jun 30, 2017 - Cinema, Opinião    Sem comentários

Os 155 anos de ‘Os miseráveis’ e o que perdemos

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A data me faz lembrar o que perdemos. Completam-se hoje 155 anos da publicação de “Os miseráveis”, o clássico de Victor Hugo (1802—1885). Nesses anos todos, a história já ganhou cerca de 50 adaptações só para a TV e o cinema – fora as inúmeras para os palcos. Uma das que mais gosto é a feita pelo dinamarquês Bille August para o cinema, em 1998. Neste filme, Jean Valjean, o bandido que se regenera, é vivido por Liam Neeson. E Javert, o implacável inspetor de polícia que o persegue, ganha vida com Geoffrey Rush.

Espero que o fato de o filme ter quase 20 anos me livre da acusação de spoiler, mas no final do longa, o policial fica a sós com Valjean, algemado, à beira do Rio Sena. Sendo que, momentos antes, a situação era inversa. O policial estava preso pelos que queriam derrubar a monarquia. Valjean tinha a chance de matar aquele que o perseguiu por toda a vida, mas decide soltá-lo.

Quando se reencontram às margens do Sena, Javert demonstra incômodo com o “perdão” do “bandido”. Matar e exterminar – ontem como hoje – fazem parte do pragmatismo humano. Muita das vezes, aniquilar algo parece uma solução, mas a verdade é que não resolve o problema. E o ser humano se tornou doutor nessa convicção. Não me refiro, diga-se, apenas ao ato de literalmente interromper a vida de uma pessoa, mas também às outras metáforas que cabem no verbo matar. Quantas vezes, em vez de “consertar”, você “jogou fora e comprou outro”?

Pois bem. Voltemos ao Rio Sena, ao filme de August. O inspetor Javert quer saber o motivo: “Por quê? Por que você não matou?”, questiona ele.

A cena é incrível. Valjean, o regenerado, não tem dúvida ao explicar ao seu perdigueiro:

– Eu não tenho esse direito.

A noção do que podemos ou não fazer. Foi exatamente isso que perdemos.

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