out 1, 2016 - Música    Sem comentários

Sobre ‘Marmita’, o segundo disco de Alexandre Nunes

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O segundo CD solo de Alexandre Nunes, “Marmita”, é uma seleção de talentos. Com músicas de compositores novos e consagrados, o disco é uma espécie de cartilha de conduta, repleta de avisos, recados e frases de efeito, uma reunião de dicas para saber tratar o bom malandro, além de um resumo das dores e delícias que um bamba sente quando abre o coração.

Essa linha ganha corpo com as músicas de Almir Guineto, Beto Sem Braço, Arlindo Cruz, Sombrinha, Jorge Aragão e Neoci. E assim, de quebra, Alexandre Nunes, que por quatro anos tocou com Luiz Carlos da Vila, ainda coloca em seu disco um pouco do clima dos bons tempos do Cacique de Ramos, a mais tradicional e profícua roda de samba do Rio de Janeiro. E é um presente ouvir tudo isso na voz de Alexandre Nunes, com a rouquidão que lhe é habitual.

Das 13 faixas do disco, apenas três são regravações e outras duas têm a assinatura do próprio Alexandre. Aliás, o nome do álbum marca uma nova fase em sua carreira. “Marmita” é seu apelido de infância. Não tem muito sentido, mas pegou:

– Um cara me colocou esse apelido. Não tinha justificativa, foi falta de criatividade mesmo. Eu tinha 11 anos e gostava da rua, por isso pegou. As pessoas me conhecem mais pelo apelido. Então, decidi dar esse nome ao CD – tenta explicar, aos risos.

A primeira faixa do disco é “Deixa a fumaça entrar”, de Martinho da Vila e Beto Sem Braço, que remete a religiões afro-descendentes: “Quando o seu olor exala/Olho grande fica cego/Pururuca nem se cria”. Foi gravada antes por Martinho da Vila e também por Arlindo Cruz.

A segunda é “Vai provar do meu veneno”, de Almir Guineto, Dudu Nobre e Fred Camacho. O recado é direto: “Se você me atraiçoar o mundo fica pequeno/Eu não vou te perdoar, vai provar do meu veneno”.

Em seguida, na faixa 3, está “Explosão da galera”, de Almir Guineto, Dayse do Banjo e Newton Motta, que abre alas para o romantismo. A letra diz: “Em segredo nossa apresentação/A bateria nossos corações/E a harmonia, com sabor e ginga/Amor e samba não terminam em cinzas/Os nossos corpos, nossas fantasias/Eu sou teu rei, você minha rainha”.

A quarta música é “Dois bicudos não se beijam”, de Alexandre Nunes, André da Mata e Mingo Silva. É o fim de um relacionamento, e o bom malandro mostra que não é de briga: “E se quiser ficar com tudo/O meu cavaco já me satisfaz/Cantarolando vou tocando a vida/Seguindo em frente sem olhar pra trás”.

Marmita, integrante do Samba do Trabalhador desde 2009, faz na faixa 5 sua homenagem à roda de Moacyr Luz. Ele regravou “Vai que vai”, de Moa e João Martins, gravada no disco “Moacyr Luz & Samba do Trabalhador – Dez anos e outros sambas”, de 2015. Diz lá: “Vai que um dia eu viro moda/Vai que a toda hora, em qualquer roda/Toca aquele samba que eu fiz pra ti”.

A faixa 6 tem o DNA e a lecada do Cacique, “Chama”, de Sombrinha e Delcio Luiz. É poesia cheia de amor e esperança: “A gente precisa sorrir/Brincando de amar pra valer/Pro tempo não passar à toa/A gente merece isso aí/O doce, o mel, o prazer/Correndo que o tempo voa”.

Toninho Geraes assina a faixa 7, “Seu mal”. Canta a história de um romance que chega ao fim com doses de decepção, com aqueles desfechos que doem demais: “Seu mal/Foi novamente maltratar o amor/Fazer as coisas sem pensar na dor/Sem medo de ser infeliz/Seu mal/Foi a mentira ser o seu papel/Você falando em lua de mel/Pra adoçar a ilusão”.

“Lado a lado”, de Marcelinho Moreira, Arlindo Cruz e Rogê, está na faixa 8 e retoma o romantismo com melodia leve a cadenciada: “Hoje eu só quero contigo/Me esquecer do passado/Rever o tempo perdido/Só para ficar ao teu lado”.

Na faixa 9, Alexandre gravou “Arribação”, de Wanderley Monteiro e Toninho Nascimento, compositores consagrados, entre outros lugares, nas disputas de samba na Portela. O samba recorre à Natureza para passar sua mensagem: “Galo da serra não canta onde tem gavião/Guarda a viola, fecha o bico e vai embora/ Se cantar de galo gavião devora/Se cantar de galo gavião devora”.

