de calçadão, cujas paredes tem desenhos e versos dos artistas da cidade: Dimas Batista, Afonso Pequeno, Manoel Filó e, entre outros, Nenem Patriota. Tem a igreja de São José o monumento ao poeta do sertão (veja abaixo). Mas o bares e a música só a partir de quinta.

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Tudo é muito simples em São José do Egito. Quando estive lá, não sabia onde ficaria. Parei numa farmácia para pedir sugestões. E o caixa:

– Mas você quer gastar muito ou pouco?
– Não sei amigo. Qual o melhor hotel da cidade?
– É o Central. É mais caro, vixi!

Fui até o tal hotel. Fica bem na avenida central da cidade, que deve ter um quilômetro de extensão. Não tinha elevador e a diária custava R$ 100. Fique pensando em qual seria o valor do mais barato?

O comércio da cidade é semelhante ao de um bairro pequeno da Zona Norte carioca. Em São José se come bem pagando bem pouco. Um suco de laranja, por exemplo, custava R$ 2,50 no fim no ano passado. No Rio, sai por R$ 7.

Ah… o bar mais famoso de lá é o do Saddam, que costuma receber os poetas, cancioneiros, forrozeiros e, claro, os bêbados da região.

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Esses versos de Nenen Patriota, no Beco de Laura, me deram de orgulho. Diz lá: “Quem nasceu neste berço encantador tem no sangue os encantos culturais, os costumes, respostas, ideais e perfil de guerreiro trovador”.

Não nasci naquele berço, mas meu avô paterno sim. Daí o orgulho. Por causa dele, corre nas minhas veias o sangue do trovador, vestígios do Berço Imortal da Poesia.

Se vovô estivesse vivo, estaria fazendo hoje 98 anos. Saudade! Saudade de muita coisas, como do tempo em que recorria à memoria dele para conhecer o passado!

mar. 18, 2015 - Opinião    Sem comentários

Kikiquinha passa bem

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A notícia de que a cadela Kikiquinha, 15 anos, estava com artrose e já não podia acompanhar seu dono, Roberto da Silva, 60 anos, nas andanças atrás de papelão provocou uma corrente de solidariedade. Onze dias depois de contar o caso na coluna Ancelmo Gois, no GLOBO, voltei à esquina da Conde de Bonfim com Uruguai, na Tijuca, onde as manifestações de preocupação com o próximo desaguaram. É lá que os dois passam a maior parte do tempo à espera da ajuda alheia.

– Todo mundo veio me mostrar o jornal. Ficou bonitão! Com minha foto e dela, né? Eu vi – disse,
sorridente.
– Mas e os remédios? – quis saber.
– Consegui. Tá aqui, ó. Tem para o mês todo. Ela tá tomando, vai ficar boa – contou, cheio de
esperança.

Muita gente que nunca o viu se prontificou em ajudar, como uns amigos e amigas meus. Um deles, veterinário, abriu seu consultório para Kikiquinha. Mas nem precisou.

Recebemos, inclusive, uma carta (veja abaixo). Uma carta mesmo. Escrita a mão e enviada pelos
Correios. Era de uma senhora, de 77 anos, que queria “fazer a parte dela”. Moradora de São Paulo, a generosa pediu uma conta para depositar a grana do medicamento. Também não precisou.

Roberto e Kikiquinha já tinham sido abraçados. E não receberam apenas remédios. Ganharam mantas e até um travesseirinho novo, sobre o qual Kikiquinha pode repousar a cabecinha durante o sono (repare na foto lá de cima).

carta

Eles não moram naquela calçada, mas num quartinho no bairro, cujo aluguel é pago por uma moradora dali. Passam as noites lá e depois voltam para as ruas. Roberto só consegue trabalhar com algo que exija força física. A cabeça dele, às vezes, parece voar. O sujeito, aparentemente inofensivo, tem ar dócil, talvez por isso cative tanta gente.

