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ago. 23, 2015 - Crônica    Sem comentários

Rio-Miami

passaporte

Um jovem empresário da Tijuca, o querido bairro da Zona Norte carioca, foi, na primeira semana deste mês, ao posto da Polícia Federal no shopping Riosul, em Botafogo. A missão da vez era pegar seu novo passaporte, que acabara de ficar pronto.

A sala da PF é pequena e, naquela manhã, havia poucas pessoas. O sujeito colocou o requerimento sobre a mesa da atendente e buscou um lugar para sentar. No curto caminho, opa!, um rosto conhecido.

Ali, na mesma fila enfrentada pelo empresário, estava a guardadora de carros que trabalha na Praça Afonso Pena, na Tijuca, e sempre “dá uma olhada” no carro dele.

Apesar da alta do dólar, a trabalhadora planeja ir para os EUA. Quer trabalhar lá.

É difícil, mas não impossível. Vejo um Brasil cheio de gente que sonha e realiza.

ago. 12, 2015 - Crônica, Música, Opinião    Sem comentários

Morro da Providência, de Sinhô a Cazuza

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Quando uma ameaça de demolição caiu sobre o Morro da Favela, no Centro do Rio, hoje chamado de Morro da Providência, quem saiu em seu socorro foi o samba. O assunto acirrou os nervos de muita gente na segunda metade da década de 1920, época em que o prefeito Antônio Prado Júnior (1880-1955) entregou ao urbanista Alfred Agache (1875-1959) a missão de remodelar o Rio. Logo o Rio, que já tinha passado por algo parecido em 1922, quando outro prefeito, Carlos Sampaio (1861-1930), começou a demolir o Morro do Castelo, também no Centro. A ferida ainda estava aberta no coração dos cariocas.

Lembrei disso tudo ao ler a nota que saiu hoje na coluna Ancelmo Gois, no GLOBO, sobre a ideia de uns moradores de decorar uma escadaria no Morro da Providência, tal como a Selarón, na Lapa.

Eles pretendem colocar nos degraus da escadaria versos de cantores como Renato Russo e Cazuza. Ao que tudo indica, esqueceram-se de Sinhô. Sei que na comunidade muita gente lembra das histórias do primeiro Rei do Samba, amado por uns, odiado por outros. Até hoje é assim, 85 anos depois de sua morte, completados no último dia 4.

Diferenças à parte, o fato é que, em 1927, Sinhô compôs “A Favela vai abaixo”, gravada por Francisco Alves (1898-1952), um dos cantores mais populares da época.

O jornalista e cronista Francisco Guimarães (1875-1946), que trabalhou em diversos jornais do Rio, conta ter o ouvido o seguinte de Sinhô:

– Meu Tio Guima, eu escrevi esse samba em represália aos muitos que há por aí dizendo mal da Favela, que eu tanto adoro. Ela vai abaixo e eu lhe dou o meu adeus, deixo gravada a minha saudade e a minha gratidão àquela escola onde eu tirei o curso de malandragem.

E Edigar de Alencar (1908-1993), biógrafo de Sinhô, acrescenta, no livro “Nosso Sinhô do samba”, que o bamba fez ainda mais: tomou as dores dos moradores e foi interceder pela não demolição. Procurou um ministro de Estado e lhe pediu que fizesse Prado Júnior mudar de ideia.

O ministro, então, fez graça com o compositor. Queria que ele elaborasse tal pedido em forma de samba. E Sinhô, que já havia composto a música pouco antes, cantou-a baixinho:

“Minha cabrocha, a Favela vai abaixo
Quanta saudade tu terás deste torrão
Da casinha pequenina de madeira
Que nos enche de carinho o coração

Que saudades ao nos lembrarmos das promessas
Que fizemos constantemente na capela
Pra que Deus nunca deixe de olhar
Por nós da malandragem e pelo morro da Favela

Vê agora a ingratidão da humanidade
E o poder da flor sumítica, amarela
Que sem brilho vive pela cidade
Impondo o desabrigo ao nosso povo da Favela”

O ministro abriu um sorriso de aprovação e prometeu interceder junto ao prefeito. O fato é que, 88 anos depois dessa história, o Morro da Favela, como mostra a foto lá do alto, continua no mesmo lugar.