Alexandre assina com André e Mingo outra faixa do disco, a décima, “Vai se arrepender”. É mais uma prova de que sambista sofre por amor: “Você vai se arrepender/Longe do meu coração/Apesar de me fazer sofrer/Não vou lhe querer mal, não”.

A faixa 11 volta a falar do sentimento que emociona os compositores e plateias. Chama-se “Por acreditar no amor”, de Sérgio Fonseca, Evandro Lima e Romildo, e diz: “Por acreditar no amor/Foi que eu fiquei assim/Com um pé no batedor/E outro pé no botequim”.

Chico Alves e Inácio Rios assinam a faixa 12, “Cirando do querer”, e Alexandre Nunes a canta com maestria: “Dizem que quando a ciranda gira é difícil dizer não/Diz que quando essa ciranda gira põe na roda o coração”.

O CD é encerrado na faixa 13 com o pout pourri “Alma de irmão/Chá de louro”, que já foram gravadas antes. Alexandre Nunes as escolheu para fazer uma homenagem a uma parte de sua trajetória como sambista. Em meados dos anos 1990, Marmita frequentava o Pagode da Beltrão, em Santa Rosa, em Niterói, roda que, na época, chegou a contar com canjas de Luiz Carlos da Vila e, entre outros, Beth Carvalho. “Alma de irmão” é de Jorge Aragão e Sombrinha; “Chá de louro”, de Noeci e Pelado.

– Eu aprendi essas músicas lá. ‘Alma de irmão’ é uma música do Aragão e do Sombrinha em homenagem ao Neoci, lá do Cacique. E eles emendavam cantando ‘Chá de louro’, que é do Neoci e do Pelado, da Mangueira. É uma homenagem a uma fase importante da minha vida – exalta Nunes.

Músico talhado nas rodas e cantor cada vez mais admirado, Alexandre Nunes apresenta um disco cheio de sentimentos e significados. Quem gosta de samba, vai gostar de “Marmita”.

Daniel Brunet

 

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Este é o texto de apresentação do CD “Marmita”, que fiz para o Alexandre Nunes. O disco foi lançado em abril de 2016.

set 27, 2016 - Música    Sem comentários

Nego Alvaro lança disco ‘Cria do Samba’

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O CD “Cria do samba”, disco que marca a estreia de Nego Alvaro na carreira solo, esbanja vertentes do mais carioca dos gêneros musicais. Tem o clássico samba de roda, onde está a raiz do artista, o dolente, partido alto e até samba-rock. A obra, idealizada por Moacyr Luz, tem produção de Pretinho da Serrinha – que também fez os arranjos nos três sambas-rock do álbum – e reúne expoentes da nossa música, como Carlinhos 7 Cordas, Mart’nália, Sereno e Rildo Hora. Um time de primeira para dar mais brilho ao trabalho de Nego Alvaro, que, aos 27 anos, já é um músico experiente.

Ele começou a tocar profissionalmente aos 15 anos e se acostumou a subir os degraus do mundo da música. Integrante do Samba do Trabalhador e da banda de Beth Carvalho, Alvaro comanda, há quase dois anos, o Mafuá no Quintal, na Zona Norte carioca. Em todos esses palcos, apresenta o talento que mostra em seu primeiro disco solo, seja com os instrumentos de percussão, diante do microfone ou como compositor.

Das 11 faixas do disco, seis têm sua assinatura. E para dar cara ao disco “Cria do samba”, Nego Alvaro buscou músicas além de sua roda de parceiros. A faixa 5, “Hino Vira-Lata”, é de Emicida, Beatnick e K-Salaam, que o rapper paulista gravou, em 2013, no seu CD “O glorioso retorno de quem nunca esteve aqui”.

A canção explica: “Meu coração ‘tá’ na mão do ritmista/Do DJ, no pandeiro do repentista/E onde for, meu amor, vão saber/Que ali vai um maloqueiro/Apaixonado por você”.

E Nego Alvaro, sob a direção do talento de Pretinho da Serrinha, dá a essa faixa uma dançante pegada de samba-rock. O mesmo acontece com “Extra 2 (O rock do segurança)”, de Gilberto Gil, que está na faixa 10 e, originalmente, foi gravada pelo artista baiano no LP “Raça humana”, de 1984, quando Alvaro sequer era nascido.

É aquela que canta: “Sei que o senhor é pago pra suspeitar/Mas eu estou acima de qualquer suspeita/Em meu planeta todo o povo me respeita/Sou tratado assim como um paxá”

A música que abre e dá nome ao CD faz parte da vida de Alvaro: “Cria do samba”, parceria dele com Moacyr Luz e Mingo Silva, seus colegas de Samba do Trabalhador. É que a canção, que surgiu de ideia de Moacyr, é inspirada em Alvaro, que cresceu em Bangu, no subúrbio carioca. Diz a letra: Eu sou cria do samba/E sou subúrbio às “pampa”, sim/Da domingueira, andar descalço, chinfrim/Zé Pereira, sou baticum, butiquim/Abrideira, meu santo cuida de mim”.

