Archive from junho, 2015
jun. 17, 2015 - Crônica, Opinião    Sem comentários

Chega de desamor ao próximo

pedra

Numa dessas lindas tardes de sol, Fernandinho conversava com dois amigos sobre o “abuso” que uma certa menina andava cometendo.

– Ela passa todo dia aqui vestida de branco, com aqueles colares – disparou.
– Mas ela vai queimar no inferno – disse Augusto.
– Só que antes tem que sofrer aqui… – emendou Horácio.

O trio estava sentando sobre um banco da praça e tramava um ataque. Eram frequentadores de uma religião diferente da daquela menina e estavam empolgados com a trama. Nem perceberam que um senhorzinho, bem vestido, estava ao lado ouvindo tudo.

– Rapazes! – disse o velho, com calma, mas chamando a atenção do grupo.
– Oi, senhor. Tudo bem?
– Tudo. Percebi que vocês são religiosos…
– É. Somos…
– Posso contar uma história? – perguntou o senhorzinho.
– Conta aí… – disse Horácio, sem muito ânimo.
– Essa história está no livro de Lucas, entre os versículos 51 e 56 do capítulo 9. Vocês conhecem?

Os três se olharam, ficaram sem graça, mas Fernandinho logo desfez o embaraço:
– Claro. Mas conta aí. Afinal, o senhor quer fazer perguntas ou contar uma história? – disse, arrancando gargalhadas dos amigos.

O velho riu moderadamente e começou a falar.

– Diz lá que Jesus estava a caminho de Jerusalém e passou por Samaria, um pedaço da Cisjordânia de hoje. Acontece que judeus e samaritanos não se davam bem por causa da diferença de seus costumes e práticas religiosas. Rapazes, era uma rivalidade muito maior do que a criada entre brasileiros e argentinos, paulistas e cariocas, vocês devem saber!
– Sim, e daí? – perguntou Augusto, enquanto olhava num aplicativo da Bíblia, em seu smartphone, se a história estava lá mesmo.

O senhorzinho, paciente, continuou:

– Pois bem. Jesus pediu que mensageiros pedissem abrigo numa aldeia de samaritanos. Mas os samaritanos negaram ajuda por desconfiarem de que eles eram judeus e estavam indo para Jerusalém.
– Sempre fazem isso com Jesus – esbravejou Fernandinho.
– E vocês sabem o que João e Tiago, os apóstolos, falaram quando souberam do ‘não’ dos samaritanos?

Os três ficaram mudos, e o velho seguiu a história:
– Eles perguntaram: “Jesus, você quer que a gente mande descer fogo do céu para destruí-los?”
– Tá certo! – vibrou Horácio.
– Nada disso, rapazes. Jesus corrigiu os dois dizendo: “Vocês não sabem de que espécie de espírito vocês são, pois o Filho do homem não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-los”.

Augusto mexeu no celular de novo. Não conseguiu manter a boca fechada ao confirmar que o trecho citado pelo velho, de fato, estava na Bíblia.

O senhorzinho apoiou sua bengala no chão e se levantou, bem devagarinho. Ajeitou a camisa, acomodou seu chapéu na cabeça e antes de dar o primeiro passo, disse aos três:

– Se Jesus que é Jesus não atacou os samaritanos e nem ninguém, por que é que vocês faria isso com essa menina?

A um passo do mundo do crime, Fernandinho, Horário e Augusto sofrem de ignorância.

jun. 12, 2015 - Crônica    Sem comentários

Sobre mãos dadas

maosdadas

Bernardo conserva um ar de “sabe tudo” desde muito novo. Só que tem apenas 18 anos e uns poucos fios, distantes e finos, no rosto. Contudo, exibe a penugem com orgulho, como se fosse barba de gente grande. Ele é quase menino, quase homem e está prestes a descobrir o amor.

Sente tanta coisa que anda aflito, sem saber direito o que fazer. Por vergonha, não toca no assunto com os pais, tem receio de expor seus medos. Achou melhor recorrer à avó, que sempre lhe deu guarida e bons conselhos.

– Então, o seu problema é uma menina?
– É, vó. E ela também gosta de mim.
– E o que você quer fazer?
– Tô na dúvida. Se eu levar a sério, a farra acaba, né? Mas se eu não levar, perco ela.
– Você vai ter que escolher, meu menino. É como na vida. Ela é uma boa garota?
– É, mas não sei se o que sinto, sabe?,… se é am… amor.
– Mas o amor não é um sentimento.

O garoto, confuso, arregalou os olhos.
– Então é o quê?
– Uma decisão. A gente sente paixão, dor de barriga, vontade de gritar. Sentimento dá e passa. Amor não é assim.
– Difícil isso…
– Lembra quando você e sua prima brincavam aqui na rua, aquela brincadeira de correr de mãos dadas? Vocês saíam em disparada fazendo força pros lados até que um dos dois soltava a mão e o outro caía… Sua prima, tadinha, sempre se dava mal nessas.

Bernardo riu. As palavras da avó o fizeram voltar à infância não tão distante.
– Lembro, vó. Era legal. Minha prima sempre foi meio tonta. Mas o que amor tem a ver com isso?
– Não fala assim dela, hein! Mas entenda: a vida a dois é como aquela brincadeira. Duas pessoas dão as mãos e, juntas, saem por aí, meu menino. Elas correm, elas vão devagar, mas seguem de mãos dadas.
– Mas e se um começar a ir prum lado e outro não quiser?
– Quem decide amar pode até não querer ir pro outro lado, mas continua de mão dada. Lá na frente, eles voltam, vão para o lado que o outro quer ir ou para o lado oposto.
– Minha prima soltava a mão porque não aguentava correr como eu…
– É, eu lembro. Você corria muito. Só que na vida de quem decide amar isso não pode existir. O amor não compete, não tem orgulho, não maltrata. Quem sente, quem vive de acordo com o que sente, Bernardo, é que faz essas coisas. Quem ama não. E não faz porque decidiu que seria assim.
– Nunca pensei nisso antes…
– Você pode até se irritar e fazer força pro outro lado. Mas se decidiu amar, precisa lembrar que o amor não compete. É uma decisão, meu filho. Já que decidiu por isso, não pode fazer algo incompatível, entende? E não adianta se apenas um dos dois pensar assim. Se ela achar que amor é sentimento, um dia ela vai sentir. No outro, talvez não sinta mais.
– E se eu não quiser mais correr de mãos dadas com ela? Posso soltar?
– Bernardo, Bernardo. Quando bate essa vontade é porque algo aconteceu antes. E quando se é jovem quase tudo é vaidade. Não vale a pena. Se não há justificava, é porque você, em algum momento, se permitiu sentir algumas coisas, coisas que não são do amor. Aí, você tem que se lembrar o que decidiu lá atrás e voltar, corrigir! Eu e seu avô estamos aí até hoje…

O rapaz pensou uns segundinhos:
– Mas vocês são de outro tempo, vó!
– O passar dos anos não têm a ver com isso. Amor é amor desde que o mundo é mundo. E o tempo, meu menino, faz esquecer. O ser humano é quem faz esfriar…
– Pode ser… mas e se eu quiser soltar a mão? Você não respondeu.

A avó respirou fundo e continuou:
– A vida é uma corrida curta e veloz. É difícil soltar a mão e não levar um tombo, você sabe bem. E, às vezes, os dois caem. Mas, veja, é até possível se soltar. É comum hoje em dia. Só que você não deve nem pensar nisso.
– Por que, vó, por quê?
– Porque de mãos dadas dois são um, meu menino. E quem chega inteiro ao final dessa corrida padece menos…

Bernardo sofre de inocência.

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