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ago. 12, 2015 - Música, Opinião, Crônica    Sem comentários

Morro da Providência, de Sinhô a Cazuza

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Quando uma ameaça de demolição caiu sobre o Morro da Favela, no Centro do Rio, hoje chamado de Morro da Providência, quem saiu em seu socorro foi o samba. O assunto acirrou os nervos de muita gente na segunda metade da década de 1920, época em que o prefeito Antônio Prado Júnior (1880-1955) entregou ao urbanista Alfred Agache (1875-1959) a missão de remodelar o Rio. Logo o Rio, que já tinha passado por algo parecido em 1922, quando outro prefeito, Carlos Sampaio (1861-1930), começou a demolir o Morro do Castelo, também no Centro. A ferida ainda estava aberta no coração dos cariocas.

Lembrei disso tudo ao ler a nota que saiu hoje na coluna Ancelmo Gois, no GLOBO, sobre a ideia de uns moradores de decorar uma escadaria no Morro da Providência, tal como a Selarón, na Lapa.

Eles pretendem colocar nos degraus da escadaria versos de cantores como Renato Russo e Cazuza. Ao que tudo indica, esqueceram-se de Sinhô. Sei que na comunidade muita gente lembra das histórias do primeiro Rei do Samba, amado por uns, odiado por outros. Até hoje é assim, 85 anos depois de sua morte, completados no último dia 4.

Diferenças à parte, o fato é que, em 1927, Sinhô compôs “A Favela vai abaixo”, gravada por Francisco Alves (1898-1952), um dos cantores mais populares da época.

O jornalista e cronista Francisco Guimarães (1875-1946), que trabalhou em diversos jornais do Rio, conta ter o ouvido o seguinte de Sinhô:

– Meu Tio Guima, eu escrevi esse samba em represália aos muitos que há por aí dizendo mal da Favela, que eu tanto adoro. Ela vai abaixo e eu lhe dou o meu adeus, deixo gravada a minha saudade e a minha gratidão àquela escola onde eu tirei o curso de malandragem.

E Edigar de Alencar (1908-1993), biógrafo de Sinhô, acrescenta, no livro “Nosso Sinhô do samba”, que o bamba fez ainda mais: tomou as dores dos moradores e foi interceder pela não demolição. Procurou um ministro de Estado e lhe pediu que fizesse Prado Júnior mudar de ideia.

O ministro, então, fez graça com o compositor. Queria que ele elaborasse tal pedido em forma de samba. E Sinhô, que já havia composto a música pouco antes, cantou-a baixinho:

“Minha cabrocha, a Favela vai abaixo
Quanta saudade tu terás deste torrão
Da casinha pequenina de madeira
Que nos enche de carinho o coração

Que saudades ao nos lembrarmos das promessas
Que fizemos constantemente na capela
Pra que Deus nunca deixe de olhar
Por nós da malandragem e pelo morro da Favela

Vê agora a ingratidão da humanidade
E o poder da flor sumítica, amarela
Que sem brilho vive pela cidade
Impondo o desabrigo ao nosso povo da Favela”

O ministro abriu um sorriso de aprovação e prometeu interceder junto ao prefeito. O fato é que, 88 anos depois dessa história, o Morro da Favela, como mostra a foto lá do alto, continua no mesmo lugar.

Com todo o respeito aos compositores modernos, mas não é possível que a Providência vai se esquecer de Sinhô.

maio 30, 2015 - Música    Sem comentários

Samba do Trabalhador: dez anos depois

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O ano é 2065. O Rio de Janeiro está completando 500 anos, e todos os jornais, claro, publicam matérias e mais matérias sobre a data. Um deles escreveu sobre os grandes eventos do Rio, e aquelas linhas  alimentaram a conversa de dois senhores que assistiam à vida passar, sentados num banco da Praça Saens Peña, na Tijuca.