Ela faz parte do disco “Moacyr Luz & Samba do Trabalhador – dez anos e outros sambas”, de 2015. E nesta gravação, é cantada apenas por Alvaro. No disco “Cria do Samba”, Alvaro divide a faixa com Moacyr Luz. Um luxo.

“De frente pro mar”, de Alvaro, Victor de Souza e Jonas Felipe, é a segunda música do CD. É um samba animado e que fala de amor: “Esse amor é o que vai nos levar pro céu”. Essas duas primeiras têm arranjos de Carlinhos 7 Cordas.

A terceira faixa é “Chuva no sertão”, parceria de Alvaro com Gabrielzinho de Irajá, Pablo Macabu e Paulo Henrique. A música, que tem arranjos de Rafael dos Anjos, é um samba dolente. É calmo, mas não tanto quanto uma oração, embora este samba seja uma prece, um pedido a Deus. Ele diz: “Senhor, ‘tão’ querendo calar a nossa voz/Mas eu sei que o senhor luta por nós/Por favor, não me deixa sozinho/Tira as pedras do meu caminho/Numa prece desata esses nós”.

“Estranhou o quê?” é a música que abriu portas para Nego Alvaro, como cantor, no mundo artístico. Ele a cantou no CD e DVD “Moacyr Luz e Samba do Trabalhador – ao vivo no Renascença Clube”, gravado em 2012 e lançado em 2013. De ritmo marcante, a letra pergunta, em tom provocante: “Estranhou o quê?/Preto pode ter o mesmo que você”.

É um canto de afirmação contra o racismo, e no disco de Nego Alvaro, ocupa a faixa de número 4.

Em seguida vem “Hino vira-lata”. E na faixa 6 está “Marca registrada”, de Alvaro, Sereno e Pablo Macabu. O música, inclusive conta com a participação de Rildo Hora, o maestro do samba, e Sereno, um dos imortais do Fundo de Quintal. É suave, bem no estilo das grandes composições que surgiram sob a tamarineira do Cacique de Ramos, o tradicional bloco que serviu de escola para Alvaro.

A música ensina: “Do fundo dos nossos quintais/Nasceram as mais ricas canções/E bem nos faz recordar de gerações em gerações/Ah.. o poder da canção/Nos deu o dom de encantar o mundo/É bom viver e cantar/É bom viver, recordar/É bom viver e cantar… pro mundo”.

Na sequência, na sétima faixa, Nego Alvaro segue prestando tributo ao quintal no qual foi talhado, preparado para o bom samba. Ele gravou um pout-pourri com três músicas de bambas consagrados por lá: “Eu prefiro acreditar” (Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz e Marquinhos PQD), “A voz do Brasil” (Sombra, Sombrinha e Luiz Carlos da Vila) e “Nascente da paz” (Sombrinha e Adilson Vitor).

A faixa 8 tem música e letra do artista. “Pra te encontrar” registra o desafio de um bamba apaixonado, que pensa em fazer de tudo para ter sua amada por perto: “Eu não sei o que fazer/Mas eu vou te conquistar/Nem que eu tenho que ser a luz mais bonita que o luar/Nem que eu tenho que ser o mais belo no pássaro no ar/Nem que eu tenho que ser um canto sublime e te encantar/Nem que eu tenho que ser um suave, doce paladar”.

O samba “Tá querendo”, na faixa 9, parceria de Alvaro com Marcelinho Moreira e Leandro Fab, esbanja a malemolência do bom malandro, a sabedoria do sambista que flerta com poesia. Veja só: “´Tá’ querendo o que de mim?/’Tá’ querendo/’Tá’ querendo um dengo, eu dou/’Tá’ querendo/’Tá’ querendo um cheiro, Ó, flor/’Tá’ querendo”.

“Extra 2 (O rock do segurança)”, de Gilberto Gil, é a décima faixa.

E a música que encerra o disco de Nego Alvaro é uma inédita de Moacyr Luz, “Circular”, e remete ao subúrbio carioca, berço desse sambista de primeira. E esse samba, bastante sincopado, conta com a especialíssima participação de Mart’nália. A letra passeia pelo Rio, principalmente pelo miolo da Cidade Maravilhosa: “Carioca da Gema/A pé da Boca do Mato/Na Vila da Penha/Bicão e Sumidouro/Travessa do Sereno, Sal/O Sentaí, atrás da Central/Tem Linha Amarela, na mão que desce à Maré/Largo da

Cancela/No Mangue, no Tanque/No charme em Madureira/Estação Primeira”.

