Archive from abril, 2015
abr. 30, 2015 - Feijoada    Sem comentários

A feijoada do Zinho Bier

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Benfica é lugar onde se come muito bem. Seguindo a missão de listar algumas feijoadas na Zona Norte, voltei ao Zinho Bier, neste movimentado bairro, que é cheio de retornos e tem trânsito intenso.

O feijão é bem temperado, e a feijoada segue a regra: costela, calabresa, lombo, carne seca e paio. É acompanhada de couve, farofa, arroz branco, laranja e torresmo. Quem gosta, ainda pode aproveitar a pimenta da casa, cheirosa e saborosa. Coisa fina.

Lá no Zinho Bier, a feijoada é servida às sextas e sábados. A porção da foto acima custa R$ 96. Um dica: ela serve quatro pessoas com tranquilidade.

Quem vai ao Zinho tem duas opções para se acomodar: o salão do segundo andar, que é fechado e com ar-condicionado, ou o do primeiro andar. Este é aberto, não tem ar, mas tem vista para rua, a agitada São Luís Gonzaga.

Reforço isso porque “vista para a rua” é o mínimo que se espera de um bar. É que “vista para a rua” é poesia na Zona Norte. Acompanhada de feijoada, é parte indissolúvel de uma sexta-feira perfeita.

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O Zinho Bier fica na Rua São Luís Gonzaga 2.330, em Benfica, Zona Norte do Rio. Tel.: (21) 3890-1704. O bar abre diariamente às 11h. Feijoada sai às sextas e sábados. E casa serve feijoada branca às quartas.

abr. 29, 2015 - Crônica    Sem comentários

O choro carioca

desabamento do Edifício Liberdade, matou 17 pessoas e deixou 11 desaparecidas.

Amanhã, 27 de janeiro de 2012, completo dez anos de profissão. Sou jornalista, repórter com muito orgulho. Há dez anos, entrei pela primeira vez numa redação de jornal. Seria estagiário. Tem tempo que penso em escrever sobre isso. Já tinha até organizado umas frases. O texto, acredito, ficaria legal. Mas… veio o Liberdade. Eu estava longe da Cinelândia na hora do acidente, mas é inegável: o Liberdade também caiu sobre mim, com o perdão da metáfora.

Quando me preparava para deixar a redação, ouvi a notícia do desabamento. Não quis prestar atenção. Lembro de, em silêncio, comigo mesmo, só ter pedido que não fosse nada grave. Mas era.
Em dez anos, eu acompanhei muita coisa de perto. Perdi as contas dos enterros que cobri. Mas nunca me esqueci do de um menino do Morro dos Macacos, que levou um tiro de fuzil nas costas enquanto jogava bola. No sepultamento, no Caju, quando o caixão mais pobre que já vi se preparava pra entrar numa caixa de cimento, a mãe do menino mandou abri-lo. O tiro que atingiu as costas dele saiu pelo peito e uma macha de sangue na camisa denunciava que até na morte faltou cuidado com o pobre garoto. Em seu último ato diante do filho, a mãe calçou as chuteiras nele. Ele sonhava ser jogador de futebol.

Perdi as contas também dos corpos que vi pelos becos e ruas dessa cidade que tanto amo, dos desabamentos de encostas. Lembro perfeitamente de duas chacinas que cobri. Uma na Zona Oeste do Rio. Era uma família inteira, inclusive, um menino de uns 12 anos. Mortos à faca. A outra foi a do Morro do Estado, em 2005. Cinco jovens mortos a tiros pela PM.

Repórter cria uma casca, sabe? A nítida visão da crueldade do homem altera qualquer um. Acompanhar de perto o que ele é capaz de fazer ou fez, te furta o direito de se surpreender. O mais intrigante é que não acontece só com quem vê de perto.

Pense. Em 11 de maio de 1954, o jornalista Nestor Moreira, do extinto A Noite, envolveu-se numa confusão numa delegacia de Copacabana e levou uma surra de um policial. Morreu 11 dias depois, vítima de uma hemorragia interna. O cortejo dele, acredite, foi na Rio Branco. Os jornais da época contaram que as pessoas levaram velas acesas e demoraram duas horas para passar pela extensa avenida. A cidade chorou e quis dar seu apoio, mostrar seu repúdio. Décadas depois, não se vê mais tamanha manifestação. O carioca criou sua casca. O país também.