Com todo o respeito aos compositores modernos, mas não é possível que a Providência vai se esquecer de Sinhô.

jun. 17, 2015 - Crônica, Opinião    Sem comentários

Chega de desamor ao próximo

pedra

Numa dessas lindas tardes de sol, Fernandinho conversava com dois amigos sobre o “abuso” que uma certa menina andava cometendo.

– Ela passa todo dia aqui vestida de branco, com aqueles colares – disparou.
– Mas ela vai queimar no inferno – disse Augusto.
– Só que antes tem que sofrer aqui… – emendou Horácio.

O trio estava sentando sobre um banco da praça e tramava um ataque. Eram frequentadores de uma religião diferente da daquela menina e estavam empolgados com a trama. Nem perceberam que um senhorzinho, bem vestido, estava ao lado ouvindo tudo.

– Rapazes! – disse o velho, com calma, mas chamando a atenção do grupo.
– Oi, senhor. Tudo bem?
– Tudo. Percebi que vocês são religiosos…
– É. Somos…
– Posso contar uma história? – perguntou o senhorzinho.
– Conta aí… – disse Horácio, sem muito ânimo.
– Essa história está no livro de Lucas, entre os versículos 51 e 56 do capítulo 9. Vocês conhecem?

Os três se olharam, ficaram sem graça, mas Fernandinho logo desfez o embaraço:
– Claro. Mas conta aí. Afinal, o senhor quer fazer perguntas ou contar uma história? – disse, arrancando gargalhadas dos amigos.

O velho riu moderadamente e começou a falar.

– Diz lá que Jesus estava a caminho de Jerusalém e passou por Samaria, um pedaço da Cisjordânia de hoje. Acontece que judeus e samaritanos não se davam bem por causa da diferença de seus costumes e práticas religiosas. Rapazes, era uma rivalidade muito maior do que a criada entre brasileiros e argentinos, paulistas e cariocas, vocês devem saber!
– Sim, e daí? – perguntou Augusto, enquanto olhava num aplicativo da Bíblia, em seu smartphone, se a história estava lá mesmo.

O senhorzinho, paciente, continuou:

– Pois bem. Jesus pediu que mensageiros pedissem abrigo numa aldeia de samaritanos. Mas os samaritanos negaram ajuda por desconfiarem de que eles eram judeus e estavam indo para Jerusalém.
– Sempre fazem isso com Jesus – esbravejou Fernandinho.
– E vocês sabem o que João e Tiago, os apóstolos, falaram quando souberam do ‘não’ dos samaritanos?

Os três ficaram mudos, e o velho seguiu a história:
– Eles perguntaram: “Jesus, você quer que a gente mande descer fogo do céu para destruí-los?”
– Tá certo! – vibrou Horácio.
– Nada disso, rapazes. Jesus corrigiu os dois dizendo: “Vocês não sabem de que espécie de espírito vocês são, pois o Filho do homem não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-los”.

Augusto mexeu no celular de novo. Não conseguiu manter a boca fechada ao confirmar que o trecho citado pelo velho, de fato, estava na Bíblia.

O senhorzinho apoiou sua bengala no chão e se levantou, bem devagarinho. Ajeitou a camisa, acomodou seu chapéu na cabeça e antes de dar o primeiro passo, disse aos três:

– Se Jesus que é Jesus não atacou os samaritanos e nem ninguém, por que é que vocês faria isso com essa menina?

A um passo do mundo do crime, Fernandinho, Horário e Augusto sofrem de ignorância.

jun. 12, 2015 - Crônica    Sem comentários

Sobre mãos dadas

maosdadas

Bernardo conserva um ar de “sabe tudo” desde muito novo. Só que tem apenas 18 anos e uns poucos fios, distantes e finos, no rosto. Contudo, exibe a penugem com orgulho, como se fosse barba de gente grande. Ele é quase menino, quase homem e está prestes a descobrir o amor.

