Archive from maio, 2015
maio 30, 2015 - Música    Sem comentários

Samba do Trabalhador: dez anos depois

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O ano é 2065. O Rio de Janeiro está completando 500 anos, e todos os jornais, claro, publicam matérias e mais matérias sobre a data. Um deles escreveu sobre os grandes eventos do Rio, e aquelas linhas  alimentaram a conversa de dois senhores que assistiam à vida passar, sentados num banco da Praça Saens Peña, na Tijuca.

– Olha aqui! Essa matéria aqui está falando do Samba do Trabalhador!
– É mesmo? Passa pra cá.
– Você lembra como tudo começou?
– Claro. Foi em 2005, né?
– Xi… muito tempo. Sessenta anos, mermão!
– Lembro bem. No início foram umas 40 pessoas, só bamba de primeira…
– Moacyr, Toninho Geraes, Luciano Macedo, Marquinhos de Oswaldo Cruz, Tantinho da Mangueira, Bandeira Brasil, Luiz Carlos da Vila, Ratinho, Camunguelo. A lista é grande!!!
– Que timaço! E era de graça. Só quando passou a encher é que começaram a cobrar uma merreca de entrada.
– Dá pra imaginar? A gente pagava R$ 10, R$ 15 pra ouvir o Moa, o Gabriel Cavalcante, o Abel, aquele violão bonito do Daniel Neves…
– E a rapaziada da percussão? Júnior de Oliveira, Luiz Augusto, Nilson Visual…
– E teve aquela turma que chegou depois: Mingo Silva, Alvaro Santos. Pandeiraço inesquecível!
– E o Alexandre Nunes, sambista de primeira, com aquela voz rouca e rara.
– Fora as canjas! Lembro bem de quando o Éfson ia lá direto, e o Denny de Lima também!
– Po… Bira Presidente, Ubirany, Sereno, Luiza Dionizio, Zezé Motta… Ah, e a Teresa Cristina, sempre maravilhosa!
– Quinze reais, mermão!! Dá pra acreditar? E tudo isso pertinho de casa.
– O Samba do Trabalhador mudou o sentido da segunda-feira e salvou o Renascença. Sucesso fulminante!
– E aquelas moças formosas em volta da roda, cantando junto…
– Coisa linda, né? Parece que foi ontem.
– É, mas lá se vão 60 anos!
– Você lembra do dia em que o Aldir Blanc e o João Bosco foram lá?
– Claro. Foi logo na terceira segunda. Depois disso é que virou moda.
– “Caíííííía a tarde feito um viaduto/ E um bêbado trajando luto…”
– Eita saudade!
– Segundas sem fim. Muitos amores, muita música boa…
– E os amigos, né?
– A rapaziada fechava junto.
– É! Quem não conseguia chegar a tempo, ia pro Momo depois…
– A segunda entrava pela terça-feira.
– Aaaaaiiiiiiii!
– Aquele, sim, era tempo bom de viver.

Hoje, exatamente hoje, o Samba do Trabalhador completa dez anos, e o valor da entrada continua sendo R$ 15. Moa continua dividindo a mesa com os craques Daniel Neves, Alexandre Nunes, Gabriel Cavalcante, Alvaro Santos, Luiz Augusto, Nilson Visual, Júnior de Oliveira e Mingo Silva.

A história ainda está sendo escrita. A cada segunda-feira um novo capítulo deita sobre páginas em branco na memória de quem toca, canta ou apenas entra no quintal do Rena para aplaudir.

Ao mais importante movimento cultural carioca surgido nos anos 2000, eu desejo vida longa!

Parabéns, Samba do Trabalhador! Depois de amanhã tem mais… dez anos depois!

***

A foto acima foi feita, por Candido Spinelli, no primeiro dia da roda, em 30 de maio de 2015. Da esquerda para a direita, à mesa, estão Toninho Geraes, Marquinhos de Oswaldo Cruz e Moacyr Luz.

maio 29, 2015 - Música, Coleguinhas    Sem comentários

Os 80 anos de João Máximo

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A paixão pelo futebol fez o friburguense João Máximo trocar a carreira de dentista pela de jornalista. Ao entrar na Tribuna da Imprensa, em 1961, quando tinha 25 anos, Máximo nem imaginava, mas sua vida mudaria completamente. Além de jornalista esportivo, tornou-se pesquisador, crítico musical e escritor.

Hoje, João Máximo completa 80 anos (a foto acima é da festa surpresa que fizemos para ele, ontem, no GLOBO), e este blog abre alas para contar um pouco sobre o coautor de “Noel Rosa, uma biografia”. O livro foi escrito com Carlos Didier e publicado em 1990, pela UnB. Mas por causa de um divergência com as herdeiras do Poeta da Vila, só teve uma edição, o que o tornou raro e ainda mais especial. Para se ter uma ideia, uma exemplar chega a custar R$ 700 em alguns sebos.

Foi o primo Zuenir Ventura, jornalista e hoje membro da ABL, que o incentivou a trabalhar na Tribuna da Imprensa.