Passamos a culpar os políticos, mas nos esquecemos que nós, a sociedade, os elegemos. Culpamos a polícia, mas somos nós que pagamos propina para não ter o carro apreendido por falta de pagamento de imposto. Culpamos os bandidos, mas nós que subimos os morros para dar dinheiro a eles em troca de uma droga qualquer. Somos nós, a sociedade, que fazemos uma obrinha irregular para poupar um dinheirinho e…

De uns tempos para cá, a cidade e o estado do Rio têm sido castigados demais. Num curto espaço de tempo, uma triste sequência de fatos, alguns afiados feito punhal, que cortam nosso coração como se fosse papel. Um misto de culpa dos outros e ajudinha da sociedade. Mas quem sofre mesmo somos nós.

Há dois anos, as chuvas varreram morros e vidas de Angra, Ilha Grande, o do Bumba, em Niterói. Em 2011, a tragédia da Serra. Vimos políticos acusados de incentivarem construções em áreas de risco e mais: de desviarem dinheiro da reconstrução das cidades. Nós os elegemos.
Um jovem entrou numa escola e matou 12 brasileirinhos. Nós vendemos a arma pra ele.
Um bueiro da Light incendiou dois turistas num dos nossos bairros mais famosos. Um restaurante na Praça Tiradentes simplesmente explodiu. Tivemos mais mortes na Serra este ano, mais famílias perderam tudo.

Agora, um edifício de 20 andares cai, derruba outros dois e enterra ali mesmo as sonhos de alguns cariocas. Não perdi nenhum amigo ou parente. Mas chorei. Chorei pelo Rio, pela minha cidade, que mais uma vez se veste de preto. A casca amoleceu.

A cena das pessoas correndo desesperadas pela Avenida 13 de Maio me faz sentir o prédio desabar. Ontem à noite, vendo TV, eu mesmo desmoronei. Sempre associei aquele trecho da cidade ao movimento das pessoas, à correria do dia-a-dia por trabalho, uma vida melhor e até mesmo à calmaria que os mendigos buscam à noite para dormir. Ali depois das 18h, os chopes brilham. Em fevereiro, aquele pedaço do Rio fica colorido, alegre que só. É triste notar o contraste dos tempos. O Rio, cidade predestinada a distribuir alegria, não merece isso!

Com tantos problemas, tem gente que acha que a única saída é o aeroporto. Seria bom se tomassem logo esse caminho. O Rio precisa de gente que o ame e cuide dele. Com tantos problemas, pensei se não era o caso de adiarem o carnaval. O Rio já fez isso antes, quando da morte do Barão do Rio Branco (1912).
Mas não. A vida não para. A cidade também não pode. Tem que manter sua economia aquecida e mais: precisa voltar a sorrir.

Enquanto as pessoas refletem sobre seus erros e tentam ser melhores, corretas, resta pedir socorro. Antes de dormir, todas as noites, agradeço a Deus pelo dia e peço sua misericórdia. É que sempre tento fazer o melhor, só que, por vezes, erro. É como se eu dissesse: “Deus, Deus, eu errei. Sou humano. Não me deixe ser castigado”. Entende o pedido?
Pois bem, ontem, insisti que Ele também tivesse misericórdia do nosso Rio de Janeiro. A Cidade Maravilhosa já sofreu demais e agora veio o Liberdade. Seja qual for a sua fé, tente fazer o mesmo esta noite. Não por mim, pelo Rio.

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Texto publicado no Facebook em 26 de janeiro de 2012.

