Archive from dezembro, 2015
dez. 9, 2015 - Botequim, Opinião, Recado    Sem comentários

O X do problema

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É bonito quando o Poder Público faz uma estátua em memória de alguém importante. Tem algo de reconhecimento, um quê de gratidão. Mas se não é possível protegê-las, por que fazer novas? Dia destes, atacaram, outra vez, a estátua de Carlos Drummond, em Copacabana, e, na madrugada de ontem, o monumento a Noel Rosa, em Vila Isabel. Aliás, sexta agora se completam 105 anos do nascimento do autor de “O X do problema”, data em que os admiradores de Noel vão à estátua prestar homenagens.

Este ano, o Rio está gastando R$ 1,5 milhão apenas para repor peças furtadas ou danificadas dos monumentos cariocas.

Fora os regulares R$ 2,5 milhões usados, a cada ano, para a manutenção.

Entre chafarizes e monumentos, o Rio tem hoje 1.200 peças que decoram a cidade e ajudam a contar nossas histórias. A Guarda Municipal existe para cuidar do patrimônio público, não é? Pois bem, em vez de gastar mais de R$ 1 milhão por ano com restauração e peças de reposição, não seria menos custoso escalar um grupo de guardas para vigiar essas preciosidades quando a noite cai? Não precisa ficar parado, não.

É fato que nessa vida – e ainda mais nos dias de hoje – há coisas mais duras, mais revoltantes e que mereçam mais nossa indignação e tempo. Mas esses ataques mexem.

Porque esses vândalos não fizeram mal só à obra do escultor Joás Pereira do Passos, ao bairro e ao cofre público. Eles foram lá e, da estátua do garçom (um patrimônio da Humanidade, diga-se), arrancaram o braço esquerdo; da estátua de Noel Rosa, levaram o braço esquerdo e parte da perna direita.

De quem admira a obra do Poeta da Vila, atingiram o coração.

dez. 2, 2015 - Opinião    Sem comentários

Salve o Almirante Negro

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Completam-se, domingo agora, 46 anos da morte de João Cândido Felisberto, o marujo que a luta alçou a almirante, o marinheiro que a ditadura transformou em feiticeiro. Recontar histórias é um jeito de mantê-las vivas, é uma forma de levá-las a quem veio depois. E a efeméride, embora não redonda, faz-me pinçar o Almirante Negro da História e trazê-lo até aqui.

A importância dele muita gente conhece: foi um dos líderes da Revolta da Chibata, em 1910. Imagine que há 105 anos, os marinheiros eram punidos com chicotadas e tinham péssimas condições de trabalho. Contra isso, João Cândido e seus companheiros começaram uma revolta.

– Meu pai passou dois anos na Inglaterra, esperando a frota se modernizar, e conviveu com os sindicatos. Viu que a marujada de lá não apanhava. Na volta, uma semana depois da posse do (presidente) Marechal Hermes, um marinheiro levou 250 chibatadas. Ele e os companheiros deram um basta e assumiram a frota, dando um ultimato ao governo – conta Adalberto do Nascimento Cândido, o Candinho, de 76 anos, filho do herói, numa entrevista, há cinco anos.

A bravura do grupo, liderado pelo negro João Cândido, surtiu efeito. E não só para os negros, mas para todos os subordinados da Marinha do Brasil. A chibata foi aposentada.

O feito, entre outras coisas, inspirou Aldir Blanc e João Bosco anos depois. É essa parte, na verdade, que quero relembrar. Em 1973, a dupla compôs o samba “Almirante negro”. Só que a ditadura militar implicou e censurou algumas palavras. A música passou a se chamar “Mestre-sala dos mares”; o trecho “bravo marinheiro” foi trocado por “bravo feiticeiro”; e o “conhecido como Almirante Negro” virou “conhecido como navegante negro”.

Tempos atrás, Aldir Blanc contou que a mudança no nome do samba, segundo os censores, foi para não “ofender os oficiais da Marinha”. Disse ainda que os militares estavam incomodados com a presença maciça da palavra “negro”.

A censura encontrou-se com seu fim. Já não faz mais sentido cantar a música da forma permitida pelos militares, não acha?

Sugiro aos que hoje – e daqui pra frente – vão se reunir em roda para celebrar o Dia Nacional do Samba: caso desejem cantar algo de Aldir e João, cantem “Almirante Negro”.

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