– Olha aqui! Essa matéria aqui está falando do Samba do Trabalhador!
– É mesmo? Passa pra cá.
– Você lembra como tudo começou?
– Claro. Foi em 2005, né?
– Xi… muito tempo. Sessenta anos, mermão!
– Lembro bem. No início foram umas 40 pessoas, só bamba de primeira…
– Moacyr, Toninho Geraes, Luciano Macedo, Marquinhos de Oswaldo Cruz, Tantinho da Mangueira, Bandeira Brasil, Luiz Carlos da Vila, Ratinho, Camunguelo. A lista é grande!!!
– Que timaço! E era de graça. Só quando passou a encher é que começaram a cobrar uma merreca de entrada.
– Dá pra imaginar? A gente pagava R$ 10, R$ 15 pra ouvir o Moa, o Gabriel Cavalcante, o Abel, aquele violão bonito do Daniel Neves…
– E a rapaziada da percussão? Júnior de Oliveira, Luiz Augusto, Nilson Visual…
– E teve aquela turma que chegou depois: Mingo Silva, Alvaro Santos. Pandeiraço inesquecível!
– E o Alexandre Nunes, sambista de primeira, com aquela voz rouca e rara.
– Fora as canjas! Lembro bem de quando o Éfson ia lá direto, e o Denny de Lima também!
– Po… Bira Presidente, Ubirany, Sereno, Luiza Dionizio, Zezé Motta… Ah, e a Teresa Cristina, sempre maravilhosa!
– Quinze reais, mermão!! Dá pra acreditar? E tudo isso pertinho de casa.
– O Samba do Trabalhador mudou o sentido da segunda-feira e salvou o Renascença. Sucesso fulminante!
– E aquelas moças formosas em volta da roda, cantando junto…
– Coisa linda, né? Parece que foi ontem.
– É, mas lá se vão 60 anos!
– Você lembra do dia em que o Aldir Blanc e o João Bosco foram lá?
– Claro. Foi logo na terceira segunda. Depois disso é que virou moda.
– “Caíííííía a tarde feito um viaduto/ E um bêbado trajando luto…”
– Eita saudade!
– Segundas sem fim. Muitos amores, muita música boa…
– E os amigos, né?
– A rapaziada fechava junto.
– É! Quem não conseguia chegar a tempo, ia pro Momo depois…
– A segunda entrava pela terça-feira.
– Aaaaaiiiiiiii!
– Aquele, sim, era tempo bom de viver.

Hoje, exatamente hoje, o Samba do Trabalhador completa dez anos, e o valor da entrada continua sendo R$ 15. Moa continua dividindo a mesa com os craques Daniel Neves, Alexandre Nunes, Gabriel Cavalcante, Alvaro Santos, Luiz Augusto, Nilson Visual, Júnior de Oliveira e Mingo Silva.

A história ainda está sendo escrita. A cada segunda-feira um novo capítulo deita sobre páginas em branco na memória de quem toca, canta ou apenas entra no quintal do Rena para aplaudir.

Ao mais importante movimento cultural carioca surgido nos anos 2000, eu desejo vida longa!

Parabéns, Samba do Trabalhador! Depois de amanhã tem mais… dez anos depois!

***

A foto acima foi feita, por Candido Spinelli, no primeiro dia da roda, em 30 de maio de 2015. Da esquerda para a direita, à mesa, estão Toninho Geraes, Marquinhos de Oswaldo Cruz e Moacyr Luz.

maio 29, 2015 - Música, Coleguinhas    Sem comentários

Os 80 anos de João Máximo

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A paixão pelo futebol fez o friburguense João Máximo trocar a carreira de dentista pela de jornalista. Ao entrar na Tribuna da Imprensa, em 1961, quando tinha 25 anos, Máximo nem imaginava, mas sua vida mudaria completamente. Além de jornalista esportivo, tornou-se pesquisador, crítico musical e escritor.

Hoje, João Máximo completa 80 anos (a foto acima é da festa surpresa que fizemos para ele, ontem, no GLOBO), e este blog abre alas para contar um pouco sobre o coautor de “Noel Rosa, uma biografia”. O livro foi escrito com Carlos Didier e publicado em 1990, pela UnB. Mas por causa de um divergência com as herdeiras do Poeta da Vila, só teve uma edição, o que o tornou raro e ainda mais especial. Para se ter uma ideia, uma exemplar chega a custar R$ 700 em alguns sebos.

Foi o primo Zuenir Ventura, jornalista e hoje membro da ABL, que o incentivou a trabalhar na Tribuna da Imprensa.

– Comecei a falar com ele sobre futebol, criticando as páginas esportivas, disse que ninguém sabia nada. Aí ele me disse: “por que você não vai escrever lá na Tribuna?”. Eu fui e muito rapidamente aprendi que não sabia nada de jornalismo, de escrever e de coisa nenhuma. Mas me apaixonei pela atividade de jornalista – conta Máximo.

A CARREIRA
Entre 1961 e 1963, João chegou a ter três empregos ao mesmo tempo “Tribuna da Imprensa”, “Jornal dos Sports” e “Rádio Continental”, para a qual escrevia programas de esporte.