abr. 28, 2015 - Opinião    Sem comentários

Nome de anjo

Ele é artista. Não confunda, por favor, com “celebridade”, com aspas mesmo. É artista no sentido básico: faz arte. Aliás, domina várias. Só que são artes que não passam na TV. Uma delas é a de cativar. Falta tanto a tanta gente famosa, né? A ele não. Você está lá trabalhando e ele passa: “Cigarinn? Só um. Rapidinho. Bora, bora?”. E você responde que não dá, diz que está ocupado. Ele usa a arte. “Vamos lá, tenho algo importante para dizer. Você está tão bonito hoje, chega aí”. O pior é que a gente sabe que não é nada urgente, mas o segue. E quando desanda a contar história? Aí vira “talk show”. E ele cativa o público, prende a atenção de todos. 
Desfila frases de efeito e doses de humor. Outra arte. É menino Zona Sul e cresceu atento ao nosso contraste social. Ligado nas diferenças e coincidências do pequeno espaço que existe entre o morro e a praia. Isso o diferencia, tem um jeito honesto de olhar a vida. Outra arte é a análise. Repara muita das vezes com precisão cirúrgica e enxerga o que a maioria não vê. Descreve o sujeito de ponta a ponta. Emite sua opnião, quase sentença. É um dom, arte pura. E as imitações que ele faz? Bem, se eu for escrever sobre isso, passaria o dia. 
Uma outra é a arte do palavrão. Ele sabe todos e, melhor, a hora de usá-los. É capaz de soltar o mais cabeludo deles diante de uma candidata à freira e não receber um olhar de reprovação. Pelo contrário, ele colhe sorrisos. Eu poderia defini-lo completando a frase “Ele é…” com um palavrão, um palavrãozinho de quatro letras. Mas esse cara tem um lado tão brilhante, um rico acervo de palavras, que não seria justo. Acho que, na verdade, nem é necessário uma frase. Preciso apenas de uma palavra para definir esse sujeito boa-praça: carioca. Só quem já foi aos quatro cantos desse país ou conhece bem quem vive no “além Rio”, sabe que “carioca” é muito mais adjetivo que gentílico. 
Ah… ele tem nome de anjo. Mas se você é daqueles que alimentam o “raciocínio antagonista”, ou seja: “acha que se algo não é do bem, logo é do mal”, digo que não deixei nas entrelinhas que ele só tem nome de anjo e o resto de… capetinha. 
Não é isso. Se no sentido figurado você imaginar que capetinha é aquele que está sempre ao pé do ouvido chamando pra “gargalhada”, até que a metáfora caberia. Mas prefiro não usá-la. É que Gabriel Mascarenhas tem tanto amor no coração que jamais o deixariam entrar no inferno.

 

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Texto publicado no Facebook em 6 de janeiro de 2012.

abr. 26, 2015 - Crônica    Sem comentários

A pureza da resposta das crianças

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Ricardo estava apreensivo. É que seu filho, Juninho, em poucos dias completaria oito anos. Ricardo queria dar ao garoto um grande presente, mas não sabia exatamente o quê. Tinha que ser algo que deixasse o menino radiante. Aquela criança era a maior fonte de alegria dele e da mulher, Carla. E os dois, juntos, passaram noites e mais noites pensando no tal presente.

– Bola nem pensar. Ele já tem um monte. Da nike, da adidas, todas..
– É. E se a gente desse um iPhone 6? Tem coleguinha no colégio dele que tem…
– Não sei – disse Carla, pensativa.
– Pensei num helicópetro com controle remoto ou um daqueles carrinhos elétricos que ele pode dirigir…
– E se fosse algo do Ben 10?
– Uma bicileta nova. É bom que incentiva o esporte. E tem bicicleta do Ben 10!
– Não sei. Nada me parece bom!

O casal, aflito, perdeu mais uma noite pensando. Carla entrou na pilha de Ricardo. É que ele não tivera muito na infância e adolescência. Vivia dizendo que daria ao seu miúdo tudo o que ele não pode ter, que nunca nada faltaria ao menino. E, com determinação e esforço, cumpria suas palavras.

Eles decidiram que, no fim de semana, iriam numa dessas lojas de brinquedos para ver algum presente. Mas Carla teve outra ideia:
– Por que a gente não pergunta ao Juninho o que ele quer?
– E se ele pedir um iPad?
– A gente compra o melhor que tiver, amor…

No final dia seguinte, quando Ricardo chegou do trabalho, os dois tocaram no assunto com o menino. Fizeram com jeito, escondendo a ansiedade pela resposta.
– Ah, filho… seu aniversário está chegando!
– Eu sei, papai. É mês que vem, não é? Eu sei, eu seeeeeei.
– Isso, filhão! E… o que você quer ganhar? Diz pro papai!

Juninho estava jogando videogame. Parou e ficou pensando. Coçou a cabeça, riu, olhou para o pais. Ricardo e Carla não tiraram os olhos do garoto nem por um instante.

Ele se levantou do sofá, deu uma corridinha em volta da mesa da sala e voltou a encarar os pais.
– Já sei. Quero duas coisas… Duas, duas, duas!!! – disse, fazendo o número dois com uma das mãos.

A mãe abriu um sorrisão. O pai fechou os olhos. “Ele vai querer um outro iPhone. Todo mundo na escola já tem o 6. Vai ser bom, pois ele vai ter mais tecnologia de ponta nas mãos, para se desenvolver”, pensou.