Sente tanta coisa que anda aflito, sem saber direito o que fazer. Por vergonha, não toca no assunto com os pais, tem receio de expor seus medos. Achou melhor recorrer à avó, que sempre lhe deu guarida e bons conselhos.

– Então, o seu problema é uma menina?
– É, vó. E ela também gosta de mim.
– E o que você quer fazer?
– Tô na dúvida. Se eu levar a sério, a farra acaba, né? Mas se eu não levar, perco ela.
– Você vai ter que escolher, meu menino. É como na vida. Ela é uma boa garota?
– É, mas não sei se o que sinto, sabe?,… se é am… amor.
– Mas o amor não é um sentimento.

O garoto, confuso, arregalou os olhos.
– Então é o quê?
– Uma decisão. A gente sente paixão, dor de barriga, vontade de gritar. Sentimento dá e passa. Amor não é assim.
– Difícil isso…
– Lembra quando você e sua prima brincavam aqui na rua, aquela brincadeira de correr de mãos dadas? Vocês saíam em disparada fazendo força pros lados até que um dos dois soltava a mão e o outro caía… Sua prima, tadinha, sempre se dava mal nessas.

Bernardo riu. As palavras da avó o fizeram voltar à infância não tão distante.
– Lembro, vó. Era legal. Minha prima sempre foi meio tonta. Mas o que amor tem a ver com isso?
– Não fala assim dela, hein! Mas entenda: a vida a dois é como aquela brincadeira. Duas pessoas dão as mãos e, juntas, saem por aí, meu menino. Elas correm, elas vão devagar, mas seguem de mãos dadas.
– Mas e se um começar a ir prum lado e outro não quiser?
– Quem decide amar pode até não querer ir pro outro lado, mas continua de mão dada. Lá na frente, eles voltam, vão para o lado que o outro quer ir ou para o lado oposto.
– Minha prima soltava a mão porque não aguentava correr como eu…
– É, eu lembro. Você corria muito. Só que na vida de quem decide amar isso não pode existir. O amor não compete, não tem orgulho, não maltrata. Quem sente, quem vive de acordo com o que sente, Bernardo, é que faz essas coisas. Quem ama não. E não faz porque decidiu que seria assim.
– Nunca pensei nisso antes…
– Você pode até se irritar e fazer força pro outro lado. Mas se decidiu amar, precisa lembrar que o amor não compete. É uma decisão, meu filho. Já que decidiu por isso, não pode fazer algo incompatível, entende? E não adianta se apenas um dos dois pensar assim. Se ela achar que amor é sentimento, um dia ela vai sentir. No outro, talvez não sinta mais.
– E se eu não quiser mais correr de mãos dadas com ela? Posso soltar?
– Bernardo, Bernardo. Quando bate essa vontade é porque algo aconteceu antes. E quando se é jovem quase tudo é vaidade. Não vale a pena. Se não há justificava, é porque você, em algum momento, se permitiu sentir algumas coisas, coisas que não são do amor. Aí, você tem que se lembrar o que decidiu lá atrás e voltar, corrigir! Eu e seu avô estamos aí até hoje…

O rapaz pensou uns segundinhos:
– Mas vocês são de outro tempo, vó!
– O passar dos anos não têm a ver com isso. Amor é amor desde que o mundo é mundo. E o tempo, meu menino, faz esquecer. O ser humano é quem faz esfriar…
– Pode ser… mas e se eu quiser soltar a mão? Você não respondeu.