– Comecei a falar com ele sobre futebol, criticando as páginas esportivas, disse que ninguém sabia nada. Aí ele me disse: “por que você não vai escrever lá na Tribuna?”. Eu fui e muito rapidamente aprendi que não sabia nada de jornalismo, de escrever e de coisa nenhuma. Mas me apaixonei pela atividade de jornalista – conta Máximo.

A CARREIRA
Entre 1961 e 1963, João chegou a ter três empregos ao mesmo tempo “Tribuna da Imprensa”, “Jornal dos Sports” e “Rádio Continental”, para a qual escrevia programas de esporte.

Em seguida passou por “Jornal do Brasil” (1963-1969), “Correio da Manhã” (1969-1971) – “Para o Correio, eu levei uma equipe de jovens do JB: Fernando Calazans, Márcio Guedes, Roberto Porto, José Trajano… Era tudo garoto” -, Grupo Manchete/Bloch (1971-1976), “Jornal do Brasil” (1976-1992), “O GLOBO” (1992-1993) e “Folha de São Paulo” (1993-1994). Após a Copa do Mundo de 1994, João Máximo retornou ao “O GLOBO”, onde está até hoje.

Nesse tempo, esteve em seis Copas do Mundo: 1966, na Inglaterra; 1970, no México; 1982, na Espanha; 1994, nos EUA; 1998, na França; e 2014, no Brasil.

A MÚSICA
A paixão maior é por esportes, mas João tem os pés na música também.

– Eu costumava dizer que de futebol eu entendo e de música eu gosto. Estabelecendo a diferença que eu não sou um musicólogo. Sou um apaixonado por música.

 

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Dentre os cerca de dez livros que ele escreveu, destaco a biografia de Noel. No vídeo abaixo, João fala sobre Josefina Teles, a Fina, musa inspiradora de Noel Rosa na música “Três apitos”. É aquela que diz: “Quando o apito/ da fábrica de tecidos/ vem ferir os meus ouvidos/ eu me lembro de você…”

A tal fábrica (acima) é hoje uma filial supermercado Extra, na Av. Maxwell, em Vila Isabel/Andaraí.

As relações do poeta com Lindaura, com quem se casou, e com Ceci, a Dama do Caberé, são conhecidas. Aqui, Máximo fala um pouco sobre a Fina, que também inspirou Noel a compor “Riso de criança”. Um trecho: “É a última homenagem/ Que eu vou fazer a você/ seu riso de criança/ que me enganou/ está num retratinho/ que eu guardo e não dou…”

– Marcou mais ou menos ele. Não teve a dimensão da paixão pela Ceci. Mas ele gostou muito dessa menina…

Viva Noel! Viva João! Viva o amor!

 

 

maio 28, 2015 - Feijoada    Sem comentários

Gato Preto: uma feijoada no Grajaú

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O Botequim Gato Preto fica no Grajaú, na Zona Norte carioca, claro, e serve feijoada de sexta a domingo. Esta é diferente das outras quatro que já listei aqui.

É que a feijoada do Gato Preto tem pouco tempero, na minha opinião. O sabor dela se assemelha àquelas feitas em grandes empresas, sabe?, que não são carregadas de tempero para que o maior número possível de funcionários fique satisfeito.

E, de fato, tem muita gente que prefere assim. A porção da feijoada custa R$ 62,90, para duas pessoas. Mas sobra comida. Três pessoas comeriam essa feijoada numa boa.

A porção que comi veio com apenas três fatias de calabresa. Uma pena! Mas tinha fartura de carne seca e lombo, além de pedaços de costela, pé e rabinho de porco. O prato é acompanhado por arroz, farofa, couve, torresmo e laranja.

O bar tem ambiente agradável e bem decorado.

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A Botequim Gato Preto fica na Rua José Vicente 60, esquina com Rua Nossa Senhora de Lourdes. Tel.: 2577-3634 / 2577-3821.

