fev 2, 2016 - Crônica    1 Comentário

Do sol a Cabral, uma viagem no ‘Quatro doidão’

422

É sempre cheia de assuntos e até aventuras uma viagem no 422, a linha de ônibus que liga o Grajaú ao Cosme Velho, parte da Zona Norte carioca à parte da Zona Sul. O que se diz é que os motoristas queriam mesmo era ser pilotos de Fórmula 1, dada a velocidade que imprimem nas fervilhantes pistas cariocas. Tanto que o “Quatro, dois, dois” é comumente chamado de “Quatro doidão”.

Mas o protagonismo desta história recai sobre um passageiro que, na manhã de hoje, subiu as escadas, vestindo camisa azul escuro e bermuda verde limão, já mirando nos olhos do motorista e perguntando:

– E o sol?

O do volante permaneceu mudo. O sujeito emendou:

– Você acha que o sol é coisa de Deus? Essa bola de fogo lá em cima que prejudica os filhos dele aqui embaixo. Deus é bom. Não ia fazer isso com os filhos dele. Esse calor não é de Deus, não. Essa bola de fogo lá em cima…

O homem, de uns 40 e poucos anos, só parava de falar para respirar e seguia, com fôlego impressionante, seu discurso contra o calor. Falava andando. Sentou-se, falando. Ou melhor, reclamando. Falava, falava. E em voz alta. Não havia um só canto do coletivo protegido do som emitido pelas reclamações do homem de bermuda verde limão.

422_dentro

Nisso, um outro passageiro ensaiou uma intervenção. Era uma tentativa de, sei lá, acalmar o sujeito, tentar trazê-lo para uma conversa a dois, na qual o volume poderia ser mais baixo:

– Ô, meu amigo, o homem está destruindo o Meio Ambiente, né! A camada de Ozônio…

O cara da bermuda verde limão olhou fixamente para ele, parou de falar por uns segundos, e eu pensei: “Será que esse aí é doido-doido a ponto de revidar o papo com uma agressão?”.

Confesso certa aflição. O sujeito que reclamava pelos cotovelos já estava há cinco segundos sem falar (parecia milagre), olhando fixamente para o passageiro ao lado. Três segundos depois, ele reativou a metralhadora de farpas:

– E o Sérgio Cabral? O carioca apertou o verde, depois apertou outra vez. E ainda apertou o verde para o Pezão. Já são 20 anos de Sérgio Cabral. Eles acabaram com o Estado do Rio!

Do sol a Cabral, o passageiro-falante mudou o alvo de suas reclamações. Era doido-doido, mas um doido do bem. Descartou a intervenção do vizinho para continuar falando o que queria:

– Vocês vão votar no Pezão? E ainda tem essa bola de fogo em cima da gente! É uma BO-LA de fogo. É por isso que eu vou para o Alasca, abraçar urso polar e beber coca-cola…

Nada como viajar no “Quatro doidão”.

1 Comentário

  • esse é o Brunet, carioca maior, meu amigo querido, cara talentoso, capaz de retirar histórias até de viagem no “4 doidão”. sou fã

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