A avó respirou fundo e continuou:
– A vida é uma corrida curta e veloz. É difícil soltar a mão e não levar um tombo, você sabe bem. E, às vezes, os dois caem. Mas, veja, é até possível se soltar. É comum hoje em dia. Só que você não deve nem pensar nisso.
– Por que, vó, por quê?
– Porque de mãos dadas dois são um, meu menino. E quem chega inteiro ao final dessa corrida padece menos…

Bernardo sofre de inocência.

maio 4, 2015 - Crônica    Sem comentários

Qual o tamanho do teu problema?

grito

Adalberto nunca foi ranzinza, mas naquela semana estava azedo. Tem momentos em que a vida parece girar e parar de cabeça para baixo. Uns sofrem mais que outros. Uns perdem a fé. E, às vezes, por tão pouco.

Aconteceu que Adalberto absorveu os golpes do acaso e sentiu que precisava desabafar. Foi com o primeiro que encontrou: um velho conhecido que há tempos não via. Esbarraram-se por acaso, caminhando pelas ruas do Centro da cidade.

Depois de uns minutos de papo, falando amenidades, Adalberto começou:

– Cara, essa vida não é fácil. Só essa semana chegaram três multas lá em casa.
– Três?
– É! É essa indústria da multa, sabe? Não aguento mais isso!
– Sei como é…

E Adalberto continuou com sua metralhadora de reclamações. Contou que estava gastando muito dinheiro com remédios para o cachorro, que uma vizinha ruim de roda batera na traseira de seu carro ao dar ré e que na viagem que acabara de fazer teve de esperar oito horas por uma conexão.

O ouvinte ficou lá, parado, prestando atenção. Taciturno, apenas balançava a cabeça. Quando Adalberto terminou de falar, o homem lhe fez um carinho no rosto, dando-lhe uns tapinhas bem leves e vagarosos em uma das bochechas, como aqueles que um pai dá no filho para dizer em seguida: “Bom garoto”.

Adalberto riu do gesto. Considerou o ato de extrema e inesperada solidariedade. E o homem abriu a alma:

– Perdi esposa e filho naquele acidente de avião há uns meses, sabe?…

Adalberto sofre de egoísmo.

abr. 29, 2015 - Crônica    Sem comentários

O choro carioca

desabamento do Edifício Liberdade, matou 17 pessoas e deixou 11 desaparecidas.

Amanhã, 27 de janeiro de 2012, completo dez anos de profissão. Sou jornalista, repórter com muito orgulho. Há dez anos, entrei pela primeira vez numa redação de jornal. Seria estagiário. Tem tempo que penso em escrever sobre isso. Já tinha até organizado umas frases. O texto, acredito, ficaria legal. Mas… veio o Liberdade. Eu estava longe da Cinelândia na hora do acidente, mas é inegável: o Liberdade também caiu sobre mim, com o perdão da metáfora.

Quando me preparava para deixar a redação, ouvi a notícia do desabamento. Não quis prestar atenção. Lembro de, em silêncio, comigo mesmo, só ter pedido que não fosse nada grave. Mas era.
Em dez anos, eu acompanhei muita coisa de perto. Perdi as contas dos enterros que cobri. Mas nunca me esqueci do de um menino do Morro dos Macacos, que levou um tiro de fuzil nas costas enquanto jogava bola. No sepultamento, no Caju, quando o caixão mais pobre que já vi se preparava pra entrar numa caixa de cimento, a mãe do menino mandou abri-lo. O tiro que atingiu as costas dele saiu pelo peito e uma macha de sangue na camisa denunciava que até na morte faltou cuidado com o pobre garoto. Em seu último ato diante do filho, a mãe calçou as chuteiras nele. Ele sonhava ser jogador de futebol.

Perdi as contas também dos corpos que vi pelos becos e ruas dessa cidade que tanto amo, dos desabamentos de encostas. Lembro perfeitamente de duas chacinas que cobri. Uma na Zona Oeste do Rio. Era uma família inteira, inclusive, um menino de uns 12 anos. Mortos à faca. A outra foi a do Morro do Estado, em 2005. Cinco jovens mortos a tiros pela PM.

Repórter cria uma casca, sabe? A nítida visão da crueldade do homem altera qualquer um. Acompanhar de perto o que ele é capaz de fazer ou fez, te furta o direito de se surpreender. O mais intrigante é que não acontece só com quem vê de perto.