Em seguida passou por “Jornal do Brasil” (1963-1969), “Correio da Manhã” (1969-1971) – “Para o Correio, eu levei uma equipe de jovens do JB: Fernando Calazans, Márcio Guedes, Roberto Porto, José Trajano… Era tudo garoto” -, Grupo Manchete/Bloch (1971-1976), “Jornal do Brasil” (1976-1992), “O GLOBO” (1992-1993) e “Folha de São Paulo” (1993-1994). Após a Copa do Mundo de 1994, João Máximo retornou ao “O GLOBO”, onde está até hoje.

Nesse tempo, esteve em seis Copas do Mundo: 1966, na Inglaterra; 1970, no México; 1982, na Espanha; 1994, nos EUA; 1998, na França; e 2014, no Brasil.

A MÚSICA
A paixão maior é por esportes, mas João tem os pés na música também.

– Eu costumava dizer que de futebol eu entendo e de música eu gosto. Estabelecendo a diferença que eu não sou um musicólogo. Sou um apaixonado por música.

 

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Dentre os cerca de dez livros que ele escreveu, destaco a biografia de Noel. No vídeo abaixo, João fala sobre Josefina Teles, a Fina, musa inspiradora de Noel Rosa na música “Três apitos”. É aquela que diz: “Quando o apito/ da fábrica de tecidos/ vem ferir os meus ouvidos/ eu me lembro de você…”

A tal fábrica (acima) é hoje uma filial supermercado Extra, na Av. Maxwell, em Vila Isabel/Andaraí.

As relações do poeta com Lindaura, com quem se casou, e com Ceci, a Dama do Caberé, são conhecidas. Aqui, Máximo fala um pouco sobre a Fina, que também inspirou Noel a compor “Riso de criança”. Um trecho: “É a última homenagem/ Que eu vou fazer a você/ seu riso de criança/ que me enganou/ está num retratinho/ que eu guardo e não dou…”

– Marcou mais ou menos ele. Não teve a dimensão da paixão pela Ceci. Mas ele gostou muito dessa menina…

Viva Noel! Viva João! Viva o amor!

 

 

abr. 15, 2015 - Música    Sem comentários

O bêbado e a equilibrista

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“O bêbado e a equilibrista” é um clássico da MPB. Todo mundo sabe. Mas lá nas esquinas da Tijuca, na Zona Norte do Rio, tem gente que costuma dizer que essa é a maior música da MPB já escrita na… Tijuca. Não é coisa de bairrista. É verdade mesmo.

Lembrei disso por causa da nota que saiu, dia 9, na coluna Ancelmo Gois, no GLOBO (abaixo). A notícia contou que o Bar do Momo disputa o “Comida di Buteco” com o sanduíche “O bêbado e a equilibrista”, uma homenagem a Aldir Blanc e João Bosco, autores deste clássico da nossa música.

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Aldir é quase vizinho do boteco. E foi no antigo apartamento dele, no finalzinho da Av. Maracanã, que escreveu os lindos versos. Começa assim, você sabe: “Caía a tarde feito um viaduto/E um bêbado trajando luto/Me lembrou Carlitos/ A lua tal qual a dona do bordel/Pedia a cada estrela fria/Um brilho de aluguel…”

Aliás, foi o compositor que fez a imprensa descobrir o boteco tijucano, anos e anos atrás. Vem daí tanto carinho, coisa de décadas.

Dia destes, pedi que ele contasse a história da música. Lá vai:

– João disse que tinha uma “bomba”, um samba em homenagem ao Chaplin, que ele adorava. Eu fui ouvir o samba na casa dele e voltei encucado, achando que, para a letra, faltava alguma coisa. Me veio a ideia de Carlitos como um marginal, um outsider e perguntei ao João o que ele achava da letra englobar os exilados como figuras chaplinianas. Ele topou de cara e gol.

Aldir explica ainda:

– Nasceu rapidinho, em dias. Como costuma acontecer com as “grandes”, a letra atropelava minha mente e nem dava tempo de correr pro caderno.

Ali, num apartamento perto do Bar do Momo, “O bêbado e a equilibrista” ganhou letra e, de lá, saiu Brasil a fora dançando na corda bamba.

O SUCESSO…
“O bêbado e a equilibrista”, a música, foi considerada, no fim dos anos 1970, um hino da luta pela democracia, pela abertura do país, pela volta dos exilados.