maio 13, 2015 - Viagem    Sem comentários

Uma feira e muitos queijos em Amsterdã

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Erra e erra muito quem acha que Amsterdã, a capital da Holanda, é apenas maconha ou a terra de corpos que se exibem em vitrines. Amsterdã é muito mais do que isso. Um grande exemplo é a Albert Cuyp Market, uma feira ao ar livre na Albert Cuypstraat, no bairro De Pijp, criada em 1905. Quem gosta de ir ao mercado ou na feira vai adorar esse lugar.
Ela funciona de segunda a sábado, das 9h30min até umas 17h. Mas se chover, nem vá. E pode ser que, no inverno, por causa do frio, ela termine mais cedo. Para chegar lá é fácil. É só pegar o VLT (veículos leve sobre trilhos), que lá eles chamam de Tram. Os de número 16 e 24, saindo da Centraal Station, que fica no centro de Amsterdã, passam pertinho. Basta saltar na Ruysdaelstraat, atravessar o canal e andar um pouquinho.
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A Rua Albert Cuyp (straat = rua em holandês) é comprida, e a feira se estende por cerca de um quilômetro. Nela, você encontra de tudo: flores, souvenir, roupas, sapatos, bolsas, temperos, verduras, peixes, frutas e, claro, comida. Como em quase toda Amsterdã, a Albert Cuyp é cercada por prédios em tom avermelhado, uma marca da cidade. É lindo!
As barracas de chocolate são uma grande atração. Há variados sabores, combinações e formatos (uns safadinhos, inclusive).
Pode-se comprar suco de laranja (copo de 300 ml) por um euro e experimentar as delícias daquela terra pagando bem pouco. A Albert Cuyp Market é conhecido pelos preços mais em conta.
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As barraquinhas de frios e embutidos (salame, presunto, salsicha etc) são tentadoras, assim como as de queijos, acepipe que gosto muito. Aliás, o cozinheiro de mão cheia Cezar Cavaliere me aconselhou a não comparar os queijos da França, onde ele estudou, com os da Holanda. Pois bem, não farei isso. Até porque não provei todos, e gosto é pessoal demais.
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Porém, deixo aqui algumas linhas. Os holandeses são um dos maiores exportadores de queijo do mundo, sabem muito bem fazer essa iguaria. Além de oferecerem aqueles clássicos, como Edam, Gouda e Maasdammer, também têm queijos com ervas (coisa que a gente vê por aqui), pimenta, alho, entre outros sabores. Tem queijo defumado defumado e outros tipos raramente vistos neste lado do oceano.
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É interessante ver que uns têm uma casca dura, mas são supermacios por dentro. Tem queijo feito com leite de cabra, de vaca, de ovelha. Não à toa, a Holanda também é conhecida como Terra do Queijo. Lá na feira, eles são vendidos em pedaços (por peso) ou inteiros. Uns em formato de bola ou redondos.
Bem, paladar é particular. Um queijo que gostei pode parecer horrível para você. O que vale a pena mesmo é ir lá, passar nas barraquinhas, comprar pedacinhos de vários queijos e provar enquanto se caminha pela feira.
Saúde e paz!
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maio 7, 2015 - Feijoada    Sem comentários

A feijoada do Bar do Momo

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O Bar do Momo, na Tijuca, serve a feijoada que tem o melhor custo-benefício da região. A saborosa porção sai por R$ 18 e é na medida: tem calabresa, costela, carne seca e lombo, sendo acompanhada por couve, arroz e farofa.

O legal de almoçar no Momo é encontrar um bar bem diferente do que ele é depois das 17h. Na parte da manhã, Tonhão e a filha, Lorena Laffargue, dão as cartas. O Toninho, filho mais velho do Tonhão e que anda inventando um petisco melhor do que o outro, só pega na labuta depois das 16h.

O clima no Momo é bastante agradável. As cadeiras e mesas se espalham pela calçada da Rua General Espirito Santo Cardoso, de onde se pode ver o movimento da Rua Uruguai, logo na esquina. E a turma da velha guarda do botequim está sempre por lá nesse horário, misturando-se a quem trabalha por perto e almoça lá e à clientela fiel “do turno da noite” que não dispensa o tempero do Tonhão.

Para os mais famintos, o bolinho de arroz é sempre uma boa opção de entrada.

A feijoada é servida somente às sextas. E uma dica: é preciso acelerar a cadência para comer a iguaria. É que depois das 14h30m é difícil encontrar feijão por lá.

No desfile de sabores e temperos, Momo também é rei!

Ai, que fome!

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O Bar do Momo fica na Rua General Espirito Santo Cardoso 50, na Tijuca – Tel.: 2570-9389. O boteco abre às 6h da manhã.

maio 4, 2015 - Crônica    Sem comentários

Qual o tamanho do teu problema?

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Adalberto nunca foi ranzinza, mas naquela semana estava azedo. Tem momentos em que a vida parece girar e parar de cabeça para baixo. Uns sofrem mais que outros. Uns perdem a fé. E, às vezes, por tão pouco.

Aconteceu que Adalberto absorveu os golpes do acaso e sentiu que precisava desabafar. Foi com o primeiro que encontrou: um velho conhecido que há tempos não via. Esbarraram-se por acaso, caminhando pelas ruas do Centro da cidade.

Depois de uns minutos de papo, falando amenidades, Adalberto começou:

– Cara, essa vida não é fácil. Só essa semana chegaram três multas lá em casa.
– Três?
– É! É essa indústria da multa, sabe? Não aguento mais isso!
– Sei como é…

E Adalberto continuou com sua metralhadora de reclamações. Contou que estava gastando muito dinheiro com remédios para o cachorro, que uma vizinha ruim de roda batera na traseira de seu carro ao dar ré e que na viagem que acabara de fazer teve de esperar oito horas por uma conexão.

O ouvinte ficou lá, parado, prestando atenção. Taciturno, apenas balançava a cabeça. Quando Adalberto terminou de falar, o homem lhe fez um carinho no rosto, dando-lhe uns tapinhas bem leves e vagarosos em uma das bochechas, como aqueles que um pai dá no filho para dizer em seguida: “Bom garoto”.

Adalberto riu do gesto. Considerou o ato de extrema e inesperada solidariedade. E o homem abriu a alma:

– Perdi esposa e filho naquele acidente de avião há uns meses, sabe?…

Adalberto sofre de egoísmo.

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