Pense. Em 11 de maio de 1954, o jornalista Nestor Moreira, do extinto A Noite, envolveu-se numa confusão numa delegacia de Copacabana e levou uma surra de um policial. Morreu 11 dias depois, vítima de uma hemorragia interna. O cortejo dele, acredite, foi na Rio Branco. Os jornais da época contaram que as pessoas levaram velas acesas e demoraram duas horas para passar pela extensa avenida. A cidade chorou e quis dar seu apoio, mostrar seu repúdio. Décadas depois, não se vê mais tamanha manifestação. O carioca criou sua casca. O país também.

Passamos a culpar os políticos, mas nos esquecemos que nós, a sociedade, os elegemos. Culpamos a polícia, mas somos nós que pagamos propina para não ter o carro apreendido por falta de pagamento de imposto. Culpamos os bandidos, mas nós que subimos os morros para dar dinheiro a eles em troca de uma droga qualquer. Somos nós, a sociedade, que fazemos uma obrinha irregular para poupar um dinheirinho e…

De uns tempos para cá, a cidade e o estado do Rio têm sido castigados demais. Num curto espaço de tempo, uma triste sequência de fatos, alguns afiados feito punhal, que cortam nosso coração como se fosse papel. Um misto de culpa dos outros e ajudinha da sociedade. Mas quem sofre mesmo somos nós.

Há dois anos, as chuvas varreram morros e vidas de Angra, Ilha Grande, o do Bumba, em Niterói. Em 2011, a tragédia da Serra. Vimos políticos acusados de incentivarem construções em áreas de risco e mais: de desviarem dinheiro da reconstrução das cidades. Nós os elegemos.
Um jovem entrou numa escola e matou 12 brasileirinhos. Nós vendemos a arma pra ele.
Um bueiro da Light incendiou dois turistas num dos nossos bairros mais famosos. Um restaurante na Praça Tiradentes simplesmente explodiu. Tivemos mais mortes na Serra este ano, mais famílias perderam tudo.

Agora, um edifício de 20 andares cai, derruba outros dois e enterra ali mesmo as sonhos de alguns cariocas. Não perdi nenhum amigo ou parente. Mas chorei. Chorei pelo Rio, pela minha cidade, que mais uma vez se veste de preto. A casca amoleceu.

A cena das pessoas correndo desesperadas pela Avenida 13 de Maio me faz sentir o prédio desabar. Ontem à noite, vendo TV, eu mesmo desmoronei. Sempre associei aquele trecho da cidade ao movimento das pessoas, à correria do dia-a-dia por trabalho, uma vida melhor e até mesmo à calmaria que os mendigos buscam à noite para dormir. Ali depois das 18h, os chopes brilham. Em fevereiro, aquele pedaço do Rio fica colorido, alegre que só. É triste notar o contraste dos tempos. O Rio, cidade predestinada a distribuir alegria, não merece isso!

Com tantos problemas, tem gente que acha que a única saída é o aeroporto. Seria bom se tomassem logo esse caminho. O Rio precisa de gente que o ame e cuide dele. Com tantos problemas, pensei se não era o caso de adiarem o carnaval. O Rio já fez isso antes, quando da morte do Barão do Rio Branco (1912).
Mas não. A vida não para. A cidade também não pode. Tem que manter sua economia aquecida e mais: precisa voltar a sorrir.

Enquanto as pessoas refletem sobre seus erros e tentam ser melhores, corretas, resta pedir socorro. Antes de dormir, todas as noites, agradeço a Deus pelo dia e peço sua misericórdia. É que sempre tento fazer o melhor, só que, por vezes, erro. É como se eu dissesse: “Deus, Deus, eu errei. Sou humano. Não me deixe ser castigado”. Entende o pedido?
Pois bem, ontem, insisti que Ele também tivesse misericórdia do nosso Rio de Janeiro. A Cidade Maravilhosa já sofreu demais e agora veio o Liberdade. Seja qual for a sua fé, tente fazer o mesmo esta noite. Não por mim, pelo Rio.