E Juninho, simples como toda criança, contou o que mais queria:

– Um bolo de brigadeiro e um abraço quentinho!

Ricardo e Carla sofrem de dor do crescimento.

abr. 24, 2015 - Feijoada    Sem comentários

No Pavão, uma feijoada… com tudo dentro

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O Bar do Pavão, na Praça Xavier de Brito, na Tijuca, serve uma das mais completas feijoadas do Rio. Não. É melhor dizer “a mais exagerada”, no bom sentido, claro. O Pavão – também o nome do proprietário e cozinheiro da casa – tem uma superfeijoada, que é servida apenas aos sábados. O quilo custa R$ 55,90.

Ela tem tudo o que as outras oferecem: calabresa, paio, costela, lombo, carne seca etc. E tem carnes que nunca vi em outras panelas de feijão. O Pavão incrementa a receita com alcatra, chouriço italiano, picanha suína e paio português.

São mais de 16 tipos de linguiça. E tem uma com pimenta que é saborosa demais, a minha preferida.

O Bar do Pavão fica de esquina, e as mesas e cadeiras se espalham pela calçada, um clima que todo boteco deveria ter. Na caixa, dona Jô, mulher do Pavão, fecha as contas e sempre te pergunta se você precisa de mais alguma coisa. Trata-se de um bar familiar.

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Por fim, a arborizada Xavier de Brito, ao fundo, faz deste pedaço da Zona Norte carioca um agradável refúgio, seja para quem quer comer até cair em sono profundo ou para os que buscam sossego e ar fresco entre uma tulipa e outra.

Aliás, o Mário André, músico da área, cita a praça num samba que fez para o bairro. Diz: “Domingo eu vou lá pra Xavier de Brito/ Comer carne de palito/ E andar de pangaré/ Tijuca é boa ou não é/ Tijuca é boa ou não é…”

O Bar do Pavão fica na Praça Comandante Xavier de Brito 53, na Tijuca. A feijoada é servida somente aos sábados, entre 12h e 17h. Tel.: (21) 2571-8841.

abr. 17, 2015 - Feijoada    Sem comentários

A feijoada do Dona Mena (Cadeg)

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Em busca das feijoadas da Zona Norte, fiz a primeira parada no Dona Mena, na Cadeg, o mercado municipal do Rio, em Benfica. O restaurante, do chef Marcelo Barcellos, abriu em março. Está novinho em folha.

O Dona Mena é muito bem decorado, tem ar-condicionado e oferece mais conforto do que boa parte dos ótimos restaurantes da Cadeg. Lá, o cliente pode comer na “calçada” (foto abaixo), no salão ou no mezanino.

A feijoada, veja só, é de feijão vermelho, que é só um pouquinho mais claro que o preto. A apresentação do prato é bem legal, como mostra a foto.

Na panela vermelha, a feijoada é servida com linguiça mineira, calabresa, bacon nobre de pernil defumado, costelinha de porco defumada e carne seca. E os acompanhamentos são os tradicionais: arroz, farofa, couve e laranja.

Custa R$ 45. A porção da feijoada serve duas pessoas. Mas, talvez, os acompanhamentos não sejam suficientes. Uma pessoa come bem e sai de lá rolando.

Um detalhe: a feijoadinha de feijão vermelho é servida todos os dias.

O Dona Mena fica na Rua 5, lojas 1 e 3, na Cadeg (Rua Capitão Felix, 110, Benfica). O restaurante abre às 12h, de segunda a domingo. Tel.: (21) 3860-1626.

 

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abr. 16, 2015 - Feijoada    Sem comentários

As feijoadas da Zona Norte carioca

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Dia destes, cheio de vontade de comer uma feijoada, busquei umas dicas na internet. Queria variar o balcão, sabe?, sem ter que ir para muito longe de casa. Mas, para a minha surpresa, só encontrei nas listas “das melhores feijoadas do Rio” restaurantes da Zona Sul do Rio, da Barra e do Centro. Verdade seja dita, em algumas listas, a ZN até foi citada, mas quando incluíam o feijão das escolas de samba. Só que aí é evento de fim de semana.

Ora, como pode? A Zona Norte carioca, esconderijo de temperos e refúgio dos hedonistas do paladar, é morada permanente desse sabor.

Pois bem, comecei, há duas semanas, uma incursão por bares e restaurantes da região. A partir de amanhã vou temperar esse blog com dicas de feijoadas pela Zona Norte. Criei a categoria Feijoada (lá em cima, ao lado da data, viu?), o que facilitará a busca, quando a lista crescer.