– Ô, Roberto. Aqui tem R$ 12. É pra você comprar o almoço. Se já tiver pra hoje, guarda para amanhã. E não vá gastar com aquilo, hein! Você sabe! – disse uma senhorinha.

Fiquei curioso:
– Você disse que não bebe. Mas… usa alguma coisa? Do que ela está falando?

Sem perceber meu preconceito, ele explicou:
– Açaí! Eu compro ali, ó! Mas não posso. Tenho negócio de açúcar no sangue. Semana passada, rapaz, eu tomei e comecei a ver tudo preto, tudo, tudo…

Eu me despedi daquele brasileiro sofrido que está feliz com a recuperação de Kikiquinha. É algo que parece pequeno diante dos problemas que o acompanham. Mas não. É o que tem de mais precioso. Roberto se despediu deixando a sensação de que ganhei um amigo:

– Passa aí mais vezes…

O ser humano não deu errado. Foram só alguns.

mar. 16, 2015 - Opinião    Sem comentários

Valeu a pena lutar pela liberdade

panelaco

As manifestações de 15 de março são legítimas. As pessoas têm o direito, sim, graças à democracia, de ir às ruas e readaptar o “Fora Lula”, o “Fora FHC”. Mas o movimento por impeachment é estéril, com todo o respeito. O grito dos insatisfeitos, caso aumente, pode até se tornar alto, mas será preciso mais do que isso, como foi no “Fora Collor”. Não basta gritar.

Agora, o panelaço é inútil. É pior que inútil, na verdade. É porta ou prova da alienação. Não quero ofender quem quer que seja, ok? O raciocínio é simples: o alvo principal da revolta está ali, falando, explicando ou tentando explicar. Em vez de ouvir para reunir argumentos e criticar depois, as pessoas batem na panela.

Outros preferem desligar as TVs. Aí, eu me pergunto: é contra o governo ou contra as emissoras? Já sei: é contra “tudo o que está aí”. Vazio, né?

No dia 8, a presidente anunciou a sanção da Lei do Feminicídio, que transforma em crime hediondo o assassinato de mulheres em casos de violência doméstica ou outras questões de gênero. Dilma falou também que os efeitos dos ajustes devem durar até o fim deste ano.

A turma da panela não ouviu.

Percebo duas coisas: ódio, que faz as pessoas nem quererem ouvir “gente do outro lado”; e um mar de ignorância política e social, que as engole. Imersas nessas águas, não assistem porque não vão entender. Bater panela é mais fácil. E ainda dá a impressão de que são politizadas.

O discurso de “tô cansado de ouvir”, “nada muda” é de gente que, no fundo, desistiu do país, que não vê ou não quer ver a realidade. Entra na manifestação pelo agito, pela festa, porque não gosta de quem está do outro lado.

Quem se preocupa busca se informar, vencer preconceitos e, principalmente, não reproduzir ódio.

Hoje, a presidente voltou a falar pela TV e, em alguns lugares,… “tá, tá, tá, tá”.

É legítimo também. Cada um faz o que quer da vida. Mas esses abriram mão de ouvir algo importante. Reproduzo aqui:

– Nunca mais no Brasil nós vamos ver pessoas, ao manifestarem sua opinião, seja contra quem quer que seja, inclusive a Presidência da República, sofrerem quaisquer consequências (…) valeu a pena lutar pela liberdade. Valeu a pena lutar pela democracia. Este país está mais forte que nunca.

A política não pode ser um Brasil x Argentina narrado pelo Galvão Bueno. E mais: numa democracia, o rumo do país se muda nas urnas.

 

***

A arte é de Edgar Vasques.

mar. 10, 2015 - Coleguinhas    Sem comentários

Mulheres cabeça

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Vai aqui mais uma história do Lan, o gênio do traço, que completou 90 anos no último 18 de fevereiro.