***
Texto publicado no Facebook em 26 de janeiro de 2012.

abr. 26, 2015 - Crônica    Sem comentários

A pureza da resposta das crianças

criancas_brincando

Ricardo estava apreensivo. É que seu filho, Juninho, em poucos dias completaria oito anos. Ricardo queria dar ao garoto um grande presente, mas não sabia exatamente o quê. Tinha que ser algo que deixasse o menino radiante. Aquela criança era a maior fonte de alegria dele e da mulher, Carla. E os dois, juntos, passaram noites e mais noites pensando no tal presente.

– Bola nem pensar. Ele já tem um monte. Da nike, da adidas, todas..
– É. E se a gente desse um iPhone 6? Tem coleguinha no colégio dele que tem…
– Não sei – disse Carla, pensativa.
– Pensei num helicópetro com controle remoto ou um daqueles carrinhos elétricos que ele pode dirigir…
– E se fosse algo do Ben 10?
– Uma bicileta nova. É bom que incentiva o esporte. E tem bicicleta do Ben 10!
– Não sei. Nada me parece bom!

O casal, aflito, perdeu mais uma noite pensando. Carla entrou na pilha de Ricardo. É que ele não tivera muito na infância e adolescência. Vivia dizendo que daria ao seu miúdo tudo o que ele não pode ter, que nunca nada faltaria ao menino. E, com determinação e esforço, cumpria suas palavras.

Eles decidiram que, no fim de semana, iriam numa dessas lojas de brinquedos para ver algum presente. Mas Carla teve outra ideia:
– Por que a gente não pergunta ao Juninho o que ele quer?
– E se ele pedir um iPad?
– A gente compra o melhor que tiver, amor…

No final dia seguinte, quando Ricardo chegou do trabalho, os dois tocaram no assunto com o menino. Fizeram com jeito, escondendo a ansiedade pela resposta.
– Ah, filho… seu aniversário está chegando!
– Eu sei, papai. É mês que vem, não é? Eu sei, eu seeeeeei.
– Isso, filhão! E… o que você quer ganhar? Diz pro papai!

Juninho estava jogando videogame. Parou e ficou pensando. Coçou a cabeça, riu, olhou para o pais. Ricardo e Carla não tiraram os olhos do garoto nem por um instante.

Ele se levantou do sofá, deu uma corridinha em volta da mesa da sala e voltou a encarar os pais.
– Já sei. Quero duas coisas… Duas, duas, duas!!! – disse, fazendo o número dois com uma das mãos.

A mãe abriu um sorrisão. O pai fechou os olhos. “Ele vai querer um outro iPhone. Todo mundo na escola já tem o 6. Vai ser bom, pois ele vai ter mais tecnologia de ponta nas mãos, para se desenvolver”, pensou.

E Juninho, simples como toda criança, contou o que mais queria:

– Um bolo de brigadeiro e um abraço quentinho!

Ricardo e Carla sofrem de dor do crescimento.

mar. 31, 2015 - Botequim, Crônica    Sem comentários

O ladrão de coxinha

Gema_coxinha

O sujeito chegou no Bar da Gema, na Tijuca, e pediu uma coxinha de galinha. Era uma terça-feira, o único dia da semana que a casa serve esse pedaço de frenesi. Só que já não tinha mais. Uns acham que o boteco “não se prepara”. Não é isso. A massa da coxinha do Da Gema é feita no dia. Jamais é congelada. Leva muito leite e pouca farinha. Isso garante o sabor incomparável. Mas é preciso ter muito braço para preparar os quitutes a ponto de atender a todos os pedidos. Nem sempre dá.

O sujeito ficou amuado. Normal. Esperou a semana inteira, mas não beliscou a saborosa. Para não perder a viagem, pediu cerveja e pastéis. Mal sabia do que estava por vir.