Não será um ranking, apenas algumas dicas. Se alguém tiver sugestões, pode mandar para o danielbrunet08@gmail.com

Sexta é dia de feijão!

abr. 15, 2015 - Música    Sem comentários

O bêbado e a equilibrista

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“O bêbado e a equilibrista” é um clássico da MPB. Todo mundo sabe. Mas lá nas esquinas da Tijuca, na Zona Norte do Rio, tem gente que costuma dizer que essa é a maior música da MPB já escrita na… Tijuca. Não é coisa de bairrista. É verdade mesmo.

Lembrei disso por causa da nota que saiu, dia 9, na coluna Ancelmo Gois, no GLOBO (abaixo). A notícia contou que o Bar do Momo disputa o “Comida di Buteco” com o sanduíche “O bêbado e a equilibrista”, uma homenagem a Aldir Blanc e João Bosco, autores deste clássico da nossa música.

nota

Aldir é quase vizinho do boteco. E foi no antigo apartamento dele, no finalzinho da Av. Maracanã, que escreveu os lindos versos. Começa assim, você sabe: “Caía a tarde feito um viaduto/E um bêbado trajando luto/Me lembrou Carlitos/ A lua tal qual a dona do bordel/Pedia a cada estrela fria/Um brilho de aluguel…”

Aliás, foi o compositor que fez a imprensa descobrir o boteco tijucano, anos e anos atrás. Vem daí tanto carinho, coisa de décadas.

Dia destes, pedi que ele contasse a história da música. Lá vai:

– João disse que tinha uma “bomba”, um samba em homenagem ao Chaplin, que ele adorava. Eu fui ouvir o samba na casa dele e voltei encucado, achando que, para a letra, faltava alguma coisa. Me veio a ideia de Carlitos como um marginal, um outsider e perguntei ao João o que ele achava da letra englobar os exilados como figuras chaplinianas. Ele topou de cara e gol.

Aldir explica ainda:

– Nasceu rapidinho, em dias. Como costuma acontecer com as “grandes”, a letra atropelava minha mente e nem dava tempo de correr pro caderno.

Ali, num apartamento perto do Bar do Momo, “O bêbado e a equilibrista” ganhou letra e, de lá, saiu Brasil a fora dançando na corda bamba.

O SUCESSO…
“O bêbado e a equilibrista”, a música, foi considerada, no fim dos anos 1970, um hino da luta pela democracia, pela abertura do país, pela volta dos exilados.

Ela foi feita logo depois do Natal de 1977, quando Charlie Chaplin morreu. João Bosco queria homenagear o artista inglês, de quem é fã. Ele, então, compôs a melodia e a entregou para o Aldir.

O mestre dos versos contundentes e rascantes só se lembra de ter feito a letra rapidamente. Não se recorda se foi ainda no fim de 1977 ou no início de 1978. A canção foi lançada em 1979. João Bosco a registrou em seu disco “Linha de passe”, e Elis Regina, no “Elis, essa mulher”. E foi a magistral interpretação da cantora que colocou a música na história. Isso todo mundo sabe. Assim como a parte da “volta do irmão do Henfil”.

Na foto lá do alto, Aldir aparece com o pai, Ceceu, na porta do botequim, em setembro de 2006. A foto é de Salvador Scofano/EXTRA.

abr. 7, 2015 - Opinião    Sem comentários

Queria mais um

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Perder alguém querido te faz ter a noção exata do que é a vida. Um suspiro. Noção essa que nos é furtada pela velocidade do cotidiano. Só parando é que dá para pensar. É quando fica também mais fácil perceber que tem muita gente perdendo tempo com o inútil, cultivando inimizades e desamor! Pra quê?, se tudo acaba um dia.
Voltei a pensar nisso ao me despedir de uma mulher que viveu à frente de seu tempo: Iza. Veja só: desde nova era financeiramente resolvida. Não dependeu de marido, pois nunca teve um. Tornou-se assim por si só, pela força de seus estudos, de seu trabalho. Não teve filhos também. Rompeu com a lógica dominante, sabe? E foi muito feliz. A alegria dela eram os amigos, irmãos, sobrinhos, sobrinhos-netos e a boemia. Também foi feliz com o Flamengo, as telenovelas e a música brasileira.

