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out 1, 2016 - Música    Sem comentários

Sobre ‘Marmita’, o segundo disco de Alexandre Nunes

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O segundo CD solo de Alexandre Nunes, “Marmita”, é uma seleção de talentos. Com músicas de compositores novos e consagrados, o disco é uma espécie de cartilha de conduta, repleta de avisos, recados e frases de efeito, uma reunião de dicas para saber tratar o bom malandro, além de um resumo das dores e delícias que um bamba sente quando abre o coração.

Essa linha ganha corpo com as músicas de Almir Guineto, Beto Sem Braço, Arlindo Cruz, Sombrinha, Jorge Aragão e Neoci. E assim, de quebra, Alexandre Nunes, que por quatro anos tocou com Luiz Carlos da Vila, ainda coloca em seu disco um pouco do clima dos bons tempos do Cacique de Ramos, a mais tradicional e profícua roda de samba do Rio de Janeiro. E é um presente ouvir tudo isso na voz de Alexandre Nunes, com a rouquidão que lhe é habitual.

Das 13 faixas do disco, apenas três são regravações e outras duas têm a assinatura do próprio Alexandre. Aliás, o nome do álbum marca uma nova fase em sua carreira. “Marmita” é seu apelido de infância. Não tem muito sentido, mas pegou:

– Um cara me colocou esse apelido. Não tinha justificativa, foi falta de criatividade mesmo. Eu tinha 11 anos e gostava da rua, por isso pegou. As pessoas me conhecem mais pelo apelido. Então, decidi dar esse nome ao CD – tenta explicar, aos risos.

A primeira faixa do disco é “Deixa a fumaça entrar”, de Martinho da Vila e Beto Sem Braço, que remete a religiões afro-descendentes: “Quando o seu olor exala/Olho grande fica cego/Pururuca nem se cria”. Foi gravada antes por Martinho da Vila e também por Arlindo Cruz.

A segunda é “Vai provar do meu veneno”, de Almir Guineto, Dudu Nobre e Fred Camacho. O recado é direto: “Se você me atraiçoar o mundo fica pequeno/Eu não vou te perdoar, vai provar do meu veneno”.

Em seguida, na faixa 3, está “Explosão da galera”, de Almir Guineto, Dayse do Banjo e Newton Motta, que abre alas para o romantismo. A letra diz: “Em segredo nossa apresentação/A bateria nossos corações/E a harmonia, com sabor e ginga/Amor e samba não terminam em cinzas/Os nossos corpos, nossas fantasias/Eu sou teu rei, você minha rainha”.

A quarta música é “Dois bicudos não se beijam”, de Alexandre Nunes, André da Mata e Mingo Silva. É o fim de um relacionamento, e o bom malandro mostra que não é de briga: “E se quiser ficar com tudo/O meu cavaco já me satisfaz/Cantarolando vou tocando a vida/Seguindo em frente sem olhar pra trás”.

Marmita, integrante do Samba do Trabalhador desde 2009, faz na faixa 5 sua homenagem à roda de Moacyr Luz. Ele regravou “Vai que vai”, de Moa e João Martins, gravada no disco “Moacyr Luz & Samba do Trabalhador – Dez anos e outros sambas”, de 2015. Diz lá: “Vai que um dia eu viro moda/Vai que a toda hora, em qualquer roda/Toca aquele samba que eu fiz pra ti”.

A faixa 6 tem o DNA e a lecada do Cacique, “Chama”, de Sombrinha e Delcio Luiz. É poesia cheia de amor e esperança: “A gente precisa sorrir/Brincando de amar pra valer/Pro tempo não passar à toa/A gente merece isso aí/O doce, o mel, o prazer/Correndo que o tempo voa”.

Toninho Geraes assina a faixa 7, “Seu mal”. Canta a história de um romance que chega ao fim com doses de decepção, com aqueles desfechos que doem demais: “Seu mal/Foi novamente maltratar o amor/Fazer as coisas sem pensar na dor/Sem medo de ser infeliz/Seu mal/Foi a mentira ser o seu papel/Você falando em lua de mel/Pra adoçar a ilusão”.

“Lado a lado”, de Marcelinho Moreira, Arlindo Cruz e Rogê, está na faixa 8 e retoma o romantismo com melodia leve a cadenciada: “Hoje eu só quero contigo/Me esquecer do passado/Rever o tempo perdido/Só para ficar ao teu lado”.

Na faixa 9, Alexandre gravou “Arribação”, de Wanderley Monteiro e Toninho Nascimento, compositores consagrados, entre outros lugares, nas disputas de samba na Portela. O samba recorre à Natureza para passar sua mensagem: “Galo da serra não canta onde tem gavião/Guarda a viola, fecha o bico e vai embora/ Se cantar de galo gavião devora/Se cantar de galo gavião devora”.

Alexandre assina com André e Mingo outra faixa do disco, a décima, “Vai se arrepender”. É mais uma prova de que sambista sofre por amor: “Você vai se arrepender/Longe do meu coração/Apesar de me fazer sofrer/Não vou lhe querer mal, não”.

A faixa 11 volta a falar do sentimento que emociona os compositores e plateias. Chama-se “Por acreditar no amor”, de Sérgio Fonseca, Evandro Lima e Romildo, e diz: “Por acreditar no amor/Foi que eu fiquei assim/Com um pé no batedor/E outro pé no botequim”.

Chico Alves e Inácio Rios assinam a faixa 12, “Cirando do querer”, e Alexandre Nunes a canta com maestria: “Dizem que quando a ciranda gira é difícil dizer não/Diz que quando essa ciranda gira põe na roda o coração”.

O CD é encerrado na faixa 13 com o pout pourri “Alma de irmão/Chá de louro”, que já foram gravadas antes. Alexandre Nunes as escolheu para fazer uma homenagem a uma parte de sua trajetória como sambista. Em meados dos anos 1990, Marmita frequentava o Pagode da Beltrão, em Santa Rosa, em Niterói, roda que, na época, chegou a contar com canjas de Luiz Carlos da Vila e, entre outros, Beth Carvalho. “Alma de irmão” é de Jorge Aragão e Sombrinha; “Chá de louro”, de Noeci e Pelado.

– Eu aprendi essas músicas lá. ‘Alma de irmão’ é uma música do Aragão e do Sombrinha em homenagem ao Neoci, lá do Cacique. E eles emendavam cantando ‘Chá de louro’, que é do Neoci e do Pelado, da Mangueira. É uma homenagem a uma fase importante da minha vida – exalta Nunes.

Músico talhado nas rodas e cantor cada vez mais admirado, Alexandre Nunes apresenta um disco cheio de sentimentos e significados. Quem gosta de samba, vai gostar de “Marmita”.

Daniel Brunet

 

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Este é o texto de apresentação do CD “Marmita”, que fiz para o Alexandre Nunes. O disco foi lançado em abril de 2016.

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