Desfilando do samba dolente ao samba-rock, o disco de Nego Alvaro faz o ouvinte riscar o salão, seja dizendo no pé ou na palma da mão.

Daniel Brunet

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** Texto de apresentação do CD “Cria do samba” que fiz para o Nego Alvaro.

set 16, 2016 - Música, Recado    Sem comentários

Escultor trabalha descalço para terminar a estátua de Pixinguinha

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Tal qual o som que saía de sua flauta, a estátua de Pixinguinha, o mestre do choro, está sendo esculpida com um quê de magia. A inauguração da obra será no próximo dia 24, um sábado, em frente ao Bar da Portuguesa, em Ramos, na Zona Norte do Rio. Ique, 53 anos, o artista autor da peça, conta que, nessa reta final, cerca de um mês para cá, está trabalhando descalço. É que ele teve um sonho com Pixinguinha (1897-1973). E isso, acredite, fez o trabalho melhorar.

– Eu andei com problemas de saúde, e a escultura não estava andando como deveria. Parecia que eu não achava o caminho que costumo achar – conta o experiente artista.

Isso aconteceu no mês passado. E no fim de agosto, no dia 26, a coluna Ancelmo Gois publicou uma foto da peça que impressionou os leitores por causa da extrema semelhança com o grande músico, autor da melodia de “Carinhoso”, o clássico da nossa música que completa 100 anos em 2017.

Só que, há uns 30 dias, Ique estava preocupado. Sentia dores nas pernas, o que atrapalhava sua desenvoltura no ateliê, e numa noite do mês passado, foi dormir “bem apreensivo, preocupado com o resultado e os prazos”. Foi quando sonhou com Pizindin.

No sonho, o grande instrumentista, “cuja flauta, na roda dos boêmios, era rainha”, puxou assunto com o escultor.

– Mas o que é que está te preocupando tanto?

E Ique foi sincero:

– Não estou conseguindo encontrar você na escultura.

Pixinguinha abriu um largo sorriso, olhou para Ique e sentenciou:

– Também pudera. Você está me modelando calçado. Coloque o pé no chão que você me encontra facilmente!

No dia seguinte, ele acordou com o sonho na cabeça. As imagens daquele encontro estavam nítidas, como se, de fato, tivesse acontecido horas antes, na vida real. O escultor diz que não acredita em sonhos, mas decidiu, dali para frente, trabalhar na estátua de Pizindin com os pés descalços – como mostra a foto lá do alto, deles ao lado de Cristiane e Dona Donzília, do Bar da Portuguesa.

– Não custava nada tirar os sapatos. E me sinto muito mais confortável com ele sem os sapatos. Ele parece que está vivo aqui comigo. Uma energia muito boa – vibra Ique.

Pode ser coincidência, talvez quimera. Mas o trabalho avançou, jamais voltou a ser o que era. Ique achou o tal caminho para esculpir a peça, conseguiu encontrar Pixinguinha na estátua. E mais: as dores nas pernas… sumiram.

Agora, ele dá os últimos retoques na obra. Dia 24, Pixinguinha voltará à porta do bar de Ramos que frequentou por anos e anos. E já consigo ouvir a esquina inteira cantarolando: “Meu coração. Não sei porquê. Bate feliz. Quando te vê…”.

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(** O texto foi atualizado dia 17. A inauguração da estátua foi antecipada para o sábado, dia 24.)

set 14, 2016 - Flamengo, Opinião    Sem comentários

Voltamos: Flamengo se reconcilia com a torcida

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O sorriso bobo – e até um pouco provocador – do flamenguista e as cenas de hoje, da torcida caminhando pelo Centro do Rio e lotando o aeroporto Santos Dumont não são magia. São atos que sucedem uma reconciliação. Acontece com todo casal.

Depois das pazes, os beijos são mais intensos. Os toques, mais carinhosos. A atenção, redobrada. Não é?

Pois bem. O Flamengo voltou-se para sua amada, a torcida, e disse o que ela mais queria ouvir: “Desculpa por esses anos meio estranho. Mas eu mudei, voltei a ser aquele por quem você se apaixonou…”

E os pontos fora de casa passaram a ser conquistados, a classificação difícil voltou a acontecer, o lateral agora acerta cruzamentos precisos e aquele atacante que não marcava, hoje vive balançado a rede.

E a recíproca é… rubro-negra. Não havia outra forma de reagir que não fosse essa, abraçado o time bem apertado e dizendo sem gaguejar: “Eu acredito em você! Te amo!”

Nada melhor que a reconciliação, que a renovação de votos, que a troca de juras sinceras. Dois corpos assim são um e, num fenômeno bioquímico, liberam substâncias que aumentam a atração. É o cheirinho, gente! Não tem como evitar.