Ela foi feita logo depois do Natal de 1977, quando Charlie Chaplin morreu. João Bosco queria homenagear o artista inglês, de quem é fã. Ele, então, compôs a melodia e a entregou para o Aldir.

O mestre dos versos contundentes e rascantes só se lembra de ter feito a letra rapidamente. Não se recorda se foi ainda no fim de 1977 ou no início de 1978. A canção foi lançada em 1979. João Bosco a registrou em seu disco “Linha de passe”, e Elis Regina, no “Elis, essa mulher”. E foi a magistral interpretação da cantora que colocou a música na história. Isso todo mundo sabe. Assim como a parte da “volta do irmão do Henfil”.

Na foto lá do alto, Aldir aparece com o pai, Ceceu, na porta do botequim, em setembro de 2006. A foto é de Salvador Scofano/EXTRA.

fev. 12, 2015 - Música    Sem comentários

Feito um beija-flor

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Conhecido pelas rodas do Samba do Trabalhador e do Samba da Ouvidor, Gabriel Cavalcante se propôs a fazer algo diferente: cantar seu repertório particular.

No show que ele apresenta no Paris Show, na Casa Julieta de Serpa, no Rio, Gabriel, um jovem músico de 28 anos, canta Dori Caymmi, Paulo César Pinheiro, Wilson das Neves, Aldir Blanc, Baden Powell. Canta sucessos de Nana Caymmi e de Dolores Duran. Quem com a idade dele canta Dolores Duran?

É um repertório particular, já disse. Apesar de ter Paulo César Pinheiro e Wilson das Neves, Gabriel da Muda canta algo diferente do que apresenta em roda. Sim, também tem “Som de prata”, de Moacyr Luz, que Gabriel gravou no segundo DVD do Samba do Trabalhador.

Mas o restante é, reunido assim, único. O lugar também. Acrescido da grave voz desse menino talentoso, o show é algo pra lá de especial. Ainda mais com a participação luxuosa de João Camarero, Marcos Tadeu, Fernando Leitzke e Marcelo Muller.

“Só sabe de amor e saudade quem já ficou só/ Saudade, eu tenho saudade/ Mas não de contigo voltar/ Eu vivo sentindo saudade… de amar”.

É, ele canta essa, do Dori e do PCP. É o tom, sabe? Às vezes, é de cortar o pulso. Mas Gabriel, lá do alto, na penumbra do palco, logo te socorre. Não se preocupe. Deve-se apenas viver.

Nesse show, assim, sem pretensão, Da Muda expõe o que canta para amigos e familiares, em meio aos mil e um sambas que guarda na cabeça.

Alcança quem ama, quem quer amar e quem já não ama mais ninguém.

Gabriel Cavalcante resgata músicas que andam esquecidas, algo semelhante com o que faz nas mágicas tardes e noites na Ouvidor, a rua mais importante do Brasil.

Um desses resgates é “Não vim pra ficar”, de Paulo César Pinheiro e Wilson das Neves. Traz o discurso de um cara desinteressado por novos relacionamentos, mas que conserva, lá no fundo, o desejo da manter a velha chama. E ele confessa: “Não vim pra ficar/ Não me guarde uma escova de dentes, não vou pernoitar/ Não faz cópia da chave, não quero invadir o seu lar/ Quero vir como sempre, feito um beija-flor”.

Uma querida amiga diz que o protagonista dessa música é um filh… você sabe. Eu o acho sincero. No vídeo abaixo, Gabriel canta essa história. O que você me diz?

Aliás, o último show dele lá na Julieta de Serpa é hoje. Embora seja o desfecho da série de três apresentações, não me resta dúvida: Gabriel Cavalcante – e já tem tempo que mostrou isso – veio pra ficar.

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fev. 3, 2015 - Música    Sem comentários

Velha guarda da caneta

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Chegando na Redação do GLOBO, ontem, tive uma grata surpresa. Dei de cara com Zé Katimba e Noca da Portela, consagrados compositores da música que o Rio de Janeiro inventou.

O Noca eu conheço mais de perto. Somos, inclusive, parceiros. Eu, ele, Genilson Junior, Pedrinho da Muda, Mario Oliveira e JP disputamos, certa vez, o samba de um bloco. A vitória não veio. Mas a honra da parceria é eterna.

Zé Katimba é famoso por “Martim Cererê”, samba que ele fez com Gibi, em 1972, para a verde e branca de Ramos. É dele também, com João Nogueira, “Do jeito que o rei mandou”: “Sorria que o samba mata a tristeza da gente…”.