Em 1952, Ernest Hemingway publicou “O velho e o mar”. Talvez seja esse o livro mais lido dele, obra-isca do Nobel de 1954. Pois bem, foram nas curvas dessas linhas de Hemingway que Lanfranco Rossini encontrou o caminho que precisava. Uma reta, diria. Com fim num romance.

Naquele distante ano de 1952, meses antes de trocar Buenos Aires pelo eixo Rio-São Paulo, o cartunista ainda desenhava nas páginas do jornal argentino “El Mundo”. E nas rodas de conversa, entre o trabalho e os bares, interessou-se por uma bela moça argentina. Pensou, pensou e traçou uma elegante abordagem.

– Eu comprei dois exemplares de “O velho e o mar”. Um é para mim, outro pra você. Vamos comentar o  livro. Quero que você veja o lado literário dele, o estilo. Eu vou fazer a mesma coisa.

A moça gostou, e Lan propôs que lessem a obra em algumas semanas. Cada um no seu canto. Foi a forma de se aproximar da formosa. Vez ou outra, lá ia ele puxar assunto, comentar um trecho do livro, saber se ela já tinha chegado à parte em que Santiago tenta salvar o grande peixe dos tubarões.

Quando a bela terminou a leitura foi contar o feito para o cartunista. E ele:

– Bem, agora vamos ao meu apartamento e vamos discutir tudo isso… – propôs Lan.

Com um sorriso bobo no rosto, um sorriso de menino, ele me disse: “E ela topou”.

Ainda rindo, resumiu o desfecho da trama:

– Hoje em dia a garotada fala sempre: ‘rolou um clima’…

O velho artista, então, suspirou, exclamando na sequência:

– Meu Deus, quanto clima rolou na minha vida!

Essa memória da juventude, fez Lan lembrar “Mulheres”, o samba de Toninho Gerais, sucesso na voz de Martinho da Vila. O ex-boêmio até cantarolou: “Mulheres cabeça e desequilibradas/Mulheres confusas, de guerra e de paz…”

Aquela tarde de fevereiro passado – quando entrevistei Lan – foi de grande valia e aprendizado. Fabio Rossi, autor da foto acima, é testemunha.

ONTEM E HOJE
Bem, entre a história do Lan e os nossos dias há uns 60 anos de distância. Os pessimistas e os que não gostam de ler que se contenham: nem tudo está mudado ou… perdido.  Os confrontos de Hemingway, os universos de Rubem Fonseca, os enredos de Vargas Llosa, a graça de Verissimo ou a magia de Gabriel Garcia Marquez, entre tantos e tantos outros, seguem embalando sensações.

É que as estirpes condenadas ao romance nunca vão se extinguir dessa terra. Ainda bem!

mar. 4, 2015 - Opinião    Sem comentários

O silêncio que vale ouro

calar

Esta pichação estava na parede lateral de um prédio na Av. Maracanã, na Tijuca, no Rio. Os pichadores são porcalhões, mas este deixou uma mensagem que transborda valor. É curta, tem apenas duas frases. Mas o recado é mais profícuo do que muita aula que há por aí. É coisa para refletir.

Eu sou daqueles que tem cuidado com as palavras, cuidado da hora de usá-las. Já aprendi que elas cortam feito navalha. Causam um estrago que nem um milhão delas, ditas depois, são capazes de fechar a ferida. Sempre me surpreendo com relatos de amigos ou amigas que, numa briga, trocam insultos pesados. Como pode? Alguns voltam a se falar, retomam a velha amizade. Perdão existe. Entretanto, outros não conseguem.

Algo semelhante acontece com casais. Quantas coisas ruins são disparadas, feito tiro de metralhadora, quando a cabeça ferve, não é? O tempo passa, mas a vítima não se esquece do que ouviu. Isso acontece quando a palavra fere os ouvidos e, feito espinho, vira semente no coração. Quantas mágoas simplesmente não existiriam se o outro apenas tivesse se calado, se a gente tivesse se calado!