Mas se você não entende de amor. Não atrapalhe. Deixa a gente ser feliz… acabamos de voltar! Read more »

set 6, 2016 - Opinião, Recado    Sem comentários

‘Segunda-feira’: Justiça quase impediu show de Zeca Pagodinho no Renascença

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“Segunda-feira, a história do Samba do Trabalhador” costura muitas histórias. Uma delas, por exemplo, aconteceu em julho de 1991, mês marcante para o Renascença, no Andaraí, no Rio. Fazia uns três anos que o clube travava uma batalha judicial contra o MP e uns vizinhos por causa do volume do som e do horários de alguns eventos. No dia 12 daquele mês, a Justiça intimou a diretoria para informar que o clube não poderia promover “festa ou evento com uso de sonorização de qualquer natureza”. Era uma interdição parcial.
 
Acontece que, em duas semanas, haveria um evento especial por lá, e a proibição da Justiça atravessava o caminho, atrapalhava os planos.
 
Nisso, a advogada Marisi Rodrigues da Silva, representando o Renascença, entrou em cena para defender o clube: impetrou um mandado de segurança contra a decisão do magistrado e, diante dele, fez as justificativas certeiras. Entre uma informação e outra, jurou de pé junto:
 
– Dia 27 tem um evento muito importante no Renascença…
 
E era mesmo. Era um show de Zeca Pagodinho, que já fazia sucesso mas ainda não era a unanimidade que é hoje. Naquele ano, Zeca estava colocando nas vitrines seu sexto LP, o “Pixote”, que tem músicas como “Em nome da alegria” e “Minha fama ninguém tira”. A Justiça, ufa!, liberou a festa, e Zeca pode cantar. Quem foi, lembra-se que o clube lotou. E, ao que consta, esta foi a última apresentação do bamba no Renascença.
set 1, 2016 - Crônica, Opinião    Sem comentários

‘Há folhas no meu coração’

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Era noite de chuva, daquelas geladas que tiram do Rio de Janeiro a cara de Rio de Janeiro. Estranha como o sujeito que caminhava pela rua sem querer encontrar ninguém, nenhum dos seus. Naqueles dias, andava taciturno, não erguia o olhar, esgueirava-se pelos cantos. Não ia bem. Ali na Rua Uruguai, entrou num botequim desconhecido, no qual jamais havia pisado, apesar de viver subindo e descendo por aquelas esquinas. O bar era perfeito para sua pretensão: não ser achado. Esconderia ali sua tristeza, e era tudo que importava.

O salão estava cheio, e a chuva lá fora fazia com que todos se apertassem lá dentro. Colada numa das paredes, uma cadeira vazia. Era a única e bem ao lado de uma mesa ocupada por um senhorzinho.

– Oi… se incomoda?!
– Não, não… – disse o velho, apontado para a cadeira vazia.

Sentou-se e não pediu cachaça. Nem cerveja. Preferiu uma batida da casa. Tinha o olhar distante, fixo num ponto que não sabia qual era. O movimento da mão que pegava o copo parecia automático. Somente meia hora depois é que o velho e o moço voltaram a trocar palavras.

– Dor de amor, é?, quis saber o da cabeça branca.
– Acho… bem… acho que desamor – respondeu, levantando o copo como se brindasse.
– É o que mais vemos por aí, meu jovem. O casamento vai mal?
– Não tem mais. Acabou. Uma semana já…
– Durou?
– Sete anos e umas semanas. Sabe como é, né? A crise dos sete anos…
– Besteira, meu jovem. Os anos nada têm com isso.

O homem coçou o rosto vagarosamente, tomou fôlego, olhou pro velho, deu mais um gole, daqueles caprichados. O senhor seguiu o raciocínio:
– Tem casamento que acaba com 40 anos, uns com 40 dias…
– É verdade! Quem vai saber?
– E você a ama?
– O que o senhor acha? – disse o jovem, apontando para si como quem revela o que os olhos não veem.
– Claro que ama. Amor é difícil de achar…
– É, sim. E penso que nunca mais vou conhecer ninguém como ela.
– Besteira, meu jovem. A vida é cheia de oportunidades.
– Já tenho 40 anos. Até encontrar outra pessoa…
– Quer trocar de idade comigo? – disse o velho, estampando no rosto um sorriso de candidato a prefeito: – A vida começa agora. Aliás, garoto, só temos o agora.
– O senhor sabe das coisas, hein, velho. É a idade, né?!