Tia Iza morreu ontem. O pulmão fraquejou. Nem dá pra acreditar. Mas não escrevo para despertar dó. Derramo aqui umas linhas apenas para contar algo que aprendi com ela: generosidade.
Ela tinha uma casa em Arraial do Cabo e adorava vê-la cheia de gente. Levei muitos dos meus amigos para lá. Quantos verões! Quantas festas! Quanto riso, quanta alegria!

Tia Iza recebia todo mundo muito bem. Avisava que talvez faltasse conforto, mas que a porta estava aberta. Dormíamos na sala, sobre colchonetes, de qualquer jeito. De manhã, tinha café da manhã à mesa. Comíamos e corríamos para a praia (como a Grande, na foto). Na volta, ela surgia com uma infalível provocação:
– Tem carne e cerveja gelada no isopor…

Assim começava outra festa. E ela não pedia um real para rachar a conta. Tia Iza recebia até amigos dos familiares, amigos do amigos, gente que nunca tinha visto. Não fazia qualquer distinção. Era a maior festa. E era sua recompensa: ver todo mundo feliz.

Além de boas lembranças, fica a lição de que semente de generosidade gera flor de alegria. No sepultamento, hoje, muitos do que com ela se alegraram foram dar o último adeus. Vi um cortejo de pessoas gratas, agradecidas e já cheias de saudade.
Que sentimento vão lhe oferecer na hora derradeira?

O adeus de hoje foi precoce. Queríamos tanto festejar os 70 anos dela esse ano. Ainda tinha tanta coisa para acontecer. Mas não deu. Foi-se num suspiro, breve como o piscar dos olhos.
Vou sentir saudade de quando me ligava após uma vitória do Flamengo:
– Meu lindo, ganhamos mais uma. Tô aqui no bar e lembrei de você.

Mas talvez sinta mais falta do abraço dela. Tia Iza viveu acima do peso, praticamente sem regras, e era bom abraçar aquela fofura de mulher. Tinha um abraço acolhedor que nunca deixaram meus braços vazios. E maior do que a sensação física era o sentimento desnudado no atrito. Coisa de quem ama, coisa de quem não vê só com os olhos. Coisa que fica pra sempre.

Aquele abraço generoso é sua síntese. Queria mais um.

abr. 5, 2015 - Opinião    Sem comentários

A Páscoa de Adi

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Bastou-me ver a foto, ler o título para começar a torcer: “É só mais uma das mentiras da internet”. Só que não era. De fato, a pequena Adi Hudea, de quatro aninhos, confundiu a câmera do fotógrafo turco Osman Sağırlı com uma arma e se rendeu.

A BBC, o canal inglês, confirmou a história. O clique foi feito em dezembro de 2014, no campo de refugiados Atmeh, na Síria.

A julgar pelo que leio e assisto sobre o país, as crianças de lá conhecem mais o medo do que qualquer outra coisa (experimente buscar imagens no Google com as palavras “criança” e “síria”).

A foto de Adi não sai da cabeça. Apesar de toda brutalidade das favelas e ruas do Brasil, nossas crianças não confundem câmeras com armas, embora também morram com tiros de fuzil. Aqui, o último caso de que temos notícia é o do Eduardo. Morava no Complexo do Alemão e só tinha dez anos. O que será pior?

A Síria não é como o Brasil. Lá, sim, se vive ditadura. E, por causa dela, uma sangrenta guerra civil. Aqui, uma democracia, até há paz, uns mais que outros. Às vezes, ela fica ameaçada, às vezes some. Mas, naquele país, a paz parece tão distante quanto o horizonte. Lá é pior.

Gente que reclama de tudo, muitas das vezes sem motivo, deveria ver a foto de Adi, ouvir o lamento da mãe do Eduardo. Precisamos enxergar os problemas exatamente do tamanho que são. Assim será mais fácil valorizar o que temos em mãos, todos os dias. Com que será que Adi brinca? Eduardo não brinca mais. Aqui é pior.

A Páscoa, a original, é a festa judia que comemora a libertação do povo de Israel do Egito, que escravizou descendentes de Abraão por mais de 400 anos. Foi há uns 3,5 mil anos. Hoje, a política, seja a do ditador Bashar Al-Assad ou a internacional, deixa dúvidas se a vizinha de Israel um dia terá sua Páscoa. O Complexo do Alemão também precisa de uma, já que a escravidão voltou.

A morte do Eduardo é duro golpe na esperança. Mas não podemos nos render, Adi! Isso seria o pior.

UA-53194424-1
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