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jan 4, 2017 - Crônica    Sem comentários

A lição do vendedor de balas

ambulante

O ônibus seguia para o Centro do Rio de Janeiro, e o vendedor de balas e amendoim descansava na parte traseira do coletivo. Estava de pé, próximo à porta. O homem já tinha oferecido seus produtos aos passageiros. Quem quis comprar, comprou. Agora, enquanto esperava seu ponto de descida, jogava conversa fora.

– Esses dias aí, ó…. fiz R$ 100 num dia! – contou o ambulante, todo feliz.

Para ele, a cifra parecia o auge, uma vistosa conquista. Ele falou “cem reais” com alegria, diria, tocante. O valor que para uns compra “apenas uma garrafa de vinho” ou paga um jantar era para aquele ambulante o grande feito do mês.

– Nem falei pra minha mulher. Guardei o dinheiro e comprei mais bala. Aí, tu sabe, né, dá pra vender mais. Esse é o ritmo… – explicou a dois passageiros que lhe davam atenção.

– Aí, tu vê. Semana passada fui lá no Morro Azul (no Flamengo, Zona Sul do Rio) trabalhar numa obra. Carreguei saco de areia, de cimento. E, no final do dia, sabe quanto eu ganhei?

A dupla que prestava atenção no homem respondeu não com a cabeça. Ambos queriam saber.

– R$ 80! Dá pra acreditar? Debaixo de sol, pesadão… Aí, eu prefiro vender bala, né! Num dia bom eu ganho mais do que na obra.

Fazia sentido. Os ouvintes concordaram, deram corda à história, e o homem continuou, reduzindo um pouco o volume da própria voz e atraindo mais espectadores:

– Mas aí um cara do tráfico, de fuzilzão na mão, me chamou pra trocar ideia.
– É mesmo? – quis saber uma mocinha dentro do coletivo.
– É. O cara chegou pra mim e disse assim: ‘Po, tô vendo você aí carregando esse peso. Você tem disposição…’
– Só tô ajudando na obra aí…
– Então… você podia trabalhar aqui com a gente. Vai ganhar mais… – disse o traficante.

Nessa altura, o vendedor de bala já tinha arrebatado a atenção de mais pessoas. Quem estava na metade do ônibus para trás, de uma forma ou de outra, prestava atenção no sujeito. Uma senhorinha, inclusive, chegou a mudar de lugar para ficar mais perto.

– Mas e aí? – perguntou um adolescente com uniforme de colégio.

O camelô abriu os braços, levantou os ombros…

– Aí que eu tenho mulher, uma filha. Vendendo doce eu ganho meu dinheiro e tá bom assim…

As pessoas mais perto balançaram a cabeça em sinal de positivo, aprovando a decisão do ambulante. E ele completou:

– E você sabe, né?: Os olhos do Senhor estão por toda parte… – discursou o homem, revelando crer na existência de um Deus vigilante e punitivo, imagem comum entre religiosos.

O ponto do vendedor de balas chegou. Ele puxou a cordinha e desceu se despedindo com um “valeu!” único e coletivo. Levou as guloseimas. Deixou o incômodo silêncio que faz pensar.

Em tempos em que certo e errado dobram a mesma esquina, escolhe o melhor caminho quem enxerga o horizonte.

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