Ele balançou a cabeça negativamente.
– A vida ensina a quem quer aprender. Tem muito velho por aí que não sabe o que diz, que não soube aprender.
– Eu tô aprendendo. Aos trancos… Só que sem ela…
– Perdoe-me a intromissão, rapaz. Quem não é feliz sozinho, não é feliz com ninguém.
– Pode ser. Mas o cara lá de cima não gosta de mim, não. Minha vida é só confusão.
– Deus tem nada a ver com isso. Quem toma decisão é você, não é? Se vai pra casa mais cedo, se vai beber mais uma, se vai ligar pra ela amanhã. Você decide. É ou não é? A gente planta, a gente colhe. Deus é pai, gosta de todo mundo, e você quer colocar culpa nele?

O sujeito gostou do papo do velho. Talvez por causa da fala mansa, jeito que passa tranquilidade como uma tarde de outono.
– Tudo bem. Eu preciso ouvir mesmo, ouvir mais.
– Acho que reagir é a palavra. Reagir.
– Ô… tô tentando.
– Tem que olhar pra frente, não esquecer o passado para não repetir os erros e dar o primeiro passo, em frente, sempre em frente. “Faça como um velho marinheiro que durante o nevoeiro…”
– “…leva o barco devagar”. Paulinho da Viola – completou.
– Isso. Tem tanta coisa aí boa para viver. Mas se você apenas olhar para os seus problemas, só irá, claro, enxergar os seus problemas.
– O senhor fala como se me conhecesse há décadas…
– Somos todos iguais, meu jovem. Humanos, cheios de problemas, dúvidas e vontades. Somos os mesmos há séculos. Só o que evolui é a tecnologia.

O jovem achou graça. A prosa, naturalmente, mudou de rumo. Falaram de futebol, de música, do impeachment.
– Você vai curtir quando tiver filhos, mas vai curtir ainda mais quando tiver netos… – disse o velho.

O jovem concordou com a cabeça.
– Calma aí, calma aí – disse.

Levantou-se, pediu licença e foi ao banheiro.
– Uma pausa, velha guarda. Já volto – completou.

É curioso como às vezes esbarramos com alguém na rua e, do nada, estamos contando nossas intimidades, nossos sonhos e nossos piores pesadelos. Nem sempre ouvimos conselhos prudentes, diga-se. Abrimos nossas histórias para pessoas que nunca vimos. Na ida ao mictório, o homem pensou nessa “loucura”. Mas, no fundo, alimentava a certeza de que o “velha guarda” era do bem.

Afinal, ouviu com paciência, deu conselhos precisos e preciosos, como se fosse um avô, daqueles que sabem de tudo. O fato é que o sujeito que entrou no bar cabisbaixo estava empolgado. E não era o álcool. Agora, ele queria contar algo que lhe havia acontecido recentemente. Nem percebeu o quanto aquilo era estranho, mas queria saber a opinião do velho. Só que quando voltou ao salão, o senhorzinho já não estava mais lá.

– Aí, aquele coroa que estava aqui… foi embora? – o homem perguntou ao Zé, que arrumava o dinheiro no caixa.
– Sei não, chefe. Se foi embora eu não vi.

Ficou um pouco desapontado. Afinal, passara as últimas horas ali conversando, ouvindo um desconhecido e até certo ponto aprendendo com a experiência que  ainda não tinha e lhe despertava interesse. Para onde ele teria ido? Por que não se despediu?

O homem, então, se deu conta de que sequer havia perguntado o nome do velho, também não tinha se apresentado. Quando estava se acostumando com a companhia, ela se foi.
Era o tempo.

 

***
Amanhã, Aldir Blanc completa 70 anos. Este texto, livremente inspirado em “Resposta ao tempo” (Aldir e Cristóvão Bastos), é homenagem ao grande compositor.

ago 18, 2016 - Opinião    Sem comentários

Continência na Rio-2016: uma ironia corre nas redes

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A força da internet é, muitas das vezes, mola propulsora de devaneios. Prova disso é essa imagem que circula nas redes sociais. Logo agora, tempo em que há jovens pedindo intervenção militar no Brasil. Eles ignoram os exemplos que habitam a História, a nossa e a dos outros. Por isso, mensagens como esta precisam ser combatidas com informação, sem qualquer paixão ou motivação política.

A montagem usa imagens de atletas prestando continência em pódios. Três fotos são na Rio-2016. Cinco, no Pan-Americano de Toronto, em 2015. Repare na diferença entre os agasalhos e no cordão das medalhas.

Quem pede a intervenção militar e compartilha mensagens como esta costuma bradar por aí que o Brasil vive sob ameaça comunista, que os comunistas isso, os comunistas aquilo, costuma dizer que os petralhas e corruPTos são a escória do universo.

Pois bem. Veja só a ironia que essas continências guardam. Os nossos atletas militares, medalhistas em Toronto-2015 e Rio-2016, fazem parte do Programa Atletas de Alto Rendimento, que investe, por ano, uns R$ 18 milhões na capacitação de esportistas.