Noca é compositor de inúmeros sucessos. Tem gente que canta, diverte-se e nem sabe que a música é deste nobre portelense. É o caso, quer ver?, de “Caciqueando”: “Olha, meu amor/Esquece a dor da vida/ Deixa o desamor…”

A que eu gosto mais é “Peregrino”, um homenagem a Jesus. Diz no fim: “Ninguém vive feliz se não puder falar/ E a palavra mais linda é a que faz cantar/ Todo samba, no fundo, é um canto de amor”.

O que me impressiona nesses dois é a vitalidade. Os dois nasceram em 1932. Têm hoje 82 anos. E este ano, a Imperatriz Lepoldinense desfila com uma música do Zé e dos parceiros dele. Já a Portela leva à Avenida uma do Noca e cia. Oitenta e dois anos, amigos e amigas.

Mesmo quando a saúde fraqueja, o Noca mantém o bom humor. Recentemente, ele estava internado. Liguei preocupado. E ele:

– O velho é madeira boa, Daninho. Não quebra assim não.

Graças a Deus!

E ontem, quando nos despedimos, ele ainda me provocou:

– Quando você vai tomar um chá de macaco com o nego velho aqui? Passa lá no cafofo…

Seria lindo se gente da minha idade fosse tão animada, produtiva e criativa como esses dois. Noca me ensina que velhice não é questão de idade.

out. 8, 2014 - Música    1 Comentário

‘Vem, morena’ no metrô do Rio

Veja que sorte. Hoje cedo peguei o metrô para chegar ao Centro do Rio, e três músicos entraram com seus instrumentos no mesmo vagão. Como se quisessem colaborar com o ‪#‎vivaopovonordestino‬ , cantaram “Vem, Morena”, do grande Luiz Gonzaga (veja o vídeo). São independentes, não faziam parte de nenhuma ação da concessionária. Lá estavam, além de batalhando o pão do dia, oferecendo o som que encanta. Todo mundo aplaudiu.

A música brasileira (não falo da que é cantada por brasileiros, refiro-me à música essencialmente brasileira, como a de Gonzagão) é ladra da tristeza, algoz da dor. Ao menos, pra mim. 


Vem, morena, pros meus braços
Vem, morena, vem dançar
Quero ver tu requebrando
Quero ver tu requebrar
Quero ver tu remexendo
‘Resfulego’ da sanfona
‘Inté’ que o sol raiar

Esse teu fungado quente
Bem no pé do meu pescoço
Arrepia o corpo da gente
Faz o ‘véio’ ficar moço
E o coração de repente
Bota o sangue em ‘arvoroço’

Vem, morena, pros meus braços
Vem, morena, vem dançar
Quero ver tu requebrando
Quero ver tu requebrar
Quero ver tu remexendo
‘Resfulego’ da sanfona
Inté que o sol raiar

Esse teu suor ‘sargado’
É gostoso e tem sabor
Pois o teu corpo suado
Com esse cheiro de fulô
Tem um gosto temperado
Dos tempero do amor
Vem, morena, pros meus braços…

Dos tempero do amor
Vem, morena, pros meus braços…

set. 23, 2014 - Música    1.367 Comentários

‘Alvorecer’, por Gabriel Cavalcante

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“Alvorecer”, o clássico de Dona Ivone Lara e Delcio Carvalho, tem em Gabriel Cavalcante uma releitura apaixonada. O músico e cantor do Samba do Trabalhador e do Samba da Ouvidor carrega “Alvorecer” pra onde vai. Quando se apresenta em carreira solo, é com esta música que ele abre o show. Invariavelmente. Como se fosse um amuleto. Para Gabriel Cavalcante, “Alvorecer” transmite a pureza que falta hoje em dia.

– É uma música feliz, positiva, que traz esperança. Os versos são fortes. Além de fortes, são puros. Sinto falta de pureza nos dias de hoje.

No vídeo abaixo, veja, Gabriel canta “Alvorecer” durante uma apresentação do Samba do Trabalhador, no Traço de União, em São Paulo. Foi no dia 16/09/2014, a sexta apresentação do grupo de Moacyr Luz em sua casa na Terra da Garoa (Hoje, a partir das 19h30m, tem mais).

