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set 1, 2016 - Crônica, Opinião    Sem comentários

‘Há folhas no meu coração’

outono2

Era noite de chuva, daquelas geladas que tiram do Rio de Janeiro a cara de Rio de Janeiro. Estranha como o sujeito que caminhava pela rua sem querer encontrar ninguém, nenhum dos seus. Naqueles dias, andava taciturno, não erguia o olhar, esgueirava-se pelos cantos. Não ia bem. Ali na Rua Uruguai, entrou num botequim desconhecido, no qual jamais havia pisado, apesar de viver subindo e descendo por aquelas esquinas. O bar era perfeito para sua pretensão: não ser achado. Esconderia ali sua tristeza, e era tudo que importava.

O salão estava cheio, e a chuva lá fora fazia com que todos se apertassem lá dentro. Colada numa das paredes, uma cadeira vazia. Era a única e bem ao lado de uma mesa ocupada por um senhorzinho.

– Oi… se incomoda?!
– Não, não… – disse o velho, apontado para a cadeira vazia.

Sentou-se e não pediu cachaça. Nem cerveja. Preferiu uma batida da casa. Tinha o olhar distante, fixo num ponto que não sabia qual era. O movimento da mão que pegava o copo parecia automático. Somente meia hora depois é que o velho e o moço voltaram a trocar palavras.

– Dor de amor, é?, quis saber o da cabeça branca.
– Acho… bem… acho que desamor – respondeu, levantando o copo como se brindasse.
– É o que mais vemos por aí, meu jovem. O casamento vai mal?
– Não tem mais. Acabou. Uma semana já…
– Durou?
– Sete anos e umas semanas. Sabe como é, né? A crise dos sete anos…
– Besteira, meu jovem. Os anos nada têm com isso.

O homem coçou o rosto vagarosamente, tomou fôlego, olhou pro velho, deu mais um gole, daqueles caprichados. O senhor seguiu o raciocínio:
– Tem casamento que acaba com 40 anos, uns com 40 dias…
– É verdade! Quem vai saber?
– E você a ama?
– O que o senhor acha? – disse o jovem, apontando para si como quem revela o que os olhos não veem.
– Claro que ama. Amor é difícil de achar…
– É, sim. E penso que nunca mais vou conhecer ninguém como ela.
– Besteira, meu jovem. A vida é cheia de oportunidades.
– Já tenho 40 anos. Até encontrar outra pessoa…
– Quer trocar de idade comigo? – disse o velho, estampando no rosto um sorriso de candidato a prefeito: – A vida começa agora. Aliás, garoto, só temos o agora.
– O senhor sabe das coisas, hein, velho. É a idade, né?!

Ele balançou a cabeça negativamente.
– A vida ensina a quem quer aprender. Tem muito velho por aí que não sabe o que diz, que não soube aprender.
– Eu tô aprendendo. Aos trancos… Só que sem ela…
– Perdoe-me a intromissão, rapaz. Quem não é feliz sozinho, não é feliz com ninguém.
– Pode ser. Mas o cara lá de cima não gosta de mim, não. Minha vida é só confusão.
– Deus tem nada a ver com isso. Quem toma decisão é você, não é? Se vai pra casa mais cedo, se vai beber mais uma, se vai ligar pra ela amanhã. Você decide. É ou não é? A gente planta, a gente colhe. Deus é pai, gosta de todo mundo, e você quer colocar culpa nele?

O sujeito gostou do papo do velho. Talvez por causa da fala mansa, jeito que passa tranquilidade como uma tarde de outono.
– Tudo bem. Eu preciso ouvir mesmo, ouvir mais.
– Acho que reagir é a palavra. Reagir.
– Ô… tô tentando.
– Tem que olhar pra frente, não esquecer o passado para não repetir os erros e dar o primeiro passo, em frente, sempre em frente. “Faça como um velho marinheiro que durante o nevoeiro…”
– “…leva o barco devagar”. Paulinho da Viola – completou.
– Isso. Tem tanta coisa aí boa para viver. Mas se você apenas olhar para os seus problemas, só irá, claro, enxergar os seus problemas.
– O senhor fala como se me conhecesse há décadas…
– Somos todos iguais, meu jovem. Humanos, cheios de problemas, dúvidas e vontades. Somos os mesmos há séculos. Só o que evolui é a tecnologia.

O jovem achou graça. A prosa, naturalmente, mudou de rumo. Falaram de futebol, de música, do impeachment.
– Você vai curtir quando tiver filhos, mas vai curtir ainda mais quando tiver netos… – disse o velho.

O jovem concordou com a cabeça.
– Calma aí, calma aí – disse.

Levantou-se, pediu licença e foi ao banheiro.
– Uma pausa, velha guarda. Já volto – completou.

É curioso como às vezes esbarramos com alguém na rua e, do nada, estamos contando nossas intimidades, nossos sonhos e nossos piores pesadelos. Nem sempre ouvimos conselhos prudentes, diga-se. Abrimos nossas histórias para pessoas que nunca vimos. Na ida ao mictório, o homem pensou nessa “loucura”. Mas, no fundo, alimentava a certeza de que o “velha guarda” era do bem.

Afinal, ouviu com paciência, deu conselhos precisos e preciosos, como se fosse um avô, daqueles que sabem de tudo. O fato é que o sujeito que entrou no bar cabisbaixo estava empolgado. E não era o álcool. Agora, ele queria contar algo que lhe havia acontecido recentemente. Nem percebeu o quanto aquilo era estranho, mas queria saber a opinião do velho. Só que quando voltou ao salão, o senhorzinho já não estava mais lá.

– Aí, aquele coroa que estava aqui… foi embora? – o homem perguntou ao Zé, que arrumava o dinheiro no caixa.
– Sei não, chefe. Se foi embora eu não vi.

Ficou um pouco desapontado. Afinal, passara as últimas horas ali conversando, ouvindo um desconhecido e até certo ponto aprendendo com a experiência que  ainda não tinha e lhe despertava interesse. Para onde ele teria ido? Por que não se despediu?

O homem, então, se deu conta de que sequer havia perguntado o nome do velho, também não tinha se apresentado. Quando estava se acostumando com a companhia, ela se foi.
Era o tempo.

 

***
Amanhã, Aldir Blanc completa 70 anos. Este texto, livremente inspirado em “Resposta ao tempo” (Aldir e Cristóvão Bastos), é homenagem ao grande compositor.

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