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maio 29, 2015 - Coleguinhas, Música    Sem comentários

Os 80 anos de João Máximo

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A paixão pelo futebol fez o friburguense João Máximo trocar a carreira de dentista pela de jornalista. Ao entrar na Tribuna da Imprensa, em 1961, quando tinha 25 anos, Máximo nem imaginava, mas sua vida mudaria completamente. Além de jornalista esportivo, tornou-se pesquisador, crítico musical e escritor.

Hoje, João Máximo completa 80 anos (a foto acima é da festa surpresa que fizemos para ele, ontem, no GLOBO), e este blog abre alas para contar um pouco sobre o coautor de “Noel Rosa, uma biografia”. O livro foi escrito com Carlos Didier e publicado em 1990, pela UnB. Mas por causa de um divergência com as herdeiras do Poeta da Vila, só teve uma edição, o que o tornou raro e ainda mais especial. Para se ter uma ideia, uma exemplar chega a custar R$ 700 em alguns sebos.

Foi o primo Zuenir Ventura, jornalista e hoje membro da ABL, que o incentivou a trabalhar na Tribuna da Imprensa.

– Comecei a falar com ele sobre futebol, criticando as páginas esportivas, disse que ninguém sabia nada. Aí ele me disse: “por que você não vai escrever lá na Tribuna?”. Eu fui e muito rapidamente aprendi que não sabia nada de jornalismo, de escrever e de coisa nenhuma. Mas me apaixonei pela atividade de jornalista – conta Máximo.

A CARREIRA
Entre 1961 e 1963, João chegou a ter três empregos ao mesmo tempo “Tribuna da Imprensa”, “Jornal dos Sports” e “Rádio Continental”, para a qual escrevia programas de esporte.

Em seguida passou por “Jornal do Brasil” (1963-1969), “Correio da Manhã” (1969-1971) – “Para o Correio, eu levei uma equipe de jovens do JB: Fernando Calazans, Márcio Guedes, Roberto Porto, José Trajano… Era tudo garoto” -, Grupo Manchete/Bloch (1971-1976), “Jornal do Brasil” (1976-1992), “O GLOBO” (1992-1993) e “Folha de São Paulo” (1993-1994). Após a Copa do Mundo de 1994, João Máximo retornou ao “O GLOBO”, onde está até hoje.

Nesse tempo, esteve em seis Copas do Mundo: 1966, na Inglaterra; 1970, no México; 1982, na Espanha; 1994, nos EUA; 1998, na França; e 2014, no Brasil.

A MÚSICA
A paixão maior é por esportes, mas João tem os pés na música também.

– Eu costumava dizer que de futebol eu entendo e de música eu gosto. Estabelecendo a diferença que eu não sou um musicólogo. Sou um apaixonado por música.

 

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Dentre os cerca de dez livros que ele escreveu, destaco a biografia de Noel. No vídeo abaixo, João fala sobre Josefina Teles, a Fina, musa inspiradora de Noel Rosa na música “Três apitos”. É aquela que diz: “Quando o apito/ da fábrica de tecidos/ vem ferir os meus ouvidos/ eu me lembro de você…”

A tal fábrica (acima) é hoje uma filial supermercado Extra, na Av. Maxwell, em Vila Isabel/Andaraí.

As relações do poeta com Lindaura, com quem se casou, e com Ceci, a Dama do Caberé, são conhecidas. Aqui, Máximo fala um pouco sobre a Fina, que também inspirou Noel a compor “Riso de criança”. Um trecho: “É a última homenagem/ Que eu vou fazer a você/ seu riso de criança/ que me enganou/ está num retratinho/ que eu guardo e não dou…”

– Marcou mais ou menos ele. Não teve a dimensão da paixão pela Ceci. Mas ele gostou muito dessa menina…

Viva Noel! Viva João! Viva o amor!

 

 

mar. 10, 2015 - Coleguinhas    Sem comentários

Mulheres cabeça

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Vai aqui mais uma história do Lan, o gênio do traço, que completou 90 anos no último 18 de fevereiro.

