maio 8, 2016 - Crônica, Opinião, Recado    2 Comentários

Uma tarde em uma escola ocupada do Rio

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A ocupação de alunos no Colégio Estadual Compositor Luiz Carlos da Vila, em Manguinhos, completa hoje um mês. Eu visitei a escola ontem, quando um grupo de músicos fez homenagem ao sambista que dá nome ao lugar. É uma da série de atividades que estão acontecendo no colégio enquanto as aulas estão paradas. Os professores do Rio, como sabemos, estão em greve.

Os mestres lutam por aumentos salariais e melhores condições de trabalho. Os alunos, por melhoria na Educação, eleição direta para diretores, aulas de reforço escolar e até pelo fim de policiamento militar dentro da unidade. Segundo o Mapa Ocupaescolario, 72 unidades estão ocupadas por alunos. E os do #OcupaCompositor têm um sonho: reativar uma das piscinas durante a ocupação. Para isso, pedem ajuda para que alguém doe uma bomba de sucção para retirar a água suja de dentro da piscina.

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BEBIDA ALCOÓLICA É PROIBIDA
Ao contrário do que muitos pensam, ocupação não é bagunça. Ao menos essa, que eu visitei. Os alunos criaram regras. Lá dentro, por exemplo, não se pode entrar com armas, nem com drogas ou cigarro de tabaco. Não permitem qualquer divulgação de partido político ou de entidade de movimento estudantil. Não pode ter briga, ninguém pode pichar o colégio e é proibido também a entrada de bebida alcoólica. No sábado, havia uma grande e talentosa roda de samba tocando por horas. E, sobre a mesa, contrariando o costume, não se via nenhuma latinha de cerveja. Não pode. Então… não pode (repare na foto).

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Os alunos se revezam para limpar o colégio e cozinhar para quem está vivendo lá dentro. Por isso, pedem doações de material de limpeza, alimentos e dinheiro para comprar gás de cozinha.

De fato, fiquei impressionado com o cuidado que eles têm com a escola. E um dos alunos, Moises Alves, de 17 anos, da comissão geral da ocupação, contou-me algo interessante: a ocupação está devolvendo aos alunos e à comunidade a noção de que o supercolégio pertence a todos.

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Havia a promessa de que o colégio seria usado pela comunidade aos sábados e domingo. O “Compositor”, como os alunos se referem à unidade, tem duas lindas piscinas, uma quadra de esportes e muito espaço para eventos. Mas depois de um tempo, a unidade passou a ficar fechada nos finais de semana.

– Teve morador que passou a entender que o colégio não era mais dele. Teve gente que ficou chateada com isso. E teve morador que pulou aqui para roubar o que tinha, como aparelhos de ar condicionado. Agora, a gente está aqui dentro cuidando de tudo, não deixa ninguém entrar para roubar nada – explica Moises.

A escola tem capacidade para até 1,5 mil alunos, mas hoje não chega a 30 o número dos que cuidam dela. No sábado, não havia qualquer presença do estado, nenhum representante sequer. Durante a ocupação, dezenas de voluntários – músicos, professores, sociólogos etc – aparecem por lá para dar gratuitamente oficinas aos alunos. Outros, batem-papo sobre assuntos que dominam.

E O ANO LETIVO?
Eu perguntei aos alunos se a ocupação não iria atrapalhar o ano letivo. Moises me respondeu.

– As aulas já não aconteciam normalmente. Tinha dia que não dava para ficar dentro da sala por causa do calor ou por falta de professor, de material. Estamos sem aula de educação física há quatro meses. Os laboratórios de ciência e informática foram fechados por falta de material – conta.

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Muita gente tem ido até lá doar livros. Eu fiz isso. Entreguei três cópias do “Segunda-feira, a história do Samba do Trabalhador”. É que um dos 100 verbetes do livro é sobre o grande Luiz Carlos da Vila.

– A gente está recebendo muito livro. Eu fico acordado até às 6h, vigiando a escola. Vou ler todos esses livros que estão chegando aqui… – promete Moises.

Ao tempo em que esse movimento ganha elogios de uns e gera desconfiança em outros, ele parece quixotesco. O governo do Rio não tem dinheiro para quase nada. O cofre está raspado depois que a queda do preço do barril de petróleo atingiu em cheio a economia do estado que tinha nos royalties um de seus sustentos.

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Mas há coisas que podem ser feitas sem dinheiro, como permitir que alunos votem para escolher seus diretores (seria um ótimo exercício para aprenderem a escolher ‘governantes’). Os estudantes também querem ter acesso a todas as salas. Nos primeiros dias de ocupação, veja só, eles entraram numa que vivia fechada e encontram… latas de tinta. Sabe o que fizeram? Pintaram a sala de música, e pintaram direitinho.

Eles também querem que o colégio fique aberto para os moradores da região nos finais de semana, a tão sonhada integração entre comunidade e colégio. Parece-me justo. Afinal, tudo aquilo foi construído com dinheiro público.

É triste ver o estado das piscinas. As fotos não mentem. Tanto dinheiro público para uma área de esporte e lazer virar criadouro de mosquito. E detalhe: ninguém vai preso.

O fim de tudo isso ninguém sabe. Mas uma coisa é certa: há alunos que têm muito a ensinar.

 

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Sobre o C.E. Compositor Luiz Carlos da Vila
A unidade de ensino foi construída dentro do Programa de Aceleramento do Crescimento (PAC), em Manguinhos, e inaugurada em fevereiro de 2009, pelo então presidente Lula e pelo então governador do Rio Sérgio Cabral. O projeto custou, segundo informado na época, R$ 8,77 milhões, Sendo que o governo federal colocou R$ 7 milhões, e o do estado, R$ 1,77 milhão.

Além da escola, os governos construíram dezenas de unidades habitacionais e reformaram centenas de casas da favela.

2 Comentários

  • Muito legal a matéria!

  • Sou professora de lá desde o ano da inauguração. Lamentável passar pelo processo de degradação daquela instituição. Esse meninos e meninas estão dando um show de cidadania.

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