É que o Da Gema é daqueles bares frequentados por um público fiel, gente que vai toda semana e costuma ligar antes para reservar… coxinha.

Foi o que aconteceu naquela terça. Um cliente chegou, cumprimentou a Luiza, o Leandro e se sentou, não colado, mas próximo ao sujeito amuado. Dez minutos depois, como naqueles filmes românticos, nos quais a cena segue em câmera lenta e uma moça bonita anda, graciosa, em meio à fumaça, um dos garçons trouxe, numa bandejinha, a tal da coxinha.

Despertou naquele homem os mais diversos sentimentos. “Acabou e agora tem? Como assim?”. Sem encontrar a resposta para as perguntas que surgiram naqueles segundos e sem conseguir conter a fúria que lhe tomara de assalto o sossego, o ex-amuado se levantou, foi na direção do garçom e… “passa pra cááááááá”.

Isso mesmo. O cara, em pleno salão do Da Gema, roubou, na maior mão grande, a coxinha alheia. Com a inigualável nas mãos, ele voltou para a mesinha onde estava. A plateia ficou incrédula. O homem se sentou, mantendo o olhar fixo no garçom, que estava estático, perplexo, sem reação. Depois olhou para o cliente. Olhou para os demais e… “nhac”… saciou a fome de comer a coxinha do Da Gema. Ninguém falou nada.

O que se diz é que foi depois desse episódio que o Leandro e a Luiza resolveram pintar, numa parede do bar, justamente onde o ladrão de coxinha estava sentado, um verso do profeta carioca: “Gentileza gera gentileza”.

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Mês passado, completaram-se dois anos que essa coxinha dá sabor às nossas terças. Valeu, Da Gema!

fev. 27, 2015 - Crônica    Sem comentários

Tardes no consultório

idosa

Foi só Dona Efigênia entrar no hospital para provocar risinhos nas recepcionistas. Não era deboche, não. Nem desdém. Elas apenas achavam graça da quantidade de vezes que aquela senhorinha aparecia lá.
Dona Efigênia já passou dos 80 anos, é bem vovozinha, daquelas que anda com certa dificuldade, mas que não se entrega. Vive dando suas caminhadas. E ao hospital, ia, pelo menos, três vezes por semana.

– Doutor Felipe, por favor, minha filha… – disse ela.

Já sabiam que ela procuraria pelo tal médico. Ela sempre fazia isso.

“Será que ela é apaixonada pelo doutor Felipe? Mas ela parece ser bisavó dele!”, disse uma delas, certa vez.

“Ou será que o doutor lembra um filho dela que morreu há anos? Às vezes, ela mata a saudade assim”, imaginou a outra.

A cada visita da vovozinha, elas matutavam um outro motivo para as seguidas aparições de Dona Efigênia. E a idosa sempre pedia para ser atendida pelo doutor Felipe. E isso há tempos. Desde que levou um tombo na rua e foi parar na emergência. Naquela vez, dr. Felipe estava de plantão e a atendeu. Foi por acaso.

“Eu acho que ela é bem rica e sem filhos. Nunca a vi com ninguém aqui! Deve estar procurando alguém para deixar a herança”, conjecturou uma delas.

“Que nada, menina! Se fosse isso ela já teria feito. Eu acho que eles se conhecem de outra vida”, supôs a outra.

“Ai, não fala isso que fico toda arrepiada…”

O fato é que, naquele dia, o doutor Felipe não tinha ido trabalhar.

– Não veio? Hoje é dia dele, minha filha! – insistiu Dona Efigênia.
– Sim, mas o doutor teve um probleminha. Só semana que vem. Mas o que a senhora está sentindo hoje? Eu posso te encaminhar para outro médico – sugeriu.

Dona Efigênia já apareceu no hospital com todo o tipo de dor. Por causa do tombo, foi muitas vezes reclamando do joelho. Mas já se queixou dos ombros, dos dedos das mãos, do pescoço, das orelhas. Certa vez garantiu que estava ficando cega. Noutra, suspeitou estar com Aids.