Essa gravação foi feita num momento diferente do grupo. O Renascença Clube, berço da roda, no Andaraí, no Rio de Janeiro, está temporariamente impedido pela Justiça de usar microfones e caixas de som. (A proibição foi determinada no dia 12/08/2014 – Ontem, foi a sexta segunda-feira sem som). Com isso, todos precisam cantar junto quando alguém puxa uma música à mesa. O ouvinte ganha, já que o coro dele se torna fundamental. Mas, ao mesmo tempo, perde. Perde por não poder apenas parar e ouvir Gabriel cantando essa fina poesia do nosso samba.

É sem dúvida uma releitura especial do clássico. Em 2014, “Alvorecer” completa 40 anos que foi gravado pela primeira vez, por Clara Nunes. A música, inclusive, deu nome ao LP que ela lançou pela Odeon em 1974. Seis anos mais tarde, Delcio Carvalho colocou “Alvorecer” em seu LP “Canto de um povo”. Dona Ivone Lara só gravou essa joia em 1997, no CD “Bodas de ouro”, e regravou em 2009, no CD “Canto de rainha”. Em 2003, a música ganhou a voz de Mônica Salmasso, no CD “Um ser de luz – saudação à Clara Nunes”.

Gabriel não gravou o samba em CD nenhum. E, por enquanto, nem pretende. Sua versão é, digamos, livre. Só pode ser ouvida nas rodas (e agora neste vídeo). O músico da Muda que toca a emoção dos mais atentos com sua voz de barítono flerta com a pureza do samba:

– Tudo se resolve no Alvorecer.

A letra:

ALVORECER
Olha como a flor se acende
Quando o dia amanhece
Minha mágoa se esconde
A esperança aparece
O que me restou da noite
O cansaço, e a incerteza
La se vão na Beleza deste lindo alvorecer

E este mar em revolta que canta na areia
Tal a tristeza que trago e minh’alma canteia
Quero solução, sim, pois quero cantar
Desfrutar desta alegria
Que só me faz despertar do meu penar
E este canto bonito que vem da alvorada
Não é meu grito aflito pela madrugada
Tudo tão suave. Liberdade em cor
O refúgio da alma vencida pelo desamor

jul. 22, 2014 - Música    Sem comentários

Resposta à torcida argentina: do Rio para o mundo!

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Você deve ser uma das 2,6 milhões de pessoas alcançadas pelo post de Ancelmo Gois no Facebook sobre a música-resposta à torcida argentina. Tenho certeza de que aquela noite de 12 de julho de 2014, véspera da final da Copa do Mundo, não sairá da memória de quem estava no Samba da Ouvidor e participou da gravação do vídeo.

Como se sabe, eu, JP e Pedrinho da Muda (que são músicos da roda) fizemos a letra seguindo a melodia de “Brasil, decime qué se siente”, que os hermanos cantavam aqui de dois em dois minutos, durante a Copa.

Aí, a turma que estava na roda gostou da paródia e começou a cantar. Eu fiz um dos vídeos. O jornalista João Matheus Ferreira, repórter do Lance!, fez outro. Postamos no domingo, e a versão brasileira se espalhou pelo mundo. Parece até brincadeira, mas a matéria do GLOBO, publicada dia 16/06/2014, prova que não. Veja um trecho:

“A música-resposta dos brasileiros à torcida argentina, publicada em primeira mão no Blog Ancelmo Gois, do GLOBO, ganhou destaque na imprensa internacional.  (…) Além de veículos europeus (da Bélgica e da Espanha), a música foi parar nas páginas da imprensa da América Latina: “Vive Deporte”, do Equador; “Diez”, de Honduras; “El Observador”, do Uruguai; “Cochinopop” e “La Patilla”, da Venezuela; “El Espectador” e “El Tiempo”, da Colômbia; e “El Comércio”, do Peru.”

Ou seja: foi do Samba da Ouvidor, no Centro do Rio de Janeiro, para o mundo!

Veja o vídeo:

Ah… e foi tudo na paz, como as coisas têm que ser. Depois da gravação, a galera ainda cantava a música pelos cantos, e um argentino se aproximou da gente. Era torcedor do River Plate. Ele brincou, pediu pra ler a letra e fingiu debochar. Todo mundo riu, abraçou o hermano e brindou com ele.

Chega de violência!

Falando nisso…  no dia 18/07/2014, o Lance! fez outra matéria, com vídeo e tudo, da galera festejando a repercussão. O lugar escolhido para a gravação é uma espécie de sucursal deste blog, o Bar do Momo, na Tijuca.

Maravilha!

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