Em 1952, Ernest Hemingway publicou “O velho e o mar”. Talvez seja esse o livro mais lido dele, obra-isca do Nobel de 1954. Pois bem, foram nas curvas dessas linhas de Hemingway que Lanfranco Rossini encontrou o caminho que precisava. Uma reta, diria. Com fim num romance.

Naquele distante ano de 1952, meses antes de trocar Buenos Aires pelo eixo Rio-São Paulo, o cartunista ainda desenhava nas páginas do jornal argentino “El Mundo”. E nas rodas de conversa, entre o trabalho e os bares, interessou-se por uma bela moça argentina. Pensou, pensou e traçou uma elegante abordagem.

– Eu comprei dois exemplares de “O velho e o mar”. Um é para mim, outro pra você. Vamos comentar o  livro. Quero que você veja o lado literário dele, o estilo. Eu vou fazer a mesma coisa.

A moça gostou, e Lan propôs que lessem a obra em algumas semanas. Cada um no seu canto. Foi a forma de se aproximar da formosa. Vez ou outra, lá ia ele puxar assunto, comentar um trecho do livro, saber se ela já tinha chegado à parte em que Santiago tenta salvar o grande peixe dos tubarões.

Quando a bela terminou a leitura foi contar o feito para o cartunista. E ele:

– Bem, agora vamos ao meu apartamento e vamos discutir tudo isso… – propôs Lan.

Com um sorriso bobo no rosto, um sorriso de menino, ele me disse: “E ela topou”.

Ainda rindo, resumiu o desfecho da trama:

– Hoje em dia a garotada fala sempre: ‘rolou um clima’…

O velho artista, então, suspirou, exclamando na sequência:

– Meu Deus, quanto clima rolou na minha vida!

Essa memória da juventude, fez Lan lembrar “Mulheres”, o samba de Toninho Gerais, sucesso na voz de Martinho da Vila. O ex-boêmio até cantarolou: “Mulheres cabeça e desequilibradas/Mulheres confusas, de guerra e de paz…”

Aquela tarde de fevereiro passado – quando entrevistei Lan – foi de grande valia e aprendizado. Fabio Rossi, autor da foto acima, é testemunha.

ONTEM E HOJE
Bem, entre a história do Lan e os nossos dias há uns 60 anos de distância. Os pessimistas e os que não gostam de ler que se contenham: nem tudo está mudado ou… perdido.  Os confrontos de Hemingway, os universos de Rubem Fonseca, os enredos de Vargas Llosa, a graça de Verissimo ou a magia de Gabriel Garcia Marquez, entre tantos e tantos outros, seguem embalando sensações.

É que as estirpes condenadas ao romance nunca vão se extinguir dessa terra. Ainda bem!

fev. 18, 2015 - Coleguinhas    Sem comentários

Lan e a mulata rubro-negra

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Lan me falou também sobre o Flamengo, time do nosso coração. Ele virou flamenguista antes mesmo da Era Zico. No papo, ele contou que adoraria ver um de seus desenhos – uma mulata vestindo a camisa do clube – na Gávea, a sede do rubro-negro carioca.

– Isso iria me eternizar entre os flamenguistas.

Lan, que nasceu na Itália e cresceu no Uruguai, virou flamenguista por causa de uma promessa. Em 1950, quando morava em Buenos Aires, ele encontrou lá o jornalista Otelo Caçador, que fora cobrir os Jogos Pan-americanos. E este, um rubro-negro apaixonado, fez o pedido:

– Se você for para o Brasil você tem que torcer pelo Flamengo.

O grande cartunista nem sonhava em se mudar para o Brasil. Porém, dois anos depois, veio para cá a convite do jornalista Samuel Weiner. Trabalhou no extinto jornal “Última hora”, onde fez retumbante sucesso.

Bem, Lan cumpriu a promessa e, com o tempo, aprendeu a amar o clube, assim como faz com a Portela. Em seus desenhos, derramou muita tinta vermelha e preta por causa do Mengão. Até que surgiu a ideia de desenhar a mulata com a camisa do Mais Querido.

Em 2013, este desenho e de outras mulatas viraram esculturas pelas mãos do escultor  Marcos André Salles (o gênio tem algumas em casa. Na foto do alto). Agora, aos 90 anos, diz que gostaria de ver essa escultura, mas em tamanho real, instalada na Gávea.