E esse programa foi criado em 2008, no governo Lula. Trata-se de uma parceria dos ministérios da Defesa – à época comandado por Nelson Jobim, ex-presidente do Supremo – e do Esporte – à época sob chefia de Orlando Silva, o político baiano, hoje deputado federal por São Paulo. Detalhe: Orlando, o ex-ministro com nome de cantor, é filiado ao Partido… Comunista do Brasil.

Ou seja: quem usa nossos atletas militares em posts como este está, sem querer, reconhecendo o sucesso de um programa feito por gente que eles detestam.

Nada contra militares, nem contra comunistas. Eu não gosto mesmo é da ignorância.

ago 6, 2016 - Música, Recado    Sem comentários

Quando a morte toca o samba

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A ideia de escrever o “Segunda-feira, a história do Samba do Trabalhador” também surgiu de uma inquietação: registrar a vida e obra de quem faz o samba acontecer como forma de valorizar cada um deles. Por isso, o livro tem 100 verbetes de cantores, compositores e músicos que acrescentaram e acrescentam alma à roda que acontece às segundas no Renascença. Lembro que a dona da primeira editora a qual ofereci o “Segunda-feira” me disse que essa parte não era comercial. Encarei como elogio às avessas, já que eu não sou um comerciante. Contador de histórias, vivo orgulhoso por ter deitado em papéis a memória desses bambas.

Quando comecei a escrever o livro, Denny Lima e Ratinho já tinham morrido. E durante a produção dos textos, despedi-me de Bandeira Brasil e Éfson. Deu uma angústia danada, sabe? Queria que eles tivessem lido o que foi escrito sobre eles.

E a minha maior satisfação é ver a emoção desses biografados, ver a alegria que o reconhecimento joga nos olhos deles. E Adalto Magalha, o cantor e compositor que nos deixou hoje, deu-me esse prazer. Adalto foi ao lançamento no Rena e, entre outras coisas, disse-me “muito obrigado”. Não precisava. Eu retribui, agradecendo pela oportunidade de contar um pouquinho da trajetória do coautor de “Rendição” (com Almir Guineto e Capri), do cara que lançou, em 2012, “O canto do poeta”.

A morte sempre traz reflexão. E em quase todos os casos deixa um gosto de “poderia ter feito isso ou aquilo”, “uma última palavra, um último abraço”. Acontece com os sambistas também, mas eles encaram a morte de forma diferente. Talvez por viverem entre o pandeiro e a cuíca.

O pandeiro tem muitos sons e ritmo contagiante. Produz efeito que contrasta com o rumor da cuíca, que, muitas e muitas vezes, é comparado ao pranto, ao choro. Mas, juntos, eles dão brilho à roda. Porque na vida é assim: alegria e tristeza sobre a mesma corda bamba.

Na cerimônia de despedida do corpo de Magalha, vai ter disso. Certamente vão cantar as músicas dele, lembrar das boas histórias. Vão sorrir e vão brindar. No samba é assim. Mas também vão lamentar não terem feito “aquela parceria”, “terminado aquela música”, “não terem ido naquela última roda”.

Porque quando a morte toca o samba, a cuíca, ainda que por uns instantes, toma o lugar do pandeiro.

Adalto Magalhães Gavião, o Adalto Magalha, morreu aos 65 anos da forma que é digna aos poetas. De madrugada, pouco antes das 2h, ele sentiu falta de ar, muita falta de ar. Pediu ajuda à mulher, sua companheira. Queria que ela pegasse aquele aparelho que tem uma máscara e ajuda a respirar melhor.

Só que Adalto sentiu que aquela crise era forte demais, mais intensa do que as que teve até ali. A mulher foi ágil, mas quando voltou só deu tempo de ouvir Adalto dizer: “Não vai dar tempo, me dá um abraço…”

E assim o poeta morreu, porque, como diz um trecho de “Rendição”, “O amor não é dinheiro para se querer guardar”.

Valeu, Adalto!

 

 

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Foto: Reprodução/Silvio Zekatraca

jul 23, 2016 - Opinião    Sem comentários

Chacina da Candelária, 23 anos

chacina

Hoje, completam-se 23 anos do dia 23 de julho de 1993. Era uma sexta-feira, e o presidente Itamar Franco informou que republicaria, pela quarta vez, a lei do Imposto Provisório sobre Movimentação Financeira (IPMF); Os EUA anunciaram que a Aids, agora, avançava mais sobre as mulheres do que sobre os homens; e o técnico Carlos Alberto Parreira desistiu de colocar Valdo como titular no meio-campo da seleção para o jogo contra a Bolívia, no domingo. Deu a vaga a Luis Henrique. É que Palhinha e Valdo não estavam conseguindo abastecer o ataque, até então formando por Bebeto e Müller.

