jul 10, 2017 - Opinião    Sem comentários

Sobre a mentira e o tempo

jacob10

Eu estava no início da carreira quando cobri a votação do Projeto de Lei que criaria o Sistema de Bilhetagem Eletrônica nos ônibus. Foi entre 2003 e 2004, na Alerj. O dono da ideia era o deputado José Cláudio de Oliveira Martins, um político de Campos (RJ) cujo mandato terminara no ano anterior.

Quem era a favor do projeto dizia que o sistema significava modernização e reforço na segurança das viagens (pois não haveria tanta grana no caixa).

A turma do contra chamava atenção para o fim da função de cobrador. Já que todos passariam a usar o bilhete eletrônico, o cartão.

Na época, o presidente da Fetransport, que reúne os donos de ônibus, Luiz Carlos de Urquiza Nóbrega negou veementemente que haveria demissão.

Mesmo sendo repórter iniciante – e lembro de cobrir as votações ao lado dos craques Dimmi Amora, Marcelo Dias, Sergio Braga, Gabriel Oliven, Gisela Alvares -, não caía naquele papo. Parecia-me lógico que o cobrador seria sacrificado.

O sistema que permite pagar a passagem com cartão é um avanço. Ninguém duvida. Mas a forma como tudo foi feito penalizou os trabalhadores, ao contrário do que Urquiza Nóbrega e cia. diziam.

De 2005 para cá, o número de cobradores caiu 82% na cidade do Rio. Eram 15 mil. Hoje, são 2,6 mil. A informação é do Sindicato dos Rodoviários do Município do Rio. Os motoristas eram 40 mil. Hoje, são 27 mil. As baixas se dão também por causa da crise. Sem dinheiro, o brasileiro anda menos de ônibus. Logo, as empresas faturam menos.

Naquela época, também ouvi falar na “Caixinha da Fetransport”, de onde sairia propina para muitos políticos. Por isso, segundo os bastidores da Alerj, os interesses das empresas de ônibus prevaleciam nas votações. Semana passada, a Operação Ponto Final prendeu os barões dos ônibus do Rio (foto). Talvez as provas da existência da tal ‘caixinha’ venham à tona. Há quem negue.

Aliás, sempre haverá alguém pregando um sofisma, negando uma verdade: “Eu não sabia de nada”. “A reforma da previdência vai salvar o futuro do Brasil”. “É de um amigo meu”. “Vamos dar todo apoio à Lava-Jato”. “A reforma trabalhista vai dar mais liberdade ao trabalhador”. “A UPP vai retomar  territórios”. “Temer tem condições de estabilizar o país”. “A culpa dos alagamentos é da maré alta”.

E o povo fica no meio, sem saber no que acreditar.

Mas o conto da Fetransport é prova: nenhuma mentira resiste ao tempo.

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Uma curiosidade:
Depois de apresentar aquele projeto, José Cláudio nunca mais venceu uma eleição. Nem para vereador em Campos. Aliado dos Garotinho, virou vice-presidente do Detran-RJ, em 2005. Cinco anos depois, foi denunciado pelo MP por suspeita de corrupção. Inclusive, dia 26, agora, há audiência deste processo na 37ª Vara Criminal, do juiz Marcos Augusto Ramos Peixoto.

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Foto: André Dusek.

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