Lan completa 90 anos hoje. Seria um belo presente, hein, Mengão?

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Mais uma…
O cartunista contou ainda que o sucesso desse desenho fez Sergio Cabral Filho, ex-governador do Rio, pedir uma versão vascaína.

Conta o Lan que o político usou um tom de autoridade: – O Lan, você tem que fazer uma mulata com a camisa do Vasco.

O mestre do traço, que é amigo de longa data do jornalista Sergio Cabral, pai, e viu Cabral Filho crescer, rebateu, com fina ironia.

– Eu achei graça dele. E falei: ‘Ô, Serginho…’. Assim mesmo, sem essa de tratar como político. Eu o conheci pequenininho. Então disse: ‘Ô, Serginho, mulata eu desenho. Mas com a camisa do Vasco… nunca!’

Viva o Lan!

 

 

***
(A foto acima é de Fabio Rossi)

fev. 16, 2015 - Coleguinhas    Sem comentários

Conversa com o tempo

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Na tarde de quinta passada eu tive uma das tardes mais agradáveis da minha vida. Passei umas quatro horas entrevistando o Lan, o grande cartunista ítalo-carioca, no sítio dele, lá em Petrópolis, na Serra do Rio. A matéria foi publicada hoje, no jornal O GLOBO. Conversamos muito. Faltou papel para colocar tudo que ouvi desse gênio do traço.

Então, vou despejar aqui, aos poucos, algumas coisas que conversamos. Vai ser a partir desta Quarta de Cinzas, quando Lan completa 90 anos.

O Lan é muito mais do que um cartunista. Desde que chegou ao Brasil, em 1952, ele conviveu com todo o tipo de gente. Acumulou muitas histórias, segredos e muito conhecimento. Na conversa, era nítido que ele tinha prazer em contar suas memórias. Porque contar é lembrar. E lembrar é reviver. Ele me disse:

– Meu futuro é meu passado…

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Achei bonita também a definição do Lanzinho, personagem que o artista criou (no desenho acima, ao lado de Moacyr Luz, ele contempla uma mulata).

— O Lanzinho representa as limitações da terceira idade. Do lado dele, as mulheres ficam gigantescas, inalcançáveis.

Lan sabe das coisas.

 

ago. 21, 2014 - Coleguinhas    Sem comentários

Já pensou em largar tudo e morar fora?

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Já pensou em deixar seu trabalho para trás e recomeçar longe de casa? Já pensou em largar tudo e ter uma vida nova? Se não fez isso, é porque, certamente, você chegou a conclusão de que seria difícil demais ou que, talvez, não valesse a pena. Marcelo Franco, um dos mais brilhantes fotojornalistas com quem já trabalhei, superou essas dúvidas. Após onze anos de trabalho na imprensa carioca, Franco deu um “até breve” ao jornalismo. Em 2010, aos 39 anos, ele vendeu seu equipamento, arrumou as malas e saiu por aí.

Nos anos 1990, ele trabalhava, no Rio, em uma fábrica de cadarços e cintos. Certa vez, fez uma viagem à São João Del Rei, em Minas Gerais, e fotografou, com sua máquina amadora, tudo o que viu pela frente. De volta à Cidade Maravilhosa, revelou as fotos e gostou do resultado. Decidiu se dedicar mais à fotografia e se inscreveu em um curso do Senac. Foi seu grande passo. E como uma coisa puxa a outra, logo depois do curso, ele começou a trabalhar.

– Fui conhecendo um pouco mais sobre fotografia, e o que mais me chamou atenção foi o fotojornalismo, porque teria que trabalhar na rua, pois odeio trabalhar em salas, escritórios, usar uniformes, essas paradas de ficar preso, não nasci para isso. O fotojornalismo me ajudou muito, ainda mais porque sou tímido. Eu preciso ver pessoas, conhecer lugares, histórias, aprender com cada um. Consegui (como fotógrafo de jornais) estar com um mendigo de manhã e com um megaempresário de tarde e vice-versa – conta.