Há os que se orgulham dizendo: “Não levo desaforo pra casa” ou “quem pergunta o que quer, ouve o que não quer”. Em alguns casos, essa filosofia até que vale a pena. Mas nunca valerá quando o outro ou a outra é alguém por quem se tem amizade, simpatia ou amor. Nunca.

A pichação reproduz um provérbio português. Há um outro que gosto muito. Mas é de Salomão, o rei de Israel tido como o homem mais sábio do mundo: “Até o tolo, quando se cala, é tido por sábio”.
Mostra como o silêncio tem valor.

Um outro provérbio de Salomão dá a dimensão do que a fala é capaz: “As palavras do tagarela ferem como espada de dois gumes”. E tem esse também: “A língua tem poder sobre a vida e sobre a morte; os que a usam habilmente serão recompensados”.

São conselhos escritos há séculos, mas poucos os conhecem. E entre os que os conhecem, são poucos os que os tomam como verdade. Só que as histórias que ouvimos todos os dias são provas de que saber se calar é um grande trunfo. Certa vez, um sujeito foi morto após xingar outro no trânsito. Barbárie pura.

A língua é um pedacinho do nosso corpo. Se a gente não consegue vencer a si mesmo, dificilmente vencerá outra coisa.

Trato esses provérbios feito mantra. Sozinho, na minha, repito cada um deles. Na hora que o sangue sobe à cabeça, essas palavras surgem também. Respiro fundo. Vale a pena viver sem a confusão que as palavras podem causar.

Bem, a pichação não está mais lá. Foi removida. Espero que tenha chamado a atenção de outras pessoas. Pois, definitivamente, falar é prata. Calar é ouro.

Tem dias que é necessário perseguir o silêncio.

mar. 1, 2015 - Opinião    Sem comentários

Rio, 450 anos

rio

Há lindas cidades nesse mundo! Eu poderia viver em algumas delas. Em Paris, com certeza! Talvez em Nova York, talvez em Amsterdã ou Brasília. Não sei. Quem sabe em Santiago, Bruxelas ou São Paulo? Mas pelo sol, pelas esquinas, becos e ruelas; pelas tardes no Maracanã, noites da Pedra do Sal ou no Largo de São Francisco da Prainha, manhãs na Floresta da Tijuca; pelas cachoeiras do Horto, beleza do Jardim Botânico, tranquilidade da Reserva e das Paineiras, vista do Cristo e da Auto Estrada Lagoa-Barra, pela mistura de São Conrado; pelos amigos queridos e amigas queridas, pela família, pelos amigos mais que irmãos; pelo som que nasceu nessa cidade e está em todos os cantos; pelo ar que traz vida; pela certeza de que as segundas-feiras aqui são as melhores; pelo Estácio, Madureira, Tijuca, Leme, Vila Isabel, Vila da Penha, Vila Kosmos, Ilha do Governador, Oswaldo Cruz, Ramos, Bangu, Praia Vermelha e Laranjeiras, pelas curvas da Guanabara; pela Cadeg, Praça Quinze, Cinelândia, Aterro do Flamengo, Mercadão e Cobal. Pela Rua do Ouvidor; pelo Sat’s, Momo, Da Gema, Cachambeer, Original do Brás, Luiz, Lamas, Adão, Capela, Adonis, Bar Urca, Pavão, Aurora, Bar do Gil, Bip Bip, Botero; pela história, pelo orgulho, pela onda; pela ofegante epidemia; pelo churrasquinho na esquina, pela conversa na calçada, pela promessa do “vamos marcar”, pelas juras de cada dezembro e fevereiro, que são distintas, mas intensas; pelos morros e pela Vieira Souto; pelo amor à terra… prefiro não.

Rio, eu te amo! Feliz 450 anos!
UA-53194424-1
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