Mas ninguém se lembra disso. É que 23 de julho de 1993 é o dia da Chacina da Candelária. É impressionante como o brutal derramamento de sangue tem poder de marcar o calendário, o tempo, a memória. Eu tinha quase 11 anos, a idade da vítima mais nova.

Até hoje, em frente à Igreja da Candelária, há desenhos de oito corpos, em vermelho. É para despertar a curiosidade dos desinformados que passam por lá. Porque quem sabe não esquece. Não dá.

Dois jovens que sobreviveram à chacina viraram notícia. Sandro do Nascimento sequestrou um ônibus da linha 174, em 2000. Tinha 22 anos. Matou uma professora e foi morto por PMs no mesmo dia. Muita gente dizia que se ele tivesse morrido na Candelária, não teria matado ninguém.

O outro é Wagner dos Santos, que tinha 21 anos em 1993. Levou sete tiros. Em 1994, sofreu outro atentado e foi morar na Suíça. Os tiros lhe impuseram parciais perdas de audição, visão e movimentos do rosto. Desde 2009, recebe do governo do Rio pensão vitalícia de dois salários-mínimos por mês. Sobre Wagner, ‘muita gente’ não me falou nada.

Sandro seguiu o crime. Matou e morreu. Wagner fugiu. Está vivo e até hoje na Europa.

jb

É bem comum hoje em dia ver pessoas torcendo por novas Chacinas da Candelária. É bem comum ver gente encher o peito e dizer: “Tá com pena? Leva pra casa”.

Mas isso só é útil para quem tem tempo a perder em discussões estéreis. Os intelectualmente limitados precisam reduzir a questão a “direitos humanos x humanos direitos”, “esquerda x direita”, “vítima do sistema x semente do mal”, “sim x não”. Caso contrário, não conseguem conversar.

Não conseguem enxergar que pouco depois da Chacina da Candelária, novos meninos voltaram a dormir sob marquises, a desafiar a polícia e a roubar transeuntes, na mão, com caco de vidro, com faca e arma de fogo.

Hoje, novos meninos – ou menores infratores ou bandidinhos, se você preferir – roubam à luz do dia da Candelária à Prefeitura, da Praça Mauá à Lapa. Diariamente ou quase que diariamente. A chacina não resolveu o problema na época. Opa… evite passar atestado de tacanho dizendo: “Mas tinha que ter matado todo mundo”.

As mortes de oito deixaram em familiares e amigos marcas não curadas até hoje, 23 anos depois. Assim como a morte da professora Geisa Firmo, no episódio do 174, assim como a morte diária dos nossos policiais. Aliás, a Chacina da Candelária gerou estragos irreparáveis nas famílias dos próprios assassinos. É que os frutos da violência são revolta, medo, choro, morte, trauma, mania de perseguição.

E se todos tivessem tido antes o socorro dado a Wagner? E se todos vivessem num lugar com ensino, emprego, sem desigualdade?

O que você faria com o seu estranho prazer de ver a morte dos outros, com o seu desejo de chafurdar em sangue criminoso?

E se te descobrissem e quisessem te matar? E se quisessem matar todos vocês? O que você faria?

Pois eu diria a mesma coisa que agora digo: chacina não resolve problema. Cria outros.

jul 12, 2016 - Opinião, Recado    Sem comentários

Não era só mais um Silva: do projeto social ao pódio no Country

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NÃO ERA SÓ MAIS UM SILVA
Dá um prazer danado contar histórias assim. O menino da foto é Cauã Silva, de 10 anos, morador de uma comunidade na Zona Norte carioca. Filho de empregada doméstica e aluno do Projeto Social Tênis Solidário, em Pilares, ele foi vice-campeão do Liga Tênis 10, domingo, no Country Club do Rio, em Ipanema.
 
O miúdo, segundo o professor Artur Ricardo, jogou a competição com roupas brancas para… homenagear as babás. É que, como saiu na coluna Ancelmo Gois, lá no Country elas não podiam usar os banheiros femininos. Só o das crianças.
 
Cauã ainda é pequeno, mas o feito dele é grande. O garoto treina desde os seis anos no Tênis Solidário. As aulas são numa quadra de futebol cheia de rachaduras e os equipamentos que ele usa – raquete, bolas, rede – são doados.
 
Apesar das inúmeras dificuldades, o menino Cauã foi até o Country e jogou de igual para igual com meninos acostumados às quadras de saibro, que tinham as melhores raquetes.
Poderia ser só mais um Silva. Mas este Silva, o pequeno Cauã saiu de lá com uma medalha no peito.
 
Fico imaginando a alegria da família desse garoto.
 
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Aliás, como a coluna também conta hoje, ontem, em audiência, no MP do Trabalho, o clube se comprometeu a liberar todos os banheiros, sem exceção, às babás.
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