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ago 6, 2016 - Música, Recado    Sem comentários

Quando a morte toca o samba

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A ideia de escrever o “Segunda-feira, a história do Samba do Trabalhador” também surgiu de uma inquietação: registrar a vida e obra de quem faz o samba acontecer como forma de valorizar cada um deles. Por isso, o livro tem 100 verbetes de cantores, compositores e músicos que acrescentaram e acrescentam alma à roda que acontece às segundas no Renascença. Lembro que a dona da primeira editora a qual ofereci o “Segunda-feira” me disse que essa parte não era comercial. Encarei como elogio às avessas, já que eu não sou um comerciante. Contador de histórias, vivo orgulhoso por ter deitado em papéis a memória desses bambas.

Quando comecei a escrever o livro, Denny Lima e Ratinho já tinham morrido. E durante a produção dos textos, despedi-me de Bandeira Brasil e Éfson. Deu uma angústia danada, sabe? Queria que eles tivessem lido o que foi escrito sobre eles.

E a minha maior satisfação é ver a emoção desses biografados, ver a alegria que o reconhecimento joga nos olhos deles. E Adalto Magalha, o cantor e compositor que nos deixou hoje, deu-me esse prazer. Adalto foi ao lançamento no Rena e, entre outras coisas, disse-me “muito obrigado”. Não precisava. Eu retribui, agradecendo pela oportunidade de contar um pouquinho da trajetória do coautor de “Rendição” (com Almir Guineto e Capri), do cara que lançou, em 2012, “O canto do poeta”.

A morte sempre traz reflexão. E em quase todos os casos deixa um gosto de “poderia ter feito isso ou aquilo”, “uma última palavra, um último abraço”. Acontece com os sambistas também, mas eles encaram a morte de forma diferente. Talvez por viverem entre o pandeiro e a cuíca.

O pandeiro tem muitos sons e ritmo contagiante. Produz efeito que contrasta com o rumor da cuíca, que, muitas e muitas vezes, é comparado ao pranto, ao choro. Mas, juntos, eles dão brilho à roda. Porque na vida é assim: alegria e tristeza sobre a mesma corda bamba.

Na cerimônia de despedida do corpo de Magalha, vai ter disso. Certamente vão cantar as músicas dele, lembrar das boas histórias. Vão sorrir e vão brindar. No samba é assim. Mas também vão lamentar não terem feito “aquela parceria”, “terminado aquela música”, “não terem ido naquela última roda”.

Porque quando a morte toca o samba, a cuíca, ainda que por uns instantes, toma o lugar do pandeiro.

Adalto Magalhães Gavião, o Adalto Magalha, morreu aos 65 anos da forma que é digna aos poetas. De madrugada, pouco antes das 2h, ele sentiu falta de ar, muita falta de ar. Pediu ajuda à mulher, sua companheira. Queria que ela pegasse aquele aparelho que tem uma máscara e ajuda a respirar melhor.

Só que Adalto sentiu que aquela crise era forte demais, mais intensa do que as que teve até ali. A mulher foi ágil, mas quando voltou só deu tempo de ouvir Adalto dizer: “Não vai dar tempo, me dá um abraço…”

E assim o poeta morreu, porque, como diz um trecho de “Rendição”, “O amor não é dinheiro para se querer guardar”.

Valeu, Adalto!

 

 

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Foto: Reprodução/Silvio Zekatraca

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