– Aids, Dona Efigênia? Como teria acontecido isso? – exclamou Felipe, aos risos, numa das consultas.
– As doenças também evoluem, o doutor não acha?

As consultas de Dona Efigênia eram demoradas. Geralmente, o paciente não passava mais de dez minutos no consultório. Mas Felipe a recebia por cerca de meia hora. Gentilmente, sempre terminava a consulta dizendo:

– Fique tranquila, Dona Efigênia. A senhora está bem, muito bem. Mas agora preciso atender outros pacientes…

A notícia de que seu médico não estava lá naquela tarde paralisou a vovozinha por uns segundos. E ela respondeu à pergunta da recepcionista aparentando dolorosa decepção:

– Nada minha, filha.
– É no joelho outra vez? Dr. Carlos é muito bom e está aqui hoje…
– Não, não…
– É na cabeça? Dra. Cíntia é a melhor da região.
– Já passou, menina – disse a idosa, virando o corpo em direção à porta de saída.

Não falou mais nada, nem olhou para trás. Saiu cabisbaixa, tristinha.

Dona Efigênia sofre de solidão.

fev. 9, 2015 - Crônica    Sem comentários

A redenção

reencontro

Era daquelas noites que até se tem esperança de algo, mas não tanta. Só que o que aconteceu com ele foi totalmente inesperado. No meio daquelas dezenas de pessoas que curtiam a música, viu quem pediu a Deus para nunca mais ver.

Todo fim é complicado. Aquele fora demais.

Eles viveram uma versão tupiniquim da ‘Commedia dell’Arte’, o clássico italiano do século XVI, que nos apresentou Pierrô e Colombina… e, claro, Arlequim.

A Colombina carioca ficou dividida entre dois, e ele não suportou a dúvida. Perguntava-se a todo instante: Como pode? Depois de tanta coisa ela ainda tem dúvida?

Pensou duas, três vezes. Firmou convicção. Decidiu acabar tudo, dizendo que era para preservar o coração. Fora um rompimento daqueles sofridos.

Ele tinha consciência de que ela era ele em versão feminina. Ela dizia o mesmo. Ainda assim, o fim.

Mas ele cumpriu, ou ao menos tentou até aquele dia, sua promessa: nunca mais a veria, nunca mais a procuraria, nunca mais lhe daria seu carinho.

Entre o adeus chorado e aquela noite se passaram dez anos. Tanto ele, quanto ela deram rumo à vida. Embalaram outros relacionamentos, terminaram todos eles e, enfim, reencontraram-se. Não sabiam. Mas, ali, eram livres. Ambos.

Quando ele olhou para ela, ela não estava olhando para ele. Isso aconteceu umas cinco vezes. Parecia um imã, mas com certo atraso. E ela olhou para ele, mas ele olhava para outro lado.

Ele tratou de se afastar. Queria evitar que se esbarrassem, que cruzassem o olhar. Trazia ainda no peito uma coisa mal resolvida.

Achava que ela não o tinha levado tão a sério, que não tinha respeitado tanto amor. Ela era mais leve. Não pensava nisso.

– Besteira! Por que não ir falar com ela? Já se passaram dez anos… – pensou.

Tinha na consciência que mágoa é algo que não se pode deixar no coração. Pois ela, primeiro, faz mal a quem a guarda. O perdão é libertador. Esquecer, um sonho.

Tomou coragem. Olhou para trás, só que ela não estava mais lá. Ironia pura da vida, digna de comédia romântica. Mas não demorou, não. Há coisas que precisam acontecer, queira o homem ou não.

Ele a viu novamente. E de longe deu um sorriso. Ela murmurou algo para a amiga do lado. Ele, como se nunca tivesse esquecido os jeitos dela, como se mantivesse intacta a velha intimidade, leu seus lábios.

– Ai… – ela suspirou.
– Que foi? Viu seu ex-namorado aqui?
– Não. É mais que isso. É um amor antigo.

Foi a redenção.

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