Em 1996, aos 25 anos, ele foi contratado como fotógrafo da Light, seu primeiro emprego na área. De 1998 a 2001, trabalhou no jornal de bairro Tipo Carioca, que circulava pela Barra, Recreio, Vargem Pequena e Vargem Grande, na Zona Oeste do Rio. Em 1999, indicado pelo fotojornalista Alexandre Brum (hoje no jornal O Dia), seu colega no curso do Senac, Marcelo Franco foi trabalhar no jornal “O Povo”. Era o início de uma carreira marcada por belas imagens e pelos elogios de críticos e colegas.

Entre 2003 e 2004, trabalhou no jornal “O Dia”. E de 2004 até 2010, fotografou para o jornal “Extra”. Colecionou alguns prêmios, como o XXIX Vladimir Herzog, em 2007 (veja abaixo). A foto se chama: Sala de aula.

Em 2010, aos 39 anos, a carreira de Franco estava estruturada, seguia um bom caminho. Ele era reconhecido no mercado, mas andava desapontado com a profissão. O retorno financeiro não era o esperado e o trabalho exigia cada vez mais de seu tempo e esforço. O fotógrafo, então, decidiu mudar a vida completamente. Guardou a profissão no peito e foi para a Austrália em busca de dias melhores.

Mudou-se para Sidney, onde não trabalha com fotografia. Até tentou, mas o mercado é muito fechado. Marcelo Franco bateu na porta de outros ofícios: dirigiu caminhão, fez faxina, distribuiu panfleto, trabalhou na construção civil, com jardinagem, com mudanças… Foi à luta em busca de grana e qualidade de vida. Hoje, é garçom em um restaurante de Sidney e, pelo bom desempenho nesta função, já foi até premiado. Não se arrepende da mudança de vida. O que para muitos pode ser uma brutal mudança de “status profissional”, para Marcelo foi o início de uma vida mais justa e tranquila.

– Hoje eu ganho mais, muito mais. E tenho mais tempo livre. Às vezes, tenho tanto tempo que nem sei o que fazer com ele – brinca Marcelo, que, de lá, ajuda a financeiramente a família que ficou aqui.

salaA foto lá do alto também é do Marcelo Franco (veja outras no vídeo). Mostra um camburão da PM chegando numa comunidade em São Gonçalo, RJ. O moradores de lá faziam um protesto por causa da morte de uma criança. Eu a guardo há uns dez anos, junto com outras que gosto e foram feitas por outros colegas. Esta fazia parte do arquivo digital do jornal “O Povo”, onde comecei a estagiar em 2002 e onde conheci o Franco. A foto me fez entender que eles, os fotógrafos, têm uma certa magia nos olhos. Eles não precisam explicar nada, como fazem os repórteres em seus textos. Eles captam, reúnem num retângulo uma prova, uma ideia, uma verdade e até mesmo um sonho. Eles fazem arte.

E o artista Marcelo Franco, de 43 anos, jura que não abandonou o fotojornalismo. Deu apenas um tempo. Diz que pensa em voltar para “deixar algo” na terra em que nasceu. Estou torcendo por isso!

A entrevista foi feita na Redação do jornal “Povo”, no Centro do Rio. Veja o vídeo:


 

ago. 13, 2014 - Coleguinhas    Sem comentários

Luarlindo Ernesto, o decano do reportariado

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Luarlindo Ernesto Silva é jornalista e completa hoje 71 anos de vida. Não é editor, colunista ou chefe de reportagem. Luarlindo Ernesto é repórter. E é o mais velho da imprensa carioca. Luar, como é carinhosamente chamado, é o nosso decano e deu os primeiros passos no jornalismo no primeiro semestre de 1958, quando ainda tinha 14 anos.

– Foi um castigo que meu pai  me deu por eu jogar bola na rua de cueca. A gente tinha um vizinho que era jornalista, o Augusto da Silva Júnior, repórter do jornal “Última hora”, e meu pai pediu para ele me deixar trabalhar com ele. Só que era na madrugada… lá fui eu – lembra o repórter, que cresceu na Praça da Bandeira, na Zona Norte do Rio.

O próprio chama o jornalismo daquela época de “boêmio, irresponsável e romântico”. A irresponsabilidade não tinha censor, nem limites. Não havia faculdade de jornalismo, e os profissionais eram muito mal remunerados. Luarlindo lembra que, naquelas décadas, “jornalismo era bico”. O sujeito, geralmente, tinha formação em outra área ou trabalhava com outra coisa. O jornal era apenas para complementar a renda. Luar, por exemplo, cursou Direito nos anos 1960, mas não concluiu a graduação.

Aliás, as vacas eram tão magras naqueles anos que o repórter chegava a trabalhar, ao mesmo tempo, em três diferentes veículos de comunicação. Luarlindo foi um destes.

luarlindoComeçou no “Última hora”, onde ficou até 1965. Só que dois anos antes, passou a trabalhar também no “O Globo” e no “O Dia”. Foi repórter ainda da “Gazeta de Notícias”, do “O jornal”, fez freela para as revistas “Realidade” e “Veja”, além de para a TV Globo, a italiana TV Rai e para o jornal italiano “Corriere de la sierra”. Ele lembra até hoje: “Eles pagavam mil dólares por matéria”.

Nos anos 1970, Luarlindo foi repórter, ao mesmo tempo, da “Folha de São Paulo”, do “Diário de Notícias” (de onde saiu em 1974) e, novamente, do “O Dia”. No fim daquela década, ele “saiu do jornal ‘Última Hora’ pela última vez” e se transferiu para o “Jornal do Brasil”, onde trabalhou por 12 anos. Em 1991, iniciou sua terceira passagem pelo jornal “O Dia”. E lá está até hoje.

Premiado pelos críticos e reverenciado pelos colegas de Redação, Luarlindo destaca, dos seus 56 anos de profissão, três casos: “Tommaso Buscetta, o mafioso”, a “deposição de um presidente sul-americano” e a “explosão da bomba no Riocentro”.

O mafioso italiano fora preso no Brasil e extraditado em 1972. Onze anos depois, voltou escondido para o Rio de Janeiro. Ao se deparar com assassinatos de estrangeiros que entraram no Brasil com passaporte falso, Luarlindo desconfiou que tinha dedo da máfia no caso. Foi atrás dos bens que Tammaso tinha aqui e conseguiu provar que o mafioso estava de volta. Em 2000, Luar foi a Roma contar o que sabia à Justiça italiana.

O segundo caso, o do presidente sulamericano, foi assim: Luarlindo estava na Argentina ou no Uruguai. Ele não lembra. Pode ter sido em outro país, inclusive. Eu pesquisei e não achei (não deu tempo de procurar nos arquivos e matar a charada). Luar diz que foi nos anos 1960, década recheada por golpes de Estado. Luarlindo só se lembra que estava no tal país, soube do golpe e passou a informação cifrada pelo telex (antigo equipamento de transmissão de texto) para a Redação do jornal “O Globo”, onde trabalhava. Foi um furo na época, um furaço. No segundo vídeo, ele conta como fez isso.

A terceira cobertura da qual muito se orgulha é a da explosão da bomba no Riocentro, em 31 de abril de 1981. O caso, inclusive, rendeu a Luarlindo e à equipe do “Jornal do Brasil” o prêmio Esso, na categoria principal, daquele ano. Depois de me contar a experiência, Luar exalta a arte do repórter, a busca pela informação e critica a comodidade de hoje em dia.

– Hoje o jornalista vai no Google…

Ao lembrar do passado e confrontá-lo com o presente, Luarlindo Ernesto, um dos poucos elos que ainda temos entre o jornalismo atual e sua fase romântica, bota-nos para pensar no futuro. Que caminho o jornalismo investigativo merece seguir? Veja os vídeos.

Enfim… feliz aniversário, Luar! Saúde, muita saúde!

Parte I:

Parte II:

* A palavra “reportariado”, no título deste post, não existe para a ABL. Mas, para nós, mortais, significa coletivo de repórteres.

ago. 3, 2014 - Coleguinhas    Sem comentários

Ancelmo Gois: o menino de Sergipe que virou o maior colunista do país

AG2Vou publicar aqui (e com certa frequência) textos sobre jornalistas e suas boas histórias. A estreia será com Ancelmo Gois, o colunista do GLOBO, com quem trabalho há uns três anos. Minha ideia inicial era apenas registrar uma história, um grande caso, uma grande cobertura. Mas não deu.

No vídeo abaixo, Ancelmo conta um pouco da trajetória dele no jornalismo, fala sobre o sonho de mudar o mundo, da revelação que fez no “Informe JB” sobre PC Farias e de  seu primeiro dia no Jornal do Brasil. Vale a pena assistir.

Sergipano de Frei Paulo, Ancelmo, de 65 anos, começou a trabalhar aos 15 anos na “Gazeta de Sergipe”. Sua primeira função foi arquivar fotos. Entre uma tarefa e outra, corria para ouvir os jornalistas conversando sobre os problemas da cidade. O menino logo se interessou pelos assuntos, principalmente os que envolviam política. A transição do arquivo para a reportagem foi natural, como era antigamente.

Antes mesmo de completar 18 anos, Ancelmo já escrevia a coluna “Reclamações do povo”, que publicava pequenas queixas da população. O trabalho dele era selecionar e reproduzir as cartas enviadas pelos leitores. Como já apresentava talento, o jovem sergipano migrou para a reportagem, e a pequena estrutura da “Gazeta de Sergipe” abriu espaço para que ele fosse testado em outras áreas. Chegou, inclusive, a fazer crítica de cinema.

Em dezembro de 1968, logo após o AI-5, Ancelmo, que participava da luta contra a ditadura, acabou preso e passou o réveillon de 1969 atrás das grades. Quando deixou a cadeia, já não tinha mais o seu emprego na “Gazeta de Sergipe”. Clandestinamente e com apoio do Partido Comunista, ele se exilou em Moscou, na Rússia. Lá ficou mais de um ano.

Na volta, já depois da Copa de 1970, Ancelmo foi morar no Rio de Janeiro. Queria continuar trabalhando como quadro político, mas a pouca grana que recebia na militância o obrigou a procurar emprego. Decidiu voltar ao jornalismo. Bateu na porta do jornalista Maurício Azêdo, que era um quadro do Partido Comunista.

Por indicação dele, Ancelmo começou a fazer freelas em publicações, da editora Abril, sobre trabalhos técnicos, relacionado a metalurgia, siderurgia. Ele, por exemplo, acompanhou, de dentro da Redação, o surgimento da revista “Exame”, uma fusão das antigas publicações da Abril.

AGDe lá, Ancelmo foi para a revista “Veja”, no início dos anos 1980. Foi repórter de economia, subeditor, editor. Em 1986, trocou a “Veja” pelo “Jornal do Brasil”, a convite do amigo Marcos Sá Corrêa. Ancelmo Gois conta ter realizado um sonho ao entrar no “JB” (veja o vídeo). Foi lá que ele engatou a carreira de colunista, ao se tornar titular da “Informe JB”, que na época era a coluna mais importante do país.

Seis anos depois, em 1992, o jornalista voltou para a “Veja”. Dessa vez, como chefe na sucursal da revista no Rio e titular da coluna “Radar”, que estava sendo reformulada.

– Quando eu fui pra lá, fui tocar o projeto da “Radar” com duas páginas. Antes, só tinha uma, e as notas eram mandadas pelos chefes das sucursais – conta.

Nesta segunda passagem, Ancelmo ficou cerca de oito anos. Em 2000, foi para o site Notícias de Opinião (NO). Foram os primeiros passos do jornalismo brasileiro na internet. E, no ano seguinte, assumiu a principal coluna de notícias do jornal O GLOBO, onde está até hoje.

Apesar dos seguidos furos, das grandes revelações e dos inúmeros prêmios, Ancelmo Gois mantém a simplicidade daquele menino de Sergipe. Costuma sempre dizer pra gente:

– Muita gente bate no nosso ombro e diz que fazemos a melhor coluna do país. No dia em que acreditarmos nisso, ficaremos para trás…

Ancelmo Gois é um grande mestre, talhado nas pernas